
  Romance


 





                                                 PERSEGUIO 
                                                         DIANA PALMER 
 


Srie Night of Love
1. Night of Love (1993)  Prova de fogo
2. King's Ransom (1993)  A noiva do rei
3. Secret Agent Man (1993)  Perseguio




 
CAPTULO I


Lang Patton sentia-se praticamente nu sem a pequena pistola automtica e as credenciais de agente, que se acostumara a usar nos ltimos anos. Contudo, fora sua deciso de deixar o trabalho na CIA e ingressar numa companhia particular de segurana, em San Antonio.
Depois de um exaustivo atraso do vo que o trazia de Washington, ele por fim caminhava pelo saguo do aeroporto de San Antonio. Carregando nas costas uma grande sacola de lona, ele olhava ao redor procurando o irmo.
Lang destacava-se na multido pela altura e pelo porte musculoso. Os cabelos escuros emolduravam um rosto atraente, onde brilhavam como carves os olhos negros. Bob, seu irmo, parecia uma verso mais idosa dele, porm de compleio fsica mais franzina. Os dois avistaram-se  distncia, e aproximaram-se. Emergindo da multido, levado pela mo de Bob, um menino de seis anos sorria.
 Oi. Espero que tenha acabado de chegar  saudou Bob.  Tive que trazer Mikey.
 Oi, tio Lang!  cumprimentou com entusiasmo o menino, sorrindo sem um dos dentes da frente.  Tem matado muitos bandidos?
O volume da pergunta do garoto fez com que um segurana do aeroporto se voltasse na direo deles.
 Ultimamente, no  respondeu Lang, disfarando. Apertou com fora a mo do irmo, e curvou-se para apanhar Mikey no colo.  Como vai indo parceiro?
 timo! O dentista disse que vai nascer um dente novo, mas a fadinha me deixou uma moeda de um dlar pelo meu dente velho.
 C entre ns, acho que a Fadinha vai  falncia  declarou Bob, em voz baixa.
 Posso ver sua arma tio Lang?  insistiu Mikey.
O segurana levantou as sobrancelhas. Lang suspirou quando viu que o homem vinha na direo deles. Passara por aquilo tantas vezes que conhecia a rotina inteira; chegou a abrir o palet com ambas as mos sem que o guarda pedisse.
O homem inclinou a cabea, desconcertado.
 Bela camisa, moo. Ou est mostrando a musculatura?
 Estou mostrando que no carrego arma nenhuma  declarou Lang.  
 Certo. Mas eu no estou procurando arma nenhuma  disse o segurana.  Seu nome  Lang PAtton?
  sim.
 Ningum mais por aqui se encaixa na descrio que me deram  continuou ele.  Bem, acontece que temos uma Sra. Patton ao telefone, que pediu para o senhor parar na loja de autopeas a caminho de casa e comprar um carburador novo para Mustang, mil novecentos e sessenta e cinco. Disse para pedir por favor.
 Ah, ele no vai no!  resmungou Bob.  J disse que ela no pode ir escalando todo mundo desse jeito.
Lang ostentava um sorriso divertido ao escutar as queixas do irmo. Voltou-se para o guarda:  A mulher dele... minha cunhada...  um gnio para consertar qualquer tipo de motor  justificou ele.  Qualquer coisa que tenha rodas. Mas meu irmo aqui, no acha isso muito feminino.  
 Em que sculo voc est vivendo?  comentou o guarda.  Em casa,  a patroa que mantm funcionando nossa velha mquina de lavar. Ela economiza uma fortuna em mo de obra. No existe nada melhor do que uma esposa que tenha jeito com ferramentas. Devia ser agradecido, amigo. Sabe quanto os mecnicos cobram hoje em dia?
 Claro que sei quanto cobra um mecnico. Estou casado com um  informou Bob de mau humor. Voltou-se para o irmo,  Ela tem a prpria oficina, e no se importa nem um pouco em chegar toda suja de graxa em casa, cheirando gasolina e borracha queimada. Tudo o que fao ultimamente  servir de bab l em casa.
Lang sabia que o irmo estava irritado. Ambos haviam passado a infncia relegados ao segundo plano, por causa do trabalho da me. Ele no pretendia repetir a histria na prpria casa.
 Que  isso, Connie adora voc...  disse ele, tentanto colocar panos quentes na situao.  Alm do mais, voc tem uma carreira, e acho que se vira muito bem. Mikey vai seguir o seu exemplo um dia, no vai, Mikey?
 Eu, no. Quero ficar todo sujo de graxa, que nem minha me!
O guarda afastou-se para atender um passageiro exaltado. Bob olhou para o filho, levantou as mos aos cus, suspirou, e caminhou para a sada, exasperado.
Lang e Mikey seguiram atrs.
A casa dos Ptton focava em Floresville, um local agradvel prximo a San Antonio, onde o gado dividia seus pastos verdejantes com postos de gasolina que ainda utilizavam bombas manuais. Era parte do Texas que mantivera o esprito rural, e Lang guardava na memria recordaes agradveis daquele lugar, na infncia. Muitas vezes ele e o irmo iam visitar o rancho do tio, e andavam a cavalo com caubis de verdade. Em casa, as coisas eram um pouco diferentes.
 O tempo passa depressa  Observou Lang, com ar vago.
 Voc nem faz idia como...  respondeu Bob, encarando o irmo.  Vi Sandra no centro da cidade, outro dia.
O corao de Lang bateu mais forte. No estava esperando escutar o nome dela. Durante cinco anos, tentara de todas as maneiras esquec-la.  
   simples meno do nome, veio  sua mente uma imagem de Sandra, o cabelo loiro esvoaando ao vento, os olhos verdes brilhando de alegria. Outras recordaes, no to agradveis, surgiram. O belo rosto chorando, suplicando a Lang que a escutasse. Porm ele no a atendera. Apanhara-a semidespida com seu melhor amigo, e no acesso de raiva acreditara nas aparncias. Demorou seis meses para descobrir que o prprio amigo preparara toda a situao, porque desejava Sandra para si mesmo.
 Tentei pedir desculpas uma vez  disse Lang, pois o irmo sabia de toda a histria.
 Ela no fala sobre voc at hoje  respondeu Bob, virando o volante na rua de sua casa.   muito educada, e muda de assunto quando algum fala em voc, mas sempre faz isso.
 Ela ainda vem para c?
 Me parece que ela evita Floresville como o diabo foge da cruz. Desde que a me vendeu a velha casa onde moraram. Voc deve ter magoado um bocado a moa...
 Voc nem faz idia...
 Logo depois voc entrou para a CIA, no foi?
 Eu tinha prestado concurso seis meses antes  lembrou Lang.  No foi uma deciso sbita.
 Mas foi uma coisa que voc no contou para nenhum de ns.
  que eu sabia que ningum iria gostar. Mas estou aqui de volta, no estou? So e salvo, com algumas cicatrizes, recordaes ruins, e muitas aventuras para contar.
 , e to sozinho quanto saiu  comentou Bob, apontando o pequeno Mikey, acomodado em seu prprio assento, provido de volante.  Se tivesse casado, podia ter um desses agora.
 No tenho a sua coragem  declarou Lang, taciturno.
 E voc ainda diz que eu no devia deixar o passado arruinar minha vida...
 Mas sempre tende a voltar. Um pouco menos durante o tempo que estive fora.
 Mas voc evita lidar com o assunto, Lang. Est ficando mais velho. Algum dia vai querer uma esposa e filhos.
Lang no podia desmentir aquilo. Foi a idia de ter filhos que o fez hesitar.
 Meu ltimo caso me fez lembrar como a vida pode ser curta, e imprevisvel  comentou, com ar ausente.  
 A mulher que eu ajudava a guardar tinha um irmo que estava em coma h anos. Um pouco mais velho que Mikey... um garoto legal. Fiquei ligado a ele. Isso me fez pensar um bocado sobre minha vida, e onde eu pretendia chegar. Pouco depois, ima pessoa amiga mencionou o emprego numa companhia de segurana, e decidi tentar.
 Que pessoa amiga foi esse? Alguma mulher?  quis saber o irmo, fazendo a curva na rua de sua casa.
Lang olhou para ele antes de responder.
 Foi Lorna.
 Ela ainda est interessada em voc.
 Lorna desistiu de mim h muitos anos, antes que eu comeasse a sair com Sandra. Ela s imaginou que eu gostaria de uma mudana. Na verdade, no se trata de uma histria romntica.
Bob no disse nada, mas sua expresso revelou o que pensava.
 Tudo bem, eu paro de ficar me intrometendo na sua vida. Onde fica esse novo emprego?
  uma firma chamada Lancaster, em San Antonio. Controla vrias companhias diferentes, e eu ficarei responsvel pela superviso de Segurana em todas elas.
 Lancaster? Puxa, como estamos importantes...  brincou Bob fazendo uma careta em seguida.  S espero que ainda goste de panquecas para jantar.  a nica coisa que sei fazer na cozinha, alm de omelete. Connie vai demorar algumas horas para voltar. Provavelmente vou bater uma omelete para ela quando chegar. Cara, eu odeio essa histria de oficina mecnica!  
 Mas voc j sabia que Connie adorava mecnica quando casou com ela  argumentou Lang.
 , mas no sabia que ela pretendia abrir uma oficina prpria. Desde que ela comeou com esse negcio, h seis meses, tenho vivido como pai solteiro. Cuido de Mikey o tempo todo, e ela no para mais dentro de casa.
Lang arqueou as sobrancelhas.
 Ela tem ajudante?
 Diz que ainda no ganha o suficiente  resmungou Bob, manobrando para o acesso da casa em estilo vitoriano. Lang reparou na nova construo de folhas de zinco no quintal, de onde vinham rudos metlicos. Havia uma senhora  porta da casa vizinha, que sorriu para Bob e dirigiu-se ao irmo:
 Que bom ver voc por aqui outra vez, Lang. Espero que no tenha vindo  procura de paz e um lugar calmo, porque o centro de San Antonio  mais calmo do que aqui.
 Voc est gritando, Marta  observou Bob, com voz calma.
 Preciso gritar na minha prpria casa para que algum consiga escutar o que eu digo  respondeu a senhora, comeando a ficar vermelha com o esforo.  No pode conseguir que ela pare num horrio respeitvel?
 Tente voc mesma, para ver o que ela diz.
 Eu, no! Uma vez eu tentei, e ela me atirou uma ferramenta com nome esquisito em mim  admitiu Marta, sem graa, voltando ao trabalho no jardim.
Lang, fazendo fora para no rir, apanhou a bagagem e o sobrinho, no banco traseiro.
 S trouxe essa sacola de lona?  quis saber Bob, pela segunda vez desde o aeroporto.
 No gosto de acumular coisas.  o mais sensato a fazer quando a profisso da gente nos obriga a ficar viajando pelo mundo.
 Pelo jeito voc tambm no gosta de acumular pessoas...
 Com famlia,  diferente  declarou Lang, dando um tapa nas costas do irmo, que sorriu.  Vou at a oficina dizer al a Connie.
 Escute, Lang, se eu fosse voc...
 Tudo bem, mano. Eu sou agente secreto treinado, lembra?
 Cuidado com a cabea. Aquele lugar est cheio de ferramentas.
Lang caminhou at o barraco, e aguardou uma pausa entre as marteladas para poder ser ouvido.  
Em seguida ouviu resmungos ininteligveis no interior. A porta abriu-se.
 Lang?  voc, Lang?
Viu-se em frente a uma mulher com macaco de brim e bon a esconder-lhe os cabelos castanhos. Assim que o reconheceu, atirou-se aos braos do cunhado, numa demonstrao expansiva de saudades.
 Como vai? Quando Bob me disse que voc tinha desistido da CIA para trabalhar em San Antonio, dei um pulo de alegria  disse Connie, num s flego.  Agora, se voc tiver qualquer problema mecnico, pode trazer que eu fao de graa. Viu minha oficina? Claro que vai ficar conosco...
 No posso, preciso ficar em San Antonio  interrompeu Lang.   uma das exigncias do meu cargo. Mas pode ficar sossegada que eu venho sempre visitar vocs. Vou alugar um bom apartamento na cidade e comprar alguns brinquedos para quando trouxer Mikey para me visitar.
 Ando um pouco ocupada com a oficina  sorriu ela. No tenho muito tempo livre. O pouco que sobra preciso dedicar Bob e Mikey. Mas no posso me queixar. No me falta trabalho. Compramos uma televiso e um videocassete novos, e Mikey est cheio de brinquedos. At comprei um veculo decente para Bob ir ao trabalho. Nada mal, hein?
 Nada mal, mesmo  concordou ele, examinando o interior da oficina.
Pensou um pouco e resolveu no mencionar que os presentes no compensavam o tempo que ela no passava com a famlia. Ele e o irmo tinham problemas a esse respeito, que Connie provavelmente no conhecia. Lang jamais tinha sido capaz de relatar algumas coisas a Sandra, por mais ntimos que tivessem sido. Acreditava que o mesmo acontecesse com Bob.
 Bem, de volta para o trabalho  disse ela.  Bob est fazendo o jantar hoje, vai cozinhar alguma coisa gostosa para voc. Depois a gente se v, Lang. Trouxe o carburador?
Ele corou.
 Bob no deixou, foi isso?  Connie respirou fundo, mas no se conteve.  Com tantos homens no mundo, eu tinha que casar justo com um macho chauvinista!
Ela voltou-se e fechou a porta, ainda resmungando.  
 Lang teve certeza que Bob no lhe contara tudo sobre o passado.
 Ela reclamou muito de carburador?  quis saber Bob, quando o irmo entrou na cozinha.
 Reclamou  respondeu Lang, olhando com ar desconfiado para as panquecas queimadas que o irmo servia.
 Mas aposto que contou quanta coisa conseguiu comprar para todos ns, no foi? Tudo timo se a gente tivesse ela aqui para aproveitar tambm. O pobre Mikey no escuta mais histrias na hora de dormir, porque ela est cansada demais. continuou Bob, servindo uma poro de panquecas carbonizadas para o filho, que fez uma careta.  Raspe a parte queimada.
 J tentou conversar com ela?
 Claro! Pensa que ela escuta? Est ocupada demais projetando sistemas motores e outras coisas importantes.
 Tem hambrguer de ontem na geladeira, pai. Posso comer hambrguer em vez de panquecas queimadas outra vez?
 Tudo bem. Pode esquentar no microondas  resmungou Bob.
 Puxa, pai, obrigado. Posso comer na frente da televiso?
 Pode tambm. A famlia no anda unida mesmo, por aqui.
Mikey deu um pulo e foi buscar seu sanduche na geladeira. Em pouco tempo usou o forno de microondas e foi para o quarto.
 Coitado do garoto  comentou o pai.  O colesterol dele deve ser to alto quanto o de um executivo. Vai acabar morrendo de inanio.
Lang ainda olhava as panquecas queimadas em seu prato.
 Isso se no morrer de fome primeiro...
 No sei cozinhar. No casei com ela por minhas habilidades culinrias. Ela devia ter casado com um cozinheiro.
 Por que no contrata uma cozinheira?  sugeriu Lang.
Os olhos de Bob brilharam.
 Sbe que  uma tima idia? Temos dinheiro pra isso, agora. Amanh mesmo vou comear a procurar  declarou entusiasmado.
Seu entusiasmo dissolveu-se ao encarar o prprio prato de panquecas, mais escuras ainda que as outras.
 E tem mais: vou at a esquina buscar um par de suculentos sanduches, com batatas fritas. O que acha?
Lang sorriu.
 Agora, sim. E j que estamos no assunto, voc podia contar para Connie como...  
...ns dois detestamos mes que trabalham. Se ela soubesse, talvez colaborasse um pouco.
 Quem? Connie? Nem sonhando  respondeu Bob.  Alm do mais, no gosto de falar sobre o passado. Voc deve ser mais corajoso que eu. Chegou a contar alguma coisa para Sandra?
Lang no teve resposta. Virou as costas e afastou-se.  
 
 

  Passou dois dias descansando em casa de Bob e Connie, tentando no reparar nas brigas. Se cada um dos dois no fosse to teimoso, talvez as coisas corressem melhor. Mas nenhum deles seria capaz de ceder um centmetro que fosse.
Antes que Lang partisse para encontrar o novo patro na segunda-feira de manh, Bob j entrevistara quatro candidatas ao cargo de cozinheira para a famlia. Sua preferida foi uma mexicana que tinha belos cabelos negros at a cintura, e olhos castanhos suaves. A voz era bonita, e o corpo fizera o corao de Lang bater mais forte. No foi difcil imaginar a situao que viria a seguir, mas no disse nada ao irmo. Bob sabia cuidar da prpria vida.

O proprietrio da Lancaster Inc. eram um senhor de meia idade e sua esposa, conhecida na sociedade local. Embora existissem outros acionistas, o casal controlava a companhia. Lang gostou dos dois  primeira vista. Ambos foram claros e diretos ao explicar quais eram suas funes, e fizeram-no sentir-se bem vindo.
Foi apresentado a seus subordinados diretos: um ex-policial veterano, uma mulher que fora militar, e dois indivduos eficientes que vinham dirigindo as operaes desde que o chefe de Segurana anterior sara.
 Ele no suportava sangue  comentou Edna Riley, com ar de desdm.  Ouvi dizer que voc era da CIA.
  verdade  admitiu ele.
 E antes disso?
 Trabalhei por algum tempo na polcia de San Antonio.
 timo, timo  sorriu Edna, com aprovao.
 Eu me lembro de voc  declarou Tory Madison amistosamente.  Eu me aposentei na mesma poca em que voc entrou. S que no consegui ficar parado, sabe como ? A inatividade estava me matando, ento vim para c. No consigo acompanhar os mais jovens em tudo, mas sei de alguns truques que ajudam os novatos. Meu trabalho  administrativo, e gosto do que fao.  
 Depois que eu tiver examinado as operaes com cuidado, pretendo fazer algumas mudanas  afirmou Lang. Reparou na preocupao demonstrada pelo pessoal, e apressou-se a acrescentar.  Nada de muito radical, claro. No precisam se preocupar. De vez em quando  bom limpar a casa para comear outra vez.
Todos assentiram, aliviados.
 E precisamos ainda estar bem atualizados com todas as inovaes em nosso ramo  continuou Lang.  Como acabei de vir da batalha, estou em dia nesse aspecto.
 Gostaramos muito de tomar um caf e ouvir tudo o que tem a ensinar  disse Edna.
 Tudo o que sei sobre o assunto  secreto. Mas terei prazer em falar sobre a nova tecnologia de armamentos e equipamentos de segurana.
 Todos assistimos Mquina Mortfera  respondeu Edna.  Esse assunto a gente j conhece bem.
 Pode ser, mas algumas coisas antigas a gente vai precisar trocar  afirmou Lang, olhando para a velha mquina de caf.
Para surpresa dele, Edna colocou-se de forma protetora em frente  antiga mquina.
 S por cima do meu cadver  afirmou ela com veemncia. Se ela for embora, eu vou junto.
  muito bom o caf que ela faz?
 Faz o melhor caf do Texas  garantiu Edna, operando a mquina.  
 
  
Dez minutos mais tarde, Lang sentia-se inclinado a concordar com ela. Era melhor no arriscar a compra de uma cafeteira nova sem deixar cair o padro da bebida. Todos riram, achando que o novo chefe no era to chato, afinal de contas.
No dia seguinte, trajando seu melhor terno cinza e uma bela gravata, Lang fez o reconhecimento das cinco companhias sob a direo da Lancaster Inc., 
A primeira foi a prpria Lancaster Inc.,localizada no vasto complexo de escritrios de sua propriedade, que abrigava vrias outras companhias de San Antonio. O pessoal da segurana era em nmero de dez, cinco para o dia e cinco para o perodo noturno, cobrindo toda a rea Um deles no fazia nada alm de cuidar da segurana do estacionamento, e verificar os passes dos ocupantes. Os outros realizavam patrulhas em carros e a p, mantendo um bom nvel de vigilncia.
Entrevistou o pessoal, e houve um dos homens que no lhe provocou boa impresso. Algo no sujeito o incomodou, principalmente depois que Lang o pegou dirigindo gracinhas a uma das moas que trabalhavam no prdio. Talvez fossem amigos, porque ela sorriu e continuou andando. Lembrou-se do incidente mais tarde, quando conversava com supervisor de segurana.
O supervisor contou que dois dos escritrios centrais localizados no mesmo complexo, uma enlatadora e uma empacotadora de carne, haviam sido alvo de protestos por grupos radicais. O homem era mais jovem que Lang, e mantinha-se um tanto reservado; explicou que eram responsveis pela segurana de todas as reas comuns das companhias que alugavam o complexo. De forma casual, Lang perguntou se ele tinha problemas com seus homens. Depois de um instante de hesitao, o supervisor afirmou que tivera problemas em duas oportunidades com um dos agentes, e agora estava de olho nele. Lang no gostou daquilo.
A segunda visita foi a uma sofisticada loja de departamentos, cujos dois andares de artigos finos eram guardados por dois agentes durante o dia, e um  noite.  
O mais novo dos trs assumiu uma atitude hostil e francamente provocadora, at saber do currculo do chefe; depois disso, Lang chegou a ficar penalizado com os esforos do rapaz para tentar consertar as coisas.
A terceira companhia era uma pequena fbrica de roupas, que trabalhava quase que exclusivamente com jeans. S possua um homem para o dia e outro para a noite. Lang gostou do vigia noturno, um veterano da D.E.A., o organismo de combate ao trfico de drogas. Precisava passar ali uma noite qualquer para escutar velhas histrias.
A quarta companhia era um armazm de estocagem de produtos, onde as mercadorias importadas permaneciam at que fossem liberadas pela alfndega.
A quinta companhia controlada pela Lancaster, cuja segurana ficaria sob sua responsabilidade, era uma firma nova chamada Contatos Ilimitados. Reunia seis executivos e dez empregados do escritrio central, onde Lang comeara sua visita, pela manh.
Conversou com Mack Dunlap, o presidente da companhia, para saber se havia alguma queixa contra o pessoal da segurana. Segui-se a mesma conversa que tivera com o supervisor, agora seu subordinado.
 Eu, particularmente, no tenho queixa, mas um de nossos vice-presidentes me contou que um sujeito dirigiu uma gracinha a ela.
Os olhos de Lang estreitaram-se.
 Foi mesmo, ? Gostaria de conversar um pouco com ela. Pretendo levar a srio esse tipo de reclamao.
 Isso  novidade  respondeu Mack, arqueando as sobrancelhas.  O velho Baxter, que ocupava o cargo antes de voc, simplesmente dava risada, e dizia que as mulheres estavam acostumadas a ouvir piadinhas, e algumas at gostavam. Ela chegou a discutir com Baxter por causa disso.
 No posso fazer nada a respeito de Baxter, mas prometo a voc que vou usar um novo padro de regulamentos com nosso pessoal de segurana.
 Obrigado  sorriu Mack.  O escritrio dela fica na segunda porta  esquerda. Ela est l agora.
 S pretendo tomar um minuto do tempo dela  garantiu Lang.  
 Saiu e caminhou at a porta indicada, sem reparar na placa com o nome. Bateu.
 Pode entrar  respondeu uma voz feminina no interior. 
Lang abriu a porta e ficou paralisado.
Ela vestia um conjunto de saia de linho branco com blusa verde, o mesmo tom dos olhos presos aos documentos sobre a escrivaninha. O cabelo loiro e curto emoldurava-lhe o rosto, destacando os malares e a boca carnuda.
As sobrancelhas finas estavam arqueadas, examinando alguns dados que a intrigavam. Quando falou, no levantou os olhos do papel.
 O que posso fazer por voc Mack?  indagou ela, em tom casual. 
A mo de Lang apertou a maaneta com fora. As recordaes fluam agora como se uma represa tivesse arrebentado dentro do seu crebro. A conversa com Bob veio  sua mente, em meio s imagens do passado, e ele imediatamente soube o motivo do sorriso estranho quando soube que o irmo ia para a Lancaster Inc.
 Eu perguntei...  comeou Sandra, levantando a cabea e interrompendo-se.
O choque estampado nos olhos verdes era pelo menos comparvel ao seu. Vrias emoes surgiram ali em poucos segundos. Ela levantou-se, linda como sempre, e ostentando mais segurana, uma nova maturidade.
 Oi, Sandra  disse Lang, forando-se a sorrir com indiferena calculada.  H quanto tempo...
 O que a CIA est fazendo aqui?
Lang olhou para os lados e para trs.
 CIA? Que CIA?
 Voc!
 Ah, eu no trabalho mais para a CIA. Agora s trabalho para a Lancaster. Sou o novo chefe de segurana  informou ele, sorrindo.  Esse mundo no  mesmo pequeno?  
CAPTULO II



Sandra recostou-se em sua poltrona, tentando relaxar o mximo possvel para compensar o corao disparado no peito. Forou um sorriso, quase to casual quanto o de Lang.
  verdade.  um mundo pequeno. O que posso fazer por voc, Lang?
 Seu chefe disse que teve problemas com um dos seguranas.
 Oh...
Lang enfiou as mos nos bolsos, pois no sabia o que fazer com elas.
 Ento?
Ela soube que ele no tinha vindo especialmente para procur-la. Era apenas uma relao comercial. Esse fato no deveria deix-la desapontada, pois fazia cinco anos que ele desaparecera de sua vida. Mas a verdade  que ficara desapontada. 
Ele no fumava mais. Nos velhos tempos, sempre havia um cigarro na mo. Talvez no permitissem que agentes secretos fumassem, ou tivessem algum vcio capaz de denunciar sua presena.
 Acontece que o sr. Erikson achou divertido fazer observaes vulgares sobre mim  disse ela finalmente, tentando parecer ocasional.
 Diga ao sr. Erikson para no fazer mais.
 J disse. Ele diz que no sabe por que eu me ofendo. Afinal eu sou uma mulher. Ele afirma que as mulheres foram criadas para o prazer dos homens.
 Certo. Que idade tem esse senhor que estamos discutindo?
 Acho que est perto dos cinqenta.
 J est em idade de saber se comportar melhor.
 Espero que voc deixe isso bem claro. Cheguei bem perto de apresentar queixa contra ele.
 Por qu?
Ela hesitou. Na verdade no desejava discutir o assunto com Lang.
 J fomos amigos, lembra?  insistiu ele.
 Ele fez algumas observaes sobre o tamanho das minhas roupas de baixo, e queria saber se eram pretas  disse ela de uma vez s. Parou para tomar flego, depois continuou:  Depois ele disse que compraria peas intimas para mim se eu as vestisse para ele.
Lang no gostou do que ouviu. Sua expresso demonstrou desprezo pelo sujeito.
 Acho que vou ter uma conversinha com ele. Se acontecer outra vez, venha falar comigo, sim?
Ela levantou a cabea, sustentando o olhar dele.  
 Se acontecer de novo, pretendo apresentar queixa contra ele na delegacia. Ningum deveria ser obrigado a escutar esse tipo de abuso no lugar em que trabalha. Esse  um bom emprego. No quero perd-lo.
 no vai perder o emprego  garantiu Lang, voltando-se na direo da porta. Parou com a mo na maaneta e encarou Sandra.  Como vai sua me?
 No tenho a mnima idia. A ltima vez que soube dela, estava morando na Dinamarca. Com o quarto marido  respondeu ela com frieza.  
 Lang despediu-se e saiu.
Sandra s ento percebeu a dor. As unhas das mos crispadas machucavam os pulsos. Abriu-as, para descobrir que estavam molhadas de suor e trmulas. Fazia muito tempo que no ficava com os nervos abalados daquela forma, com nenhum assunto. Nem os exames finais da faculdade a tinham deixado naquele estado. Naturalmente, Lang era pior do que qualquer exame.
Tentou concentrar-se no trabalho, mas sua mente retornava sem cessar ao tempo agitado antes que Lang deixasse a cidade. Recomeou vrias vezes antes de desistir.
Girou sua poltrona e ficou olhando pela janela. Lang acabava de sair do prdio. Entrava num carro ltimo modelo, ostentando o distintivo da segurana da empresa. O cabelo negro brilhava ao sol, e ela lembrou-se de como costumava acarici-lo, deixar que escorresse por entre os dedos na escurido acolhedora do carro no estacionamento. Muito tempo atrs...
A campanhia do intercomunicador interrompeu a cena imaginada. Lembrou-se de atender.
 Sandra.
 Sou eu, Sandra. Betty  disse a voz conhecida da amiga.  Voc consegue mesmo resultados rpidos, quando quer.
 Como assim?
 Nosso amigo Erickson acaba de sair do escritrio do novo chefe de segurana, aquele bonito. Escutei alguma coisa sobre piadinhas co as mulheres l dentro. Erickson ainda est de boca aberta.
 Lang despediu o sujeito  exclamou Sandra, incapaz de conter-se.
 Lang?
 Lang Patton, o novo chefe de segurana. Eu...fui amiga dele, quando era mais jovem.
 Ah, ento foi por isso que funcionou to rpido!
 Voc no acha que eu ia agentar muito mais tempo, acha?
 No. Eu tambm no estava agentando mais. Todas ns estamos cheias das gracinhas do Erickson. Vamos levar voc para almoar. Talvez o sr. Patton nos mande algum cara bonito e solteiro.
 Provavelmente ele vai mandar um ex-fuzileiro, com vrios dentes arrebentados  provocou Sandra.  
 No seja esprito-de-porco  respondeu Betty.  A propsito, Erikson est uma fera. Seria bom no encontrar com ele na hora de sair.
 No tenho medo dele.
 Bem, eu acho que seria sensato evitar o cara, mesmo assim. Vejo voc mais tarde...
Betty desligou e Sandra mordeu o lbio inferior. No tinha sido sua inteno causar problemas. A maior parte dos homens demonstrava simpatia e boa educao. Erikson, porm, olhava de forma desrespeitosa, e chegava a ser agressivo com as piadinhas. Sentia-se suja quando passava por ele no corredor.
Nas primeiras vezes, pensou que estava exagerando. Afinal, acabara de sair da universidade, onde homens e mulheres desfrutavam de igualdade intelectual, que desprezava o comportamento machista. Porm, no mundo dos negcios existiam homens que ainda se comportavam como se as mulheres fossem suas propriedades sexuais. Foi um choque para ela descobrir que trabalhava num local onde um vigilante sentia-se livre para dizer o que bem entendia a todas as mulheres.
Erikson chegara a beliscar o traseiro de Betty, e quando recebeu um tapa na cara, disse que ia acabar se apaixonando. Acrescentou depois, que as mulheres sempre esto concordando, mesmo quando dizem no.
Sandra podia ter dito muita coisa a Lang sobre Erikson, mas aparentemente ele prprio se entregara. Sentiu-se aliviada e um pouco culpada por ele ter sido despedido. No tinha famlia, porm ela sabia como era difcil um homem na idade dele arranjar outro emprego. O fato de saber que ele mesmo provocara aquilo no aliviava em nada.
O telefone tocou.
 No pense que voc vai se sair bem com isso, boneca. Dizer todas aquelas mentiras sobre mim ao chefe  disse a voz rouca de Erikson, do outro lado da linha.  Vou pegar voc. Voc no perde por esperar.  
 Sandra desligou imediatamente, sentindo um arrepio de medo percorrer-lhe a espinha. Com certeza ele estava nervoso ainda, e iria ultrapassar essa fase, com o tempo. Entrementes, ela no pretendia dar chance para que ele realizasse suas ameaas. Seria bom tambm mencionar o caso a Lang. S para prevenir.  
 
  Naquela noite, quando voltava para sua casa, certificou-se de sair ainda com a claridade do dia. No pretendia mais ficar trabalhando at tarde, como dissera ao chefe, at que o assunto terminasse por completo. Mack concordara sem pestanejar.
O estacionamento era longe do prdio onde ficava seu apartamento. Sandra examinou os arredores, mas no viu nada de especial. Entrou, grata pela presena do segurana, e subiu depressa para o segundo andar.
O apartamento era decorado com muitas plantas, e moblia simples. Era um local pequeno, mas bonito e funcional; pelo menos possua a prpria moradia. E havia ainda um terrao, que fora o ponto decisivo na compra do imvel. Podia divisar o lamo a distancia, por sobre a frondosa algarobeira que crescia em frente ao prdio. Gostava muito de ficar ali esticada na espreguiadeira, apreciando a vista e a rvore, ao sol poente da primavera.
Depois de colocar roupas mais confortveis, Sandra fez um pouco de caf e acomodou-se. O sol, j bastante inclinado, banhava-lhe o rosto com uma luz avermelhada e agradvel.  
Lembrou-se de outra manh de primavera, no dia em que percebera estar apaixonada por Lang Patton. Com dezesseis anos de idade, estivera repousando em cima da rvore em frente  sua antiga casa de Floresville, perto da casa dos Patton. Lang cursava a escola e trabalhando na fora policial de San Antonio, e aos fins de semana vinha para casa visitar os pais e o irmo. Estivera saindo com uma modelo chamada Lorna McLane, mas tinham acabado de terminar. Viera sozinho visitar a famlia, e Sandra ficara contente com isso. No gostava do ar superior que Lorna exibia para todos nas vizinhanas.
Sempre fora amiga de Lang, que representava o papel de um irmo mais velho a maior parte da vida.
 Desa da antes que quebre o pescoo!  gritara ele l de baixo, sorrindo com as mos na cintura.
Lembrou-se da camiseta e do jeans apertado, que expunha o fsico musculoso de Lang. Ela adorava admir-lo, e dar asas a fantasias que a deixavam sem flego.
 No  contra a lei subir em rvores, que eu saiba...V prender outra pessoa!  gritara ela, num desafio. 
 Estou muito bem aqui  anunciara ele, encontrando os apoios colocados no tronco, subindo, e acomodando-se no galho ao lado dela.  Aceita uma pra?
Quando ele estendeu a fruta, as mos de ambos se tocaram, e Sandra percebeu que Lang a tratava diferente. Seu olhar deteve-se mais tempo do que de costume nas pernas bronzeadas e no decote da blusa amarrada. Tornara-se consciente da feminilidade dela. Porm no fizera movimento algum para aproximar-se. Depois desse dia, Lang passou a provoc-la e o relacionamento transformara-se em amizade.
Quanto tempo parecia ter passado desde que escutara os conselhos dele sobre problemas escolares. Sua me estava ocupada demais casando-se e divorciando-se para prestar ateno  filha, e no havia outros parentes. Sandra gravitava ao redor da casa dos Patton, onde faltava sobre a me, que morrera muitos anos antes. Ningum falava sobre ela, muito menos Lang.  
 Quando o pai dele morrera de repente, vtima de um ataque cardaco, ela permaneceu ao lado de Lang. Segurou a mo dele o tempo todo, durante o funeral. Depois do nascimento de Mikey, Sandra acompanhara Lang ao batizado. Quando se deram conta, ela ia a todos os lugares com ele...
O toque do telefone provocou um sobressalto em Sandra, despertando-a dos devaneios. Obedeceu ao reflexo de atender, mas hesitou, pensando nos acontecimentos do dia. Seria Erikson?
O corao batia forte quando levantou o fone.
 Sandra?
Era Lang. Pode relaxar, pelo menos um pouco.
 Oi, Lang.
 Achei que gostaria de saber que despedi Erikson esta tarde  anunciou ele, em tom controlado.  Ele ficou bem irritado. Se por acaso ele criar algum tipo de problema para voc, me avise na mesma hora.
 Ele telefonou para mim antes de sair  informou ela.  Disse que ia me pegar.
Houve um silencio do outro lado.
 Ele assustou voc?
Ela sorriu, e torceu o fio do telefone.
 Um pouquinho  admitiu por fim.
  mesmo?  havia um trao de sorriso na voz dele.  A menina que eu conheci teria aberto a cabea dele com um taco de beisebol.
 Minha me nunca teve tempo para lutar por mim. Tive de aprender a me virar sozinha.
 Acho que lutei algumas com voc  lembrou ele.
  verdade. Antes, voc era meu amigo.  A fase pareceu encher sua cabea com recordaes desagradveis.  Preciso desligar, Lang.
 Espere!
 No temos nada a dizer um para o outro.
 Fale por voc mesma. Eu preciso dizer que sinto muito que no tenha lido a carta, Sandra.
 Voc no confiou em mim  lembrou ela.  Achou que eu era uma vagabunda de duas caras.
 Eu estava maluco de cimes. No sabia que ia acabar me acalmando.
-Ela riu amargamente.
 Quando isso aconteceu, eu j no me importava mais. Estava saindo com outro cara na escola, e me divertindo muito.  mentiu ela, para manter a dignidade.
Jamais admitiria o estado em que ficara quando ele se recusara a escutar suas explicaes.  
 Lang gelou por dentro. Ainda alimentava esperana de ser amado, apesar de passado tanto tempo. Se ela iniciara outro relacionamento to depressa, isso significava que esse amor no chegara a existir.
 Nesse caso, fez bem em no ler a carta. Desculpe.
 Mais alguma coisa?  indagou ela, em tom educado.
 Sim. Me avise se tiver qualquer tipo de contato com Erikson, sim?  Ele se encontra com alguns dos maus elementos locais. Acho que  um meliante.
 Bela palavra.
 Acha mesmo? Estou pensando em cobrar direitos autorais, mas se quiser pode usar tambm.
 Eu aviso se tiver algum problema. Obrigada por telefonar, Lang.
 De nada.
Sandra desligou lentamente, imaginando como seria beijar Lang outra vez. Antes ficava tonta quando se beijavam, porm agora no podia se dar ao luxo de arriscar tudo outra vez. Tinha sofrido um golpe e tanto ao perd-lo, especialmente com sua me ocupada com um novo divrcio. Praticamente sem vida familiar, resolveu ir para a faculdade sem um nico protesto. Engraado como tudo isso parecia ter ocorrido h dcadas. Precisava agora garantir que as coisas continuassem como estavam.  
 
  
Lang acomodou-se num hotel, e lanou-se ao trabalho. No espao de uma semana, aprendeu tudo sobre o funcionamento da segurana na Lancaster, e convenceu-se de que poderia atualizar as operaes e aumentar a eficincia.
Sandra, porm o preocupava. Ela se manteve cautelosa nos primeiros dias aps a sada de Erikson, porm de repente tornara-se descuidada. Naquele dia por exemplo, ela estava trabalhando at tarde, e j escurecera. Lang sabia que o estacionamento estaria deserto. Resolveu fazer um reconhecimento da rea.
Realmente, o estacionamento se encontrava praticamente vazio,  exceo de um antigo sedan azul, com um rosto familiar no interior.
Lang descobrira, h muito tempo, que o confronto direto era a melhor forma de evitar uma encrenca mais sria. Estacionou seu carro com o emblema da segurana ao lado do outro, e desceu. Usava a arma no coldre sob a axila, uma necessidade em seu novo trabalho. Esperava no ter de us-la.
 O que est fazendo aqui, Erikson? Agora esta rea  propriedade particular para voc. No pode mais ficar aqui dentro.
 Estou apreciando a vista.  declarou ele, com um sorriso cnico, apesar de demonstrar certa surpresa com a abordagem direta.
 Pois aprecie a vista de outro lugar  sugeriu Lang, com um sorriso ameaador.  E se tiver alguma idia de jerico na cabea, acho melhor esquecer. Voc pode ter tido experincia como militar e agente de segurana, mas eu trabalhei na CIA por cinco anos. J esqueci truques que voc nem chegou a aprender.
A ameaa pareceu surtir efeito. Sem dizer uma palavra, Erikson deu a partida e saiu do estacionamento, enviando olhares de ressentimento para o outro.
Lang observou o carro at que sumisse de vista. S ento retornou ao prdio, caminhando em direo ao escritrio da vice-presidente.
Sandra estava ao telefone, e pelo tom deveria estar falando com um cliente.
 O senhor no precisa se preocupar  afirmava ela ao bocal.  Temos a situao totalmente sob controle. Isso mesmo... Vamos cuidar de todos os detalhes.  
 -...Tudo o que precisa fazer  vir at aqui, certo? Claro, claro. Pode ficar tranqilo. Sou eu quem agradece. At logo.
Ela desligou com um suspiro de alvio, e recostou-se na cadeira. Ento os olhos verdes perceberam Lang  porta, e ela deu um salto na cadeira. Mas no fora medo. O simples impacto da presena dele ali provocava aquela reao; sempre causara, embora geralmente conseguisse controlar-se. Naquela noite, porm, estava cansada e fora apanhada desprevenida. Muitos problemas haviam surgido desde que entrara no escritrio, pela manh.
 Achei que no havia mais ningum no prdio  comentou ela, para justificar a surpresa.
 Acabei de verificar o estacionamento  informou Lang, dando de ombros.
Ela reparou no movimento, e percebeu o volume na axila.
 Voc est armado!
Ele olhou de forma diferente para Sandra, cujos olhos pareciam acus-lo.
 Andei armado por muitos anos, e voc nunca comentou nada sobre isso.
 Isso foi antes de voc entrar na CIA para servir de alvo aos outros. Alis, me admiro muito que ainda esteja vivo e inteiro. Est inteiro ainda?
 No me diga que se importa, gatinha!
Ela baixou os olhos. Usava um conjunto cinza com blusa cor-de-rosa, o que lhe conferia uma aparncia de fragilidade e beleza. Lang no conseguia tirar os olhos dela.  
 Achei que me importava...  respondeu ela.  Mas voc me curou, graas a Deus.
Ele avanou, limpou um dos cantos da escrivaninha e acomodou-se ali. O movimento deslocou o tecido da cala sobre os msculos das coxas; Sandra precisou controlar-se para no olhar. Ela o tocara com intimidade, e ainda recordava o impacto, a mo dele guiando a dela no calor da paixo, o gemido rouco emitido ao toc-lo...
 Por que ainda est aqui?  indagou ele, interrompendo-lhe os pensamentos.
 Negcios inacabados. Sou vice-presidente, e isso significa tratar pessoalmente de alguns de nossos clientes especiais. Em alguns dias as coisas saem erradas, como hoje.
 E  voc quem precisa limpar a sujeira.
 Exatamente. Voc entendeu o esprito da coisa  sorriu ela.
 J est escuro l fora, sabia?
 Eu reparei. Sabe, eu carrego isto comigo na bolsa  respondeu ela, retirando da bolsa uma latinha de Mace, o gs de defesa pessoal.
 Sandra, o que vai fazer se o vento estiver soprando para o lado errado quando precisar usar isso? Sabe como precisa ser usado perto do assaltante para produzir efeito?
Ela corou.
 Tenho esse alarme tambm  insistiu ela, apanhando a sirene porttil da bolsa.
 timo. E se ningum estiver perto o suficiente para ouvir? 
Ela comeou a ficar nervosa. Se havia uma coisa que Lang conhecia bem, era a proteo pessoal.
 No gosto de armas.
 Uma arma  a ltima coisa de que precisa. Fez algum curso de defesa pessoal?
 No. No tenho tempo.
 Pois arranje, ento  sugeriu ele, com ar preocupado. 
Aquilo a perturbou, Comeou a pensar e fazer as ligaes adequadas; a presena dele ali, as perguntas sobre defesa...
 Algum estava no estacionamento, certo?  indagou Sandra, estreitando os olhos.  Erikson?
Ele fez sinal afirmativo com a cabea.
 Eu o ameacei e fiz com que sasse do estacionamento, mas no posso fazer isso na rua, entende. No h lei alguma contra isso.
 Mas e se ele ficar me vigiando, me espreitando?
 Ainda assim, no  contra a lei  informou ele.  
Ela recordou-se dos filmes de televiso que assistira, nos quais o ex-namorado ou ex-marido persegue a herona at mat-la. A polcia nunca podia fazer nada, pois o crime precisa ser cometido para que pudessem agir. Depois que acontecia, obviamente era tarde demais para a vitima.
 Ele no teria coragem de me matar  declarou ela.
 Existem outras coisas que se podem fazer  lembrou Lang, em tom soturno.
Os lbios de Sandra se abriram.
 No acredito numa coisa dessas. Eu s estava me defendendo contra uma situao desagradvel. Nunca foi minha inteno prejudicar...
 Voc imaginou que tudo voltaria ao normal se resolvesse ignorar as gracinhas? Homens do tipo dele no desistem com facilidade. s vezes ficam piores com o passar do tempo. Voc sabe disso.
  verdade, s que eu nunca esperei algo parecido com o que est acontecendo.  Os olhos verdes procuraram os dele.  Ele vai desistir, no vai? Vai cansar e desistir dessa bobagem...
 Para ser bem honesto com voc, Sandra, no acredito muito.
Ela juntou as mos percebendo que estavam frias. Apertou-as uma contra a outra, sentindo uma sensao desagradvel na boca do estmago. Percebeu que sentia medo.
 O que posso fazer?
 Vou tentar ficar de olho em voc tanto quanto puder.
 Lang, no vai funcionar. Voc no pode ficar me vigiando o tempo todo, nem seria justo pedir que fizesse isso. Preciso ser capaz de cuidar de mim mesma  afirmou Sandra, olhando para o prprio corpo, e lembrando a corpulncia de Erikson, muito maior e mais pesado.  No posso acreditar que chegue a assustar algum com um curso de defesa pessoal, mas vou procurar um.  
 A maioria deles funciona  noite. Poucos instrutores podem se dar ao luxo de manter uma academia em tempo integral.
 Certamente devem ter aula aos sbados, no?
 Certamente  concordou ele, com um sorriso simptico.  S que ningum vai poder ensinar defesa pessoal melhor do que eu. E durante as aulas, eu mantenho um olho em voc, ainda por cima. O que acha?
 Seria uma boa idia  concordou ela.
 J fomos amigos  disse Lang, encarando-a.  Mais do que amigos. Ser que pode fingir que nada aconteceu entre ns...s por algumas semanas? At resolver o problema de Erikson.
 No sei, Lang  respondeu Sandra, hesitante.
 Somos diferentes agora. Eu mudei muito. Se no tivesse mudado, acha que teria largado a CIA?
Ela franziu a testa.
 Eu no tinha pensado nisso. Por que voc saiu? Mesmo quando era mais jovem, s falava em ser agente da CIA...
 Repensei minhas prioridades e meus valores  explicou Lang.
 Ser mesmo?  perguntou ela, estreitando os olhos.  Como soube que a Lancaster estava precisando de um novo chefe de segurana?
 Uma pessoa amiga me apresentou.
No tinha a menor inteno de revelar a ela a identidade da pessoa que o auxiliara. Pelo menos, ainda no. Ela nunca apreciara Lorna, e podia assegurar que a recproca era verdadeira. Lorna no demonstrara nenhum outro interesse a respeito dele, mas era bom que Sandra no soubesse disso.
Seus olhos escuros deslizaram pelo rosto dela, seguindo-lhe o contorno do corpo, depois retornando ao rosto. Tinha vontade de perguntar se havia algum homem na vida dela, porm era muito cedo. Alm do mais, precisa ter certeza dos prprios sentimentos antes de pression-la. No podia suportar a idia de mago-la, e passar por tudo outra vez.
 No sei se boa em artes marciais  comeou ela, devagar.
Por instinto, sabia que ela pretendia aceitar. Sorriu abertamente para ela, num incentivo que tambm era um desafio.
 Que tal descobrir?
Ela suspirou, capitulando.
 Certo. Mas preciso encaixar meus horrios com o trabalho. Quando comeamos?  
 
  
 Duas noites por semana, duas horas cada sesso  informou Lang.  E precisa praticar em casa tambm.
 Parece cansativo...
 Posso garantir que  muito cansativo. Mas vale a pena. Pode salvar sua vida.
 Est mesmo preocupado com Erikson, no est?
Se Lang estava preocupado,  porque havia motivo para tanto, pensou Sandra.
 Vamos dizer que prefiro ser cauteloso nesses assuntos  corrigiu ele, aproximando-se.  Anime-se. Lembre dos bons tempos.
Ela franziu a testa e roeu a unha enquanto se dava conta da proximidade dos dois corpos. O mesmo que ela tentara esquecer durante tantos anos.
 Ser que estou esquecendo alguma coisa bvia?  indagou ele repentinamente.  Existe um homem em sua vida? Algum que espera v-la todas as noites?
Ela desejou com todas as foras poder responder de forma afirmativa. Era ridculo deixar-se alterar daquela forma por um homem, principalmente depois de como ele a tratara. Contudo a verdade  que Lang estava mesmo diferente. No parecia o mesmo homem altivo e arrogante que sara de Floresville para juntar-se a CIA. Parecia mais suave, mais consciente. A parte perigosa dele continuava ali, e talvez at mesmo a falta de piedade, porm tornara-se mais humano. Talvez mais terno...
 No, Lang. No h ningum.
Os olhos deixaram escapar um brilho momentneo, porm o rosto no se moveu.
 Muito bem. Que tal irmos fazer compras amanh depois do trabalho? Podemos comear de noite.
 Fazer compras?  estranhou Sandra.  O que vamos comprar? 
 Espere at amanh e vai ver.  disse Lang com um sorriso no canto da boca.  
 
  



CAPTULO III



Sandra soltou um grito ao examinar-se no espelho.
 Lang, parece que estou de pijama.
Ele abriu a porta do quarto e recostou-se no batente, cruzando os braos para melhor estud-la. Ela usava o traje que haviam comprado naquela mesma tarde, quando ele fora apanh-la aps o expediente, conforme o que haviam combinado.
Tratava-se de um gi, o uniforme tradicional dos praticantes de carat. Calas brancas de algodo e uma tnica da mesma cor, trespassada por uma faixa; no caso dos principiantes, a faixa era branca. As cores s podiam ser obtidas por mrito do aluno, que ao demonstrar ter adquirido novas habilidades, conquistava outras cores. O grau mais alto usava a faixa preta.
Sandra parecia frgil no interior da roupa larga, que era assim para no atrapalhar os movimentos. Sua aparncia no era nada ameaadora. A cabea voltava-se para baixo e os ombros estavam curvados, deixando  mostra a curva graciosa da nuca, onde o cabelo era curto.
 Deixe eu dizer uma coisa, primeiro  comeou Lang, balanando a cabea com desaprovao.  A primeira regra da defesa pessoal  nunca parecer vulnervel. Em ambientes selvagens, os animais escondem suas doenas e fraquezas, at estarem prximos  morte, para no serem atacados. As pessoas no so muito diferentes disso. Um atacante em potencial comea com uma vitima em potencial.
 E como posso fazer isso?  quis saber ela, olhando desanimada para sua imagem no espelho.
 O seu porte  o de algum que j est derrotado, no sabia disso? Seus ombros esto curvados, e a cabea fica baixa quando anda. Voc agarra bolsa com todas as foras, o que no  m idia em si, s que a forma como faz isso d a impresso de que carrega uma verdadeira fortuna a dentro.
 Ento o que espera que eu faa? Que ande pela rua distribuindo golpes de carat em cada rvore que passar?
 Se aprender a derrubar rvores, garanto que isso iria desencorajar qualquer atacante  sorriu Lang.  Se no for para derrubar,  melhor no tentar nada parecido.  
-...Falando srio, agora: a gente precisa andar como se fosse o dono do mundo. E como se pudesse quebrar todos os ossos do corpo de um atacante. Muitas vezes a postura basta para afastar encrenca. Agora endireite o corpo!
Foi o que ela fez, conferindo mais elegncia ao porte esguio.
 Agora levante o queixo. No fique olhando os outros durante muito tempo, porque um homem pode considerar isso um convite, mas tambm no fique com a cabea baixa como se tivesse medo de olhar para as pessoas...
 s vezes eu tenho  confessou ela, com um leve sorriso.  As pessoas me intimidam.
 Claro. Por isso realiza um trabalho na rea de relaes pblicas, certo?
 Quando estou trabalhando no tenho problemas, sou at agressiva demais. O que me preocupa so as relaes fora do horrio de trabalho. No me dou bem, com as pessoas...
 Voc sempre foi tmida, a no ser com os que conhecia  lembrou lang.
Os olhos escuros baixaram para a boca suave coberta de batom, o que provocou a recordao do corpo dela encostado ao dele, gemendo e provocando o controle dele at o limite. Lang no pretendia casar-se, e Sandra no era o tipo de garota que ele poderia seduzir sem sentir-se compromissado. Chegara a mencionar casamento, e sabia que era isso que ela queria, na poca, porm as coisas no tinham funcionado muito bem. Tornara-se uma situao desagradvel, e Lang no tinha orgulho da forma como se comportara. Ao invs de dizer a ela que no tinha inteno de casar-se, simplesmente se afastara. E seu melhor amigo lhe fornecera a desculpa que buscava para fazer isso. Em todo o incidente, provavelmente Sandra sofrera mais.
 Quer parar de olhar para mim desse jeito?  reclamou ela, levantando o olhar para ele.   muito bonzinho, me ensinando a cuidar de mim mesma, mas gostaria que no fosse...embaraoso.
 Desculpe. Vamos voltar ao que eu dizia. Quando andar na rua, caminhe sempre, em qualquer situao, como se soubesse exatamente aonde ir. Mesmo que esteja perdida.  
 Mantenha o queixo para cima, e encare as pessoas apenas o tempo suficiente para que saibam que foram vistas. Quando entrar no carro, esteja sempre com a chave na mo, e no na bolsa. Examine o banco traseiro, e d uma olhada em volta, antes de entrar no carro. Uma vez dentro, trave tudo na mesma hora. Nunca entre sozinha num estacionamento depois do escurecer, nem v ao caixa automtico  noite. Algumas mulheres que cometeram esses pequenos descuidos hoje em dia esto mortas.
Sandra estremeceu.
 Voc est me assustando...
 timo.  bom entender que as conseqncias de deslizes como esses podem se tornar drsticas. J parou para se imaginar sozinha com Erikson num estacionamento  noite? Ou no banco traseiro do seu carro?
 Confesso que j pensei nisso  admitiu ela.  Alis, foi um dos motivos que me levaram a aceitar o curso.
 Muito bem! Isso significa que est disposta a colaborar.
 Estou. Mas acredito que as mulheres deveriam, ter liberdade para irem onde quer que desejem...
 No me venha com esse papo feminista. Estamos tentando proteger sua vida, lembra? Os homens e as crianas deveriam ter esse direito, garantido em nossa bela Constituio, s que, na prtica as coisas no so bem assim. O problema est no mundo inteiro. Numa cidade grande, ningum mais est perfeitamente seguro durante a noite. Os homens tambm so atacados, sabia? Ainda que nem sempre pelas mesmas razes, tambm morrem nas mos dos delinqentes. Principalmente os idosos.
 Nossa sociedade  um organismo doente  observou ela, numa inesperada tirada filosfica.
 Seja como for.  aqui que vivemos. Pretendo ensinar voc a melhorar as chances de sobrevivncia nessa selva, por isso no me venha outra vez com essa posio feminista. Vamos l pegue seu casaco.
 Achei que amos ficar aqui mesmo...
 Voc quer experimentar cair de costas em cima das tbuas de madeira de lei no cho da sala?
 Como assim, cair de costas?
 Eu ainda no falei nada sobre isso, ?
 No. No falou  disse ela, os olhos verdes fuzilando.  
 Certo.  que no carat, a primeira coisa que precisamos aprender a fazer,  cair corretamente. Na verdade, as primeiras aulas so completamente dedicadas a esse aprendizado bsico. Nas prximas horas vai beijar o cho muitas vezes, se me permite a expresso. De costas, de lado, de frente... vai ser divertido.
 Divertido?
 Pelo menos espero que sim.
 Lang, me diga que est brincando!
 Acha mesmo?  indagou ele, passando-lhe o casaco.
Por um momento, Sandra ficou olhando o casaco, depois para o rosto dele, e percebeu que seria sua ultima oportunidade para desistir com dignidade. Depois disso, teria de ir at o fim, fosse o que fosse.
Suspirou e estendeu a mo para o casaco. Esperava no sair com nenhum osso quebrado. Pelo menos nas primeiras aulas.
Lang tinha um amigo que dirigia uma academia. Tratava-se de um homem de meia-idade, cujo fsico avantajado parecia completamente em forma. Ele e Lang pareciam conhecer-se h muito tempo.
 Ento a mocinha vai aprender carat...  repetiu Tony, parecendo divertir-se com a idia.  Ela vai agentar?
Sandra inflou os pulmes e encarou diretamente o amigo de Lang.
 Ela vai agentar, sim  respondeu, erguendo o queixo com ar de desafio.
Tony riu com a bravata.
 timo. Porque se Lang vai ser seu professor, voc vai precisar de toda resistncia e fora de vontade que conseguir juntar. Geralmente os alunos dele desistem depois da primeira aula; isso era comum quando ele estava na policia, dando aula nas horas vagas.
Depois que o homem se afastou, Sandra seguiu Lang at um canto, onde havia um tatame comprido prximo  parede. 
 No sabia que voc dava aulas de carat naquela poca  comentou ela.
 Acho que existem muitas coisas que eu fazia e voc no sabia  respondeu Lang.  Sabe se esticar, no sabe?
 Claro. Fao isso quando espreguio, todo dia, de manh.
 Ento faa um pouco de alongamento enquanto eu vou me trocar  ordenou ele, voltando-se em direo ao vestirio.  
  Enquanto Sandra se acomodava sobre a superfcie acolchoada, observou o andar dele a afastar-se.
Com o passar do tempo, ela tornou-se consciente dos olhares dos outros freqentadores da academia. A maior parte trabalhava em mquinas volumosas, cheias de barras e pesos. Duas jovens levantavam halteres. Outra fazia exerccios isomtricos.
Repentinamente escutou gritos, vindos dos lados do vestirio, na outra ponta do amplo aposento. Olhando naquela direo, Sandra reparou que vrios atletas reuniam-se ao redor de um saco de areia. Algum praticava chutes e golpes demonstrando coordenao fora do comum; ficou um pouco tonta ao seguir os movimentos do lutador. Parou os exerccios para observar a exibio. O corpo gil subia, concentrando a fora de um chute poderoso no pesado anteparo de areia, e produzindo um rudo seco ao acertar a superfcie de couro. Tocou o cho, fez um giro, e veio caminhando na direo dela, como se nada houvesse acontecido. Sorrindo.
S ento ela reconheceu o lutador. Era Lang.
Ficou olhando enquanto ele conversava com os homens, depois continuava em sua direo. O traje de carat caa bem nele, transmitindo a impresso de fora. Quando os olhos recaram sobre o cinturo, ela no ficou surpresa ao constatar que a faixa era preta, indicando o grau mximo na prtica do carat.
  melhor a gente parar agora mesmo  disse ela, sem flego.  Porque jamais serei capaz de fazer o que acabou de fazer.
 Hoje pelo menos, no vai mesmo. J esticou os msculos?
 Acho que sim  respondeu Sandra, com um olhar desconfiado.  Era sria aquela conversa sobre me derrubar no cho?  
Lang acenou afirmativamente.
 No se preocupe. Existe a maneira certa de fazer isso. Voc no vai se machucar.
Isso era o que ele pensava. S o fato de estar to perto dele colocava todos os sentidos de Sandra em alerta.
 Pronta para comear?  indagou ele, olhando para o relgio dela.  Tire isso. Nunca use jias quando estiver no tatame. Pode ser perigoso.
 Desculpe.
Sandra retirou o relgio e procurou na mente por outro objeto que precisasse retirar, porm no usava anel desde que ele lhe dera um com uma pequena esmeralda, como presente de aniversrio. Jamais tornara a us-lo desde a briga, mas o conservava guardado na gaveta.
Lang aproveitou para ensin-la a entrar no tatame, pois existia um ritual para isso. Em seguida aprendeu a cumprimentar o oponente; depois aprendeu exerccios rigorosos de aquecimento para praticar antes de qualquer aula de carat. Sandra ficou cansada s com o aquecimento. S ento foram para o centro da rea, e Lang demonstrou como cair de lado e de costas.
Passaram a hora seguinte treinando os dois tipos de queda. Numa delas, Sandra errou o tatame e caiu com o quadril no cho de cimento. Doeu.
 Voc disse que no ia doer  resmungou ela, esfregando o traseiro.
 Se voc aterrissar no lugar certo, ainda posso garantir que no di. Agora volte e faa a entrada certa.
 Sim, senhor  resmungou ela, com um olhar ressentido.
 Agora caia.
 Para que lado?
 Pode escolher.
 Acho que escolho um banho de imerso bem quente, depois cama  disse ela.
 Est cansada?
Sandra hesitou um pouco, depois assentiu. 
 Muito bem, gatinha. Nesse caso, chega por hoje. Ateno! Cumprimentar.
Ela curvou-se, exatamente como aprendera a fazer. Lang partiu na direo do vestirio, e Sandra recostou-se na parede, exausta.
Realizaram em silncio a maior parte do percurso at o apartamento dela. Foi ela quem quebrou o silncio.
 Que tipo de carat  esse?  indagou, para puxar conversa.  
 Voc aprendeu rudimentos de Tae Kwon Do, uma forma coreana de arte marcial, especializada em chutes.
 Chutes?
 Voc tem as pernas certas para isso, com todo respeito. Suas pernas so longas e fortes, e chutes geralmente produzem mais efeito do que golpes com a mo.
 Senti o ginsio estremecer quando voc deu aquele chute no saco de areia, depois de vestir o quimono.
 Gi.
 Que seja. Gi. Estremeceu mesmo.
 Quando eu entrei para a polcia, no fazia mais nada alm de treinar. Enquanto os outros caras bebiam, ou ficavam atrs de mulheres, eu estava no ginsio treinando chutes.
 Fiquei impressionada olhando para voc  confessou ela, ruborizando.
 Est bajulando o professor?
 Claro que no.
 Pois se voc treinar o suficiente, tambm vai poder fazer os mesmos movimentos  disse ele.  Muitas mulheres chegam at a faixa preta. Uma vez trabalhei com uma agente cujo grau era maior que o meu. Ela me ensinou alguns movimentos novos.
  mesmo?  perguntou Sandra, olhando pela janela.
Lang sorriu internamente. A mulher que mencionara era uma veterana do exrcito, com sessenta anos. Mas no pretendia desiludir Sandra adiantando esse tipo de informao.
 Quer parar em algum lugar para tomar uma xcara de caf?  ofereceu ele.
 No posso tomar caf  desculpou-se ela.  Preciso estar na cama s dez horas.
 Uau! Que tipo de vida est levando, garota? 
Nada muito excitante, com certeza, pensou ela.
 s vezes fico acordada, quando passa um bom filme na televiso.  
 
  
 Mas voc tem vinte e dois anos!
 Vinte e trs.
 D no mesmo. Voc  muito jovem para passar tanto tempo sozinha, no acha?
 Quem disse que eu fico sozinha?  retrucou ela, na defensiva.  Saio com rapazes.
Era verdade. A ltima vez que sara, fora com um divorciado, que falara o tempo todo sobre a mulher. Chegara a chorar. Antes, fora um solteiro de cinqenta, que propusera a ela que fosse morar com ele. A verdade  que nunca tivera muita sorte na escolha de companheiros, comeando com o prprio Lang, cuja memora persistiu durante todos os relacionamentos posteriores.
Contudo, Lang no sabia desses detalhes, e imaginou Sandra nos braos de outro homem. No gostou do que viu. Suas mos apertaram com fora o volante.
 Voc fumava  observou ela.
  verdade. Mas quando reparei que interferia com minha resistncia fsica, parei completamente.
 Que bom para voc  comentou Sandra.
Ele entrou na garagem do prdio dela, reparando que um carro atrs dele fazia o mesmo. Era um sedan azul.
Lang girou de uma vez s o volante, manobrando de forma a fazer a volta completa. Ficou de frente para o outro veculo, e acelerou. No fez a menor meno de parar, e o vislumbre que Sandra teve da expresso do rosto do companheiro fez com que se segurasse com todas as foras.
Aparentemente a manobra surtiu o efeito desejado, porque o sedan engatou a marcha  r, e cantou os pneus at sair do estacionamento e manobrar para fugir a toda velocidade.
 Miservel  resmungou Lang mais tarde, ao desligar a ignio do carro na vaga.  Talvez eu devesse dar uma surra nele, para deix-lo no hospital algumas semanas. Aposto que ia sair bem mais calmo.
 No!  discordou Sandra, com veemncia.  Voc no pode fazer isso. Ele poderia coloc-lo na cadeia.
 Pode ser, mais iria ter um trabalho para me manter l. Conheo muita gente na polcia de San Antonio.
 Eu pensei que estivesse fazendo a coisa certa quando contei toda para voc...  disse ela.  
 Voc fez a coisa certa, Sandra. Os dias de gente como Erikson esto contados. No h mais lugar para eles na sociedade. S que seria necessrio gastar um bocado de papel oficial, para no mencionar os honorrios de um bom advogado, a fim de provar as acusaes que todos sabemos serem verdadeiras.
 Eles podem assassinar a gente.
 Pois eu garanto que ningum vai assassinar voc  afirmou Lang.  E tem mais: depois de um ms de aulas, se ele cruzar seu caminho vai se arrepender amargamente.
  mesmo? O que vou fazer? Cair em cima dele?
 Voc est ficando boa em cair  disse Lang, com uma certa dose de orgulho.
 Muito obrigada, mestre.
 Vou acompanhar voc at l em cima. Nunca se sabe...
Ele saiu do carro, trancou-o e deu a volta para abrir a porta. Ofereceu a mo para Sandra, que aceitou. Deveria ter evitado o contato, mas quando percebeu j era tarde. O toque trouxe todas as recordaes do primeiro encontro, com uma fora que a apanhou desprevenida. Da primeira vez sentira emoes intensas, que se repetiam com energia incomparvel. Lang parecia ter as mesmas sensaes.
 Era o seu primeiro encontro, e voc estava to nervos que tremia quando levei voc para casa naquela noite  lembrou ele, reparando na surpresa estampada no rosto dela.  Estou lendo seus pensamentos outra vez? Isso prova que voc no  a nica com capacidade de lembrar coisas agradveis. Bons tempos, no?
Ela no respondeu. A porta do elevador abriu-se e os dois entraram. Lang apertou o boto.
 Podamos ter ido pelas escadas  observou Sandra.  So s dois andares...
 Fique longe das escadas  avisou ele, com voz sria.  So um timo lugar para uma emboscada.
 Certo.
 Isso vale para as escadas no trabalho tambm  acrescentou Lang.  
A porta abriu-se e os dois caminharam pelo corredor deserto, at a ltima porta, onde ficava o apartamento dela. Ele reparou que a chave estava na mo dela ao chegar em frente  porta. Lang sorriu. Sua aluna aprendia rpido.
 Sandra?
 Ela abria a porta, de costas para ele.
 Quer o final convencional para o encontro?  insistiu ele.
A mo dela crispou-se sobre a maaneta, ao recordar a sensao de beijar aquele homem.
 Acho que no seria uma coisa muito inteligente  comentou ela.
 , provavelmente no  concordou Lang, enfiando as mos nos bolsos e apoiando as costas contra o batente.  O que aconteceu com Chad?
Os olhos dela voltaram-se rapidamente para ele.
 Voc no sabe? Ele era seu melhor amigo.
 Isso at conseguir nos separar. Ou ser que ningum contou meu rpido encontro com ele depois do que houve? Arranquei dois dentes dele com um soco.
 No  respondeu Sandra, puxando o casaco de encontro ao corpo, impressionada com a frieza da expresso no rosto dele.  Foi um pouco tarde demais para fazer isso, no?
 Pode ser, mais me senti bem melhor depois.
O peito largo arfava sob a camiseta leve de algodo, e Sandra reparou na sombra escura abaixo. Os pelos do peito dele provocaram outra vez as sensaes de esfregar o rosto ali. Recordou o cheiro da pele sob os lbios, e os pelos macios entre os dedos.
A tristeza instalara-se nos olhos verdes quando ela levantou o rosto para encar-lo.
 Voc no chegou a me conhecer de verdade, mas gostava muito de me beijar  afirmou ela inesperadamente.  Talvez por isso no quisesse escutar quando eu disse que Chad tinha preparado as coisas.
Ele no respondeu. Os olhos escuros baixaram para os lbios de Sandra, at que ela no suportasse mais o impasse, e girasse a maaneta. 
 Da primeira vez que beijei voc, voc assustou com minha lngua  lembrou ele.  Fiquei espantado que nunca tivesse beijado algum antes.
Ela ficou sem graa. Os olhos verdes emitiram um brilho de raiva.
 Tambm no precisa jogar na minha cara...  
 Se voc no fosse virgem, nossas vidas teriam sido diferentes  insistiu Lang.  Eu desejava tanto seu corpo que no conseguia nem pensar direito. S que voc era um pouco antiga nesse ponto. No quis saber de sexo antes do casamento.
 Ainda pode me chamar de antiga, nesse ponto  respondeu Sandra, abespinhada.  Meu corpo  um assunto que s diz respeito a mim. Posso fazer com ele o que bem entender, e isso inclui o celibato se eu quiser.
 Deve sentir frio nas noites de inverno  comentou Lang, com uma ponta de sarcasmo.

 
  

 Tenho um cobertor eltrico, meu bom homem, e sou perfeitamente saudvel  informou ela, em tom frio.  Durmo como uma pedra. E voc?
A verdade  que ele no dormia bem. H muitos anos. As recordaes de acontecimentos violentos no o deixavam em paz h muito, provocando crises de conscincia e pesadelos. Principalmente nos ltimos meses, com o agravamento que o levara por fim a deixar o tipo de trabalho que fazia.
 No durmo como uma pedra, se  isso que quer saber.
 No me admira. Com todas aquelas mulheres...
 Sandra...
Ele no podia negar. Ela engoliu a onda de cimes que sentia, e sorriu.
 Obrigada pela aula.
Lang baixou a cabea, procurando acalmar-se o suficiente para evitar o assunto, que s poderia levar a uma discusso.
 Tudo bem. Vamos repetir daqui a trs dias. Lembre de fazer os exerccios todos os dias, sim?  Uma sombra de medo passou pelos olhos dela, e Lang percebeu.  No deixe ele perceber que est assustada.De jeito nenhum, em situao nenhuma. Olhe direto para ele, e mostre que no tem medo. E saia de casa sempre perto de outras pessoas. No trabalho, tambm.
 Certo.
Ele sorriu de forma encorajadora.
 Voc  durona! Lembre-se disso.
 Vou tentar. 
 Tentar no adianta. Precisa acreditar nisso. 
 Certo. Obrigada, Lang.
 Estarei por perto. Se precisar, pode me chamar.
Sandra concordou, com um gesto de cabea.  
Ele afastou-se da parede e dirigiu-lhe um ltimo olhar direto, antes de voltar-se e caminhar em direo ao elevador.
A cena pareceu despertar alguma coisa nela. De repente percebeu que no gostava de v-lo afastar-se, numa repetio da mesma cena que tanto a traumatizara. Ainda ficava magoada, e era como se nada tivesse mudado.
Ao atingir o elevador, Lang girou para apertar o boto e deparou com ela a observ-lo. Teve vontade de voltar e tom-la nos braos. Conteve-se, pensando que antes do curso acabar, ele mesmo iria fazer ps-graduao em controle hormonal.
Sandra levantou o brao num movimento tmido, e entrou no apartamento, fechando e trancando a porta atrs dela. Ela tambm lutava contra o desejo que sentia por Lang. Aquilo s iria conduzir a uma situao parecida, se ela permitisse. No se repete o mesmo erro uma segunda vez. Resistiria a seus instintos, e seria forte.
Movida pela deciso firme de no se entregar, ela prosseguiu com sua rotina. No dia seguinte, ao sair de casa, percebeu que o odioso carro azul encontrava-se estacionado em frente. Seguiu-a durante todo o percurso at o prdio da Lancaster. Ao descer do prprio carro, Sandra olhou diretamente para Erikson, sem sorrir ou baixar os olhos. Aquilo pareceu deix-lo desconcertado. Lang tinha razo, pensou ao entrar em seu escritrio. Funcionava mesmo. Sentiu-se segura e confiante em si mesma, como h muito tempo no acontecia.
Sandra promovia um seminrio pblico para um negociante local, especializado em decorao de interiores. Ela conseguira a presena de um famoso arquiteto europeu, projetista do maior shopping center de San Antonio, e ainda promovia um concurso entre os moradores da cidade, onde seria escolhida e premiada a melhor decorao de ambiente. Uma das atribuies do arquiteto europeu seria julgar os ambientes inscritos; as redes locais haviam sido avisadas com antecedncia para cobrir o evento, e Sandra comprara espao na mdia para fazer a divulgao.  
A organizao de eventos simultneos revelou-se um trabalho exaustivo e exasperador, e quando tudo ficou pronto, Sandra ficou a ponto de ter um ataque histrico. Irritada, encerrou o expediente tardio e saiu, desejando acima de tudo poder relaxar e dormir.
O fato de deparar com o sedan azul estacionado prximo ao prprio carro no ajudou em nada. Como um abutre, Erikson espreitava atrs do volante, num olhar desrespeitoso e desafiador.
Furiosa, Sandra regressou ao prdio e telefonou para a polcia. Foi encaminhada pela telefonista ao departamento correspondente, onde um oficial jovem conversou com ela.
 Esse veiculo est dentro do estacionamento do seu prdio srta. Campbell?
 Bom, na verdade, no est. Mas est na rua, logo depois da grade do estacionamento.
 Uma via pblica?
 Bem, acho que sim...
Um breve silncio do outro lado.
 Senhorita, no gosto de dizer isso, mas sou obrigado. No existe lei alguma contra um homem ficar sentado em seu carro, olhando para o lado que quiser, no interessa que ameaas tenha feito. Se ele na verdade nunca chegou a atac-la, no existe coisa alguma que possamos fazer.
 Mas ele fica me seguindo!
 Se quer minha opinio, acho que a lei precisa ser mudada  disse o policial.  E tenho certeza que ser. S que, no momento, no existem meios legais para que possamos agir. Por outro lado se ele disser qualquer coisa obscena, ou encostar um s dedo na senhorita...
 Ele  um ex-policial militar, e agente de segurana  explicou ela.  Acredito que conhea a lei ao p da letra, e no vai fazer nada que o possa comprometer...
 Desculpe por no poder ajud-la. Gostaria muito de poder fazer alguma coisa.
 Eu tambm. Obrigada por me escutar.
Sandra desligou, e sentou-se com a cabea entre as mos. Podia telefonar para Lang, mas sabia exatamente o que ele faria. Se Erikson conseguisse apresentar queixa e provocar a priso de Lang, ficaria com o campo livre para agir. Ela no queria que isso acontecesse. Por enquanto o miservel queria s assust-la.  
 No iria arriscar-se a fazer alguma coisa que o comprometesse. Se perdesse o controle, estaria fazendo o jogo dele.
Ficou imaginando o que fazer por alguns instantes, depois tomou uma resoluo, apanhou a bolsa e retornou ao estacionamento. Entrou em seu carro sem olhar para os lados, trancou as portas e deu a partida.
Mal conteve um sorriso quando olhou pelo retrovisor e percebeu que Erikson a seguia. Desta vez tinha uma surpresa reservada para ele. Avistou um carro de policia no centro da cidade, e manobrou de modo a ficar atrs dele, observando o perseguidor Erikson deixar-se ficar cada vez mais para trs.
A verdade ento  que ele no estava to confiante em sua imunidade quanto aparentara. Uma descoberta til.
Quando o carro patrulha dobrou uma esquina, Sandra manteve-se atrs dele. Seguiu-o por toda zona central, com o carro de Erikson  distncia. Repentinamente, sem dar sinal, ela virou numa travessa estreita, fez a volta no quarteiro e saiu dois carros atrs de seu perseguidor.
Reparando em Erikson, percebeu que ele virava a cabea para todos os lados, procurando por ela, sem lembrar de olhar para o retrovisor. timo. O truque funcionara.
O carro azul virou  direita, e Sandra dobrou  esquerda na rua seguinte. Despistara-o, pelo menos temporariamente. Foi um verdadeiro alvio saber que era capaz de fazer isso.
Dirigiu-se para o prdio sem perda de tempo, estacionou o carro e subiu para casa. Trancou todas as portas, e alegrou-se por ter levado a melhor.  
 Alguns minutos mais tarde, Sandra enxugava-se, sentindo os efeitos relaxantes do longo banho quente, quando o telefone tocou. Convencida de que se tratava do irado ex-segurana, deixou que a secretria atendesse.
A voz, contudo, no era a de Erikson.
 Voc est em casa, Sandra?  indagou a voz de Lang.
Ela apressou-se a apanhar o telefone no quarto, deixando a toalha felpuda no cho do banheiro, e atirando-se na cama.
 Al! Lang? Acabei de chegar.
 Eu sei. O que voc estava tentando fazer, incitar aquele homem  violncia?  perguntou Lang, zangado.  No se pode brincar com um desequilibrado, Sandra.
 Voc me viu?  espantou-se ela.
 Claro que vi voc  resmungou ele.
 Mas eu no vi voc...
 Essa  a primeira regra para se seguir algum. No ser visto.
Ela sorriu.
 No sabia que estava cuidando de mim. Obrigada, Lang.
 No poder estar sempre por perto, portanto faa um exerccio de bom senso e pare de despistar Erikson. Ele no  idiota. Vai perceber o que voc fez, e o orgulho machista dele vai deix-lo ainda mais irritado. Esse tipo no suporta ser derrotado por uma mulher. Leva a coisa como um desafio  hombridade!
 Pobrezinho dele... E quanto a mim? Eu odeio quando ele Fica me seguindo pela cidade inteira. Ser que no tenho direitos tambm? Liguei pra a polcia, e eles disseram que no podem fazer nada. Foram muito educados para dizer isso, mas d no mesmo. Vamos ter que esperar ele me matar para poder fazer alguma coisa a respeito?
 Calma, Sandra. Voc est ficando nervosa, e  exatamente isso que ele quer  ponderou Lang.  Use a cabea...voc  mais inteligente, certo? Se ele pretendesse machucar voc, teria feito isso logo depois de ter sido despedido. Ele s est tentando lev-la ao desespero...
 Voc acha pouco?
 No  isso. Quero dizer que o intuito dele  deix-la alterada o suficiente para fazer papel de boba.
 No foi isso o que voc disse...  
 Eu ainda no sabia. No comeo no tinha certeza. E ainda no tenho certeza suficiente para arriscar sua vida sem necessidade. Vamos lidar direito com o caso. No vou deixar que ele machuque voc.
A confiana no tom de voz dele infundiu novas esperanas em Sandra.
 Sei disso.
 Alm do mais, quando eu terminar, voc ser perfeitamente capaz de tomar conta de si mesma. Nenhum valento do tipo dele vai conseguir aproximar-se o suficiente para tirar vantagem de voc, a menos que voc queira.
 Quanto a isso, pode ficar descansado. Se depender de vontade...
 Amanh mesmo vamos ter outra aula noturna, combinado?
 Combinado  concordou ela, com um suspiro.
 Agora v descansar. Pode deixar que eu fico em contato.
Ela desligou com um sorriso. O fato de ter Lang por perto era mais do que uma garantia: era uma tranqilidade. Afinal, as coisas estavam caminhando bem, e no final conseguiria ultrapassar essa fase ruim. No momento estava mais calma, e isso era o principal.
O telefone tocou.
Imaginando o rosto preocupado de Lang, ela atendeu.
 Esqueceu de dar algum conselho, foi?
 Foi sim  respondeu uma voz rouca e familiar.  Esqueci de dizer que os truques baratos que usou essa noite no vo funcionar de novo.
 Me deixe em paz, Erikson!  gritou Sandra, perdendo o controle.  Voc no tem o direito de...
 Voc vem me falar de direitos? Esqueceu que suas mentiras me tiraram o emprego, sua vagabunda? Fui despedido do meu emprego por sua causa, entendeu agora? Nenhuma vagabunda faz isso comigo. Estou cheio de ficar brincando com voc.
 Escute bem, seu manaco...  comeou ela, interrompendo-se ao escutar o estalido do outro lado da linha.
Vermelha de raiva, Sandra bateu o telefone, sentiu o rosto quente. Acontecera exatamente o que Lang dissera. Que diabos ser que Erikson pretendia agora?  
 
  

           

CAPTULO IV
 

Sandra jamais se sentira to ameaada. Ao sair do apartamento na manh seguinte, deparou com o odiado carro azul em frente ao prdio. O que a decidiu  ao foi o cinismo estampado no rosto de Eriksno.
Incapaz de controlar-se, Sandra abaixou e apanhou no canteiro de cactos uma pedra de bom tamanho, atirando-a com toda a fora na direo de Erikson. Ele demonstrou surpresa e abaixou-se, porm noteria sido necessrio. Sandra nunca treinara arremessos de beisebol, e esse fato ficou claro pela pontaria demonstrada. A pedra caiu um pouco antes do alvo. Para o lado direito
Prometeu a si mesma que o prximo projtil atingiria em cheio aquele sorriso irritante, e abaixou-se para escolher mais duas pedras avantajadas e arredondadas. Comeou a correr para aproximar-se, preparando o primeiro arremesso de uma distncia mais curta.
Talvez o brilho que ela apresentava no olhar, talvez o medo de ser atingido; o fato  que Erikson acelerou e partiu, cantando pneus. Sandra parou de correr, e ficou ali na calada, um dos braos no alto, com a pedra na mo, o corpo tremendo, os olhos postos no sedan azul que dobrava a esquina. No sabia se era raiva ou medo, mas o sentimento de ter afugentado o inimigo a inebriou. O sujeito era mesmo desequilibrado. Maluco! E o pior  que no podia fazer coisa alguma para det-lo.
Deixou as pedras no lugar onde as apanhara, voltou para o carro e foi para o trabalho. Sabia que o maldito carro azul a estaria esperando por l. Dito e feito. L estava Erikson, com o mesmo sorriso cnico de sempre. Quando saiu do carro, Sandra tremia outra vez. Depois de trancar o carro, lamentou no haver nas imediaes nada que pudesse atirar sobre ele. Ele alargou o sorriso enquanto observava o andar de Sandra com olhos obscenos.
 No pode fazer nada, gostosa. Desta vez no tem nenhuma pedra aqui por perto  provocou Erikson.
Ela parou, os joelhos fraquejando, de raiva e de medo. Aproveitou a fora dos sentimentos para encer-lo bem nos olhos.  
 Se voc no parar agora, vai se arrepender depois  afirmou ela.
  mesmo? E o que  que a mocinha zangada vai fazer?
 Espere, e vai ver, sr. Erikson  disse Sandra, com um sorriso encantador, como se j o enxergasse no uniforme da priso.
Voltou-se e entrou na portaria. Os olhos do segurana estreitavam-se, olhando diretamente para o carro azul.
 Eu o vi quando cheguei. Telefonei para o chefe, que estava em reunio com o senhor Lancaster  informou ele.  Esto pensando em alguma forma de lidar com o problema.
 S se for com uma bomba! Afirmou Sandra, ainda alterada.  Acho que  o nico jeito de parar esse sujeito. Parece que ele no dorme, no come, no paga aluguel, e consegue gasolina de graa, porque a nica coisa que faz o dia inteiro  ficar atrs de mim. E no vai parar. A lei no pode fazer nada, e ele sabe muito bem disso.
 Sua me no  casada com um ricao em algum lugar da Europa?  indagou o rapaz.
 Ela  esposa de um nobre ingls, que tambm  milionrio  corrigiu Sandra.
 No poderia contratar um profissional para acertar o cara?  sugeriu o porteiro, baixando a voz.
Ela no conseguiu conter a gargalhada.
 Acho que no vale a pena... E para de ficar assistindo esses policiais na televiso. 
Ainda sorrindo, Sandra voltou-se, dirigindo-se para os elevadores.
 Vale a pena pensar nisso  disse a voz dele, de longe. 
Depois que se fechou no escritrio, descobriu que tinha pela frente um dos dias mais agitados do ano. No saiu nem para almoar, pedindo para que uma das secretrias fosse buscar um sanduche, e comendo-o em frente ao monitor do computador. Se Erikson pretendia cozinhar os miolos em seu carro o dia inteiro, melhor pra ela. Simplesmente fingiria que ele era invisvel. Lang tinha razo: o homem pretendia apenas mexer com seus nervos, desequilibr-la. Se quisesse machuc-la, tinha tido vrias oportunidades para fazer isso.
Um belo dia ele encontraria coisa melhor para fazer do que ficar dentro do carro, embaixo do sol.  
Lang esperava por ela quando chegou ao apartamento. Desta vez, estranhamente, Erikson no a seguira do trabalho para casa. Contudo, ela tinha certeza que ele se encontrava em algum lugar, espionando cada movimento.
 Pegue suas coisas e vamos embora  convidou ele animado.  Vamos jantar antes de ir para a academia.
 Voc no precisa se...
 Vamos s comer um hambrguer, Sandra. No  nenhum jantar a luz de velas. Eu queria conversar um pouco com voc. Pegue suas coisas, sim?
 Est certo  ou ela, cansada demais para protestar.
Ao entrar em casa, notou que Lang transmitia uma agradvel sensao de proteo. Apanhou a sacola com o uniforme no armrio, e dirigiu-se ao banheiro. Depois de retocar a maquiagem, ligou a secretria eletrnica. Trancou a porta e desceu, sentindo-se leve como uma adolescente.
Lang parecia preocupado, e apesar de haver anunciado a conversa, mal trocou uma palavra com ela enquanto percorriam o trajeto at uma lanchonete prxima. Pediram sanduches, batatas fritas e caf.
 Voc est preocupado, no est?  quis saber ela, dando um gole no caf.
Os olhos escuros estudaram-na, enquanto a cabea fazia um breve sinal afirmativo.
 Mandei um amigo fazer um levantamento da ficha de Erikson, Sandra. Ele foi preso por matar um homem, quando estava na polcia Militar. Acabou se livrando da acusao, mas permaneceram dvidas, porque havia um certo envolvimento racial no caso. A vtima foi um negro.
 Ufa!
 Calma, ainda no acabei. A coisa piorou depois. Ele cobriu seus passos com perfeio, ou jamais teria trabalhado em nenhuma firma de segurana. Esteve na cadeia trs vezes pelo mesmo motivo, sob acusao de assalto, e as trs vtimas acabaram retirando as acusaes. Trs mulheres. Jovens. Duas delas alegaram inicialmente estupro, s que ficaram amedrontadas demais para levar o caso a julgamento.  
 Sandra percebeu que o sangue lhe fugia do rosto. Estava com medo. No se considerava uma pessoa medrosa, mas aquele ponto do estupro era assustador. Apavorante. Desistiu das batatas, e terminou seu caf de um s gole.
 Sua me mora na Europa  comeou Lang. Sabendo que abordava um ponto sensvel.  Por que no vai passar uma temporada com ela? Sei que vocs duas no se do muito bem, mas se isto no  uma situao especial, ento no sei o que . Em pouco tempo posso cuidar de Erikson. Basta uma visita curta.
Sandra espantou-se, ao ver a me mencionada pela segunda vez naquele dia, relacionada  soluo do problema. Ser que imaginavam que ela no era capaz de se cuidar sem a mame?
 O que est me propondo, eu chamo de fugir  declarou ela, os olhos brilhando.  Engraado... voc  a segunda pessoa que fala sobre, minha me hoje. A primeira foi o segurana da portaria. S que ele sugeriu que ela emprestasse dinheiro para contratar um assassino profissional. Para acabar com o problema.
 Mas que sugesto interessante, essa do Mack  comentou Lang, com os olhos brilhando.
 Pare com isso, Lang! Afinal, voc trabalhou para o governo.
 Eu s estava brincando, Sandra. J tive minha cota de sujeira... Voc no vai mesmo para a Europa, vai?
 De jeito nenhum. No pretendo fugir de jeito nenhum. Ele no vai me transformar em covarde, nem fazer com que eu me afaste da minha casa e do meu trabalho, no importa o que tenha feito antes.
 Voc sempre foi corajosa, Sandra  observou ele, sorrindo.
 Um pouco demais para o seu gosto, certo?
 J que no pretende viajar, que tal assumir um compromisso?
 O que est imaginando?
 Um lugar mais seguro...
 No vou morar em nenhum hotel, nem pensionato para moas.
 No era bem isso que eu tinha em mente.
Ela hesitou, a cabea trabalhando com rapidez. Era como se pudesse ler a mente de Lang.
 Quer que eu fique na sua casa?  isso? Voc  um amor, Lang, mas eu no poderia...  No quero morar junto com voc  interrompeu ele.  Eu expliquei a situao ao seu zelador, e ele vai me alugar o apartamento ao lado do seu.
 Ah...  fez Sandra, sem graa.
A verdade  que ele fora claro ao declarar no desejar morar com ela. Talvez no fosse uma boa idia, mesmo. Ainda assim, a firmeza com que Lang respondera a pegara de surpresa.
 Se voc se mudasse para o meu apartamento, ningum iria reparar  disse ela, surpreendendo a si mesma.  As pessoas no ficam mais fazendo julgamentos da moral alheia.
 Quer fazer uma aposta?
 Tudo bem, ento mude para o apartamento vizinho  respondeu Sandra, dando de ombros.  No quero voc l em casa, mesmo. Provavelmente iria me seduzir.
 Pode ficar tranqila  garantiu Lang.  Sou muito cuidadoso com meu corpo. Deve ter notado que eu o mantenho em boas condies, e para dizer as coisas sem rodeios, as mulheres sempre me procuram. Mas no durmo com todas as que me procuram.
 No?  indagou Sandra, arregalando os olhos.
 No. Nos dias de hoje, isso se tornou uma prtica perigosa, mesmo com o uso de preservativos.
  verdade. Por isso mesmo eu no tenho parceiro nenhum  admitiu ela, baixando os olhos.
Quando olhou outra vez, reparou num brilho diferente nos olhos escuros.
 J chegou perto?  quis saber Lang, com voz suave.
 S com voc, naquela noite  respondeu Sandra,em tom carinhoso.  
Os olhos de ambos denunciaram a saudade que sentiam daquela ocasio marcante. Lang colocou as mos nos bolsos, pois cada detalhe ficara impresso em sua memria, embora tivesse sido uma experincia inocente. A verdade  que, no estava pronto para o casamento, no teve coragem de deflorar uma menina ingnua como Sandra. Embora a intimidade deles fosse total e devastadora.
No dia seguinte, Chad intrometera sua colher torta e estragara tudo. A relao terminara para sempre.
 Sabe que s vezes tenho altas crises de conscincia por sua causa?  confessou ele, de repente.
 Isso me surpreende muito. Sempre imaginei que eu fosse apenas um nmero a mais...
 Nem por sombra  afirmou ele, fitando-a com intensidade.  Eu mesmo sugeri que ficssemos noivos, mas a verdade  que voc queria casar, e eu, no. Esse foi o verdadeiro problema. Acho que foi o motivo pelo qual acreditei em Chad, e no em voc.
 Foi exatamente o que minha me disse.
 Acho que de vez em quando ela  bem esperta, sua me.
 Foi a primeira vez na minha vida que eu me lembro dela agindo como me de verdade  recordou Sandra.  Precisei muito dela, e ela estava l para me apoiar. Mesmo que tenha sido pouco, foi bem na hora que eu estava precisando. Ainda assim foi difcil pra mim.
 Posso garantir que para mim tambm no foi nada fcil.
Ela deu de ombros.
 Voc queria terminar e conseguiu.
 Eu s no queria casar. Isso no significa que eu quisesse terminar o relacionamento. Continuei envolvido da mesma forma. Sofri muito.
 Pois isso  uma coisa difcil de imaginar, Lang. Voc no levava nada a srio, quanto mais nosso noivado  comentou ela.
 Acho que voc ficaria surpresa se soubesse...  disse ele, enigmaticamente.  O apartamento que o zelador arranjou no  muito grande, mas gostei da vista. E fica bem ao lado do seu, para o caso de Erikson tentar alguma coisa.
Ela no gostou nem um pouco das novidades sobre o perseguidor. Saber as coisas que o sujeito fizera no contribuiu nem um pouco para refrear a morbidez de sua imaginao.  
 A gente poderia se arranjar melhor se voc mudasse para o meu apartamento. Tenho dois quartos separados, e sei cozinhar.
 Tambm sei cozinhar  ofereceu Lang, ignorando o convite.  E no tenho medo de aspiradores de p. O ltimo que comprei durou o ms inteiro.
 Um ms inteiro?
 , as malditas coisas parecem elefantes descartveis. No se pode puxar pela tromba, nem se pode empurrar os mveis. Quando empaca, se a gente puxar com um pouco de fora eles desmontam na hora.
Ela riu esquecendo Erikson por alguns instantes.
 Ser que pode me ajudar com a mudana esta noite?  pediu Lang.
 Se tivermos tempo para isso, terei o maior prazer em ajudar  garantiu Sandra, imaginando o elevador lotado de moblia.  Existe algum que se importaria se voc ficasse em meu apartamento?
 Est querendo saber se existe uma mulher?
 .
 No. No existe nenhuma outra mulher.
 Entendo...
 Provavelmente no entende  sorriu Lang.  Mas mesmo assim, temos um encontro marcado na academia. Vamos cair no cho durante um par de horas.
 Ainda estou dolorida da ltima vez  protestou ela, levantando-se.
 E olhe que nem comeamos com o saco de areia  suspirou ele. Acho que precisa tomar umas vitaminas.
 Tem toda razo  concordou Sandra, resignada.
As quedas de lado e de costas pareciam continuar para sempre, porm naquela noite Lang comeou a ensinar tambm a posio das mos. Quanto mais ela aprendia sobre economia e eficincia de movimentos, mais ficava fascinada. Conseguiu entender por que tantas pessoas apreciavam o esporte. Naquela noite, reparou que havia muitas mulheres na academia, assistindo uma aula dada por Tony, o gerente.
 Elas esto fazendo muito mais que ns  comentou Sandra, assim que o flego permitiu.
 Claro que esto. As aulas de Tony comearam h duas semanas, e ele j deu bastante material. E trata-se apenas de movimentos bsicos, sobre como chutar o peito do p do adversrio com o calcanhar, ou a melhor forma de dar uma joelhada na virilha de um atacante. Voc vai aprender muito...  
...mais que isso, portanto vamos demorar mais tempo.
 Certo.
 Posso dizer que voc  uma tima aluna  afirmou Lang.  Est se adaptando como um patinho aprendendo a nadar.
 Por que nunca me ensinou nada disso quando estvamos juntos?  quis saber Sandra.
Ele a encarou antes de responder.
 Porque era quase impossvel para mim manter as mos longe do seu corpo. Uma aula desse tipo, tocando seu corpo, seria demais para meu controle.
Ela refreou a pergunta que lhe veio imediatamente  mente, sobre como era possvel manter o controle agora. Com certeza no a desejava mais.
 S que voc nunca quis realizar nada. S naquela noite...
Ele aproximou-se, para que os outros no ouvissem. Sentiu-lhe o calor do corpo.
 Eu desejava voc dia e noite, Sandra. Era quase uma obsesso...s que voc era ingnua demais para reparar nisso.
 Devo ter sido ingnua mesmo  concordou ela.  Mas isso no parece incomodar voc agora.
 Estou mais velho. E bem mais experiente  disse Lang.
 Claro que sim...
Os olhos de Sandra esfriaram.
Lang virou-se. No queria que ela percebesse seu estado. O cime que enxergava nos olhos dela quase o deixara fora de controle. Isso na verdade no significava muito, pois ela tambm estava mais controlada, e no demonstrava vontade alguma de envolver-se com ele. Era preciso manter isso em mente, e no ser otimista na interpretao das reaes de Sandra.
 Vamos tentar o ltimo exerccio de novo  sugeriu ele, mudando de assunto.
Posicionou-a no tatame, e convidou-a a derrub-lo. Com eficincia, Sandra repetiu os movimentos aprendidos, sem, no entanto conseguir seu intento. Lang evitava seus movimentos, com um sorriso nos lbios. 
 Assim no  justo, Lang. Voc  faixa preta  reclamou ela, ofegante.  E no est cooperando nem um pouco.
 Tudo bem, pode vir  disse Lang permanecendo imvel.
Ela colocou toda a vontade no movimento, avanando com uma perna, a outra forando o equilbrio dele, e tirando-o do cho. Contudo, calculou mal a prpria estabilidade. Caiu sobre ele.  
 Voc no deve cair junto com a vtima  explicou ele fazendo fora para conter o riso. 
No demorou muito para que a vontade de rir desse lugar a outros sentimentos. Ela ficara surpresa demais para mover-se permanecendo como estava. Uma das pernas estava entre as dele, os seios achatados contra o peito dele, as mos segurando-lhe a cabea. Sandra constatou que era uma posio confortvel, e ento percebeu a intimidade corporal que compartilhavam. Lang ficara excitado.
 Pode me ajudar?  pediu ela arfando.
 Por que no? Afinal, voc me ajudou a levantar...  respondeu ele, com voz rouca, que tornou sensual a vulgaridade.
 Lang!
Ele riu enquanto ela saltou de cima de seu corpo, levantando-se com rapidez, o rosto afogueado.
 Felizmente para ns dois, esses uniformes so largos e compridos  comentou ele, erguendo-se.
 Voc foi grosseiro  reclamou Sandra, afastando os cabelos loiros dos olhos.
 Acho que voc pode considerar uma espcie de elogio. Afinal, essa situao no  to fcil de criar quanto voc possa imaginar. Pelo menos com outras mulheres...
 Quero ir para casa.
 Tudo bem, mais vai perder a melhor parte. Agora eu ia ensinar como chutar a virilha de um assaltante.
 Pode fazer isso qualquer outra hora  respondeu ela.
 Era brincadeira, Sandra...
 Pois eu no achei nem um pouco engraado.
 Est certo, pegue suas coisas, e vamos passar no meu hotel. Quero apanhar as coisas.
 Voc acha que Erikson pode desistir?  indagou ela, esperanosa.
 No, infelizmente, no acho que ele v desistir.
Pelo brilho no olhar escuro, Sandra percebeu que ele falava srio.  
  O quarto de Lang ficava no sexto andar de um velho hotel no centro da cidade, e a decorao tinha o clima da dcada de vinte. Tratava-se de um local escuro, com um certo ar de decadncia.
Sandra reparou que as coisas de Lang mal enchiam uma mala.
 S isso?  indagou ela, quando ele saiu do quarto com uma mala de tamanho mdio e um terno protegido por uma capa de nilon.
 S. Nunca levo muita coisa comigo.
 Certo, mas voc deve ter mais posses, mais roupas!
 Tenho mesmo. Esto na casa de Bob e Connie.
 Claro. Eu tinha esquecido. Voc no iria carregar suas relquias de famlia pelo mundo afora...
 Falando de relquias de famlia, o que voc fez com o anel de esmeralda que eu te dei de presente?
 Voc acha mesmo que eu iria manter uma jia que me lembrasse voc, depois de tudo o que fez?
 Acho.
Ela olhou para ele, estudando-lhe a expresso.
 Tive vontade de jogar fora  confessou Sandra.
 No teria culpado voc  comentou Lang.  Mas estou contente que no me odiasse o suficiente para fazer mesmo uma coisa dessas.
  um anel muito bonito.
 Mas voc no usa mais.
 Faz parte do passado. Eu queria comear as coisas outra vez. Fui para a universidade, vivi bem l, e quando sa formada em Relaes Pblicas, consegui um emprego na mesma hora. Tenho tido muita sorte.
 Mas est sozinha  observou ele.
 Eu pensei muito, e preferi assim, pelo menos no incio da carreira. Quando achar que estou pronta, comeo a procurar um marido.
 Tem algum candidato em mente?  quis saber Lang.
 Mack  respondeu ela, com uma rapidez que espantou a si prpria.
 No me diga!
 Ele  um homem estabelecido, e possui segurana financeira. Alm disso,  uma companhia agradvel.
 Voc iria encolher como uma uva passa se ele tocasse em voc. Via forma como se encolhe quando ele se aproxima.
 No  verdade!
 Sandra, voc no sabe nada sobre a tecnologia moderna de vigilncia? Talvez seja melhor assim. Eu detestaria deixar voc envergonhada dizendo que fica uma gracinha quando dana nua em seu quarto.  
Ela arregalou os olhos, e o rosto tornou-se escarlate.
 Seu pervertido!
 Juro que foi um acidente  alegou ele, levantando a mo direita, como se estivesse no tribunal.  Foi pelo espelho. O espelho refletiu toda a cena no quarto...
Ela golpeou, sem aviso. Ainda assim, Lang foi capaz de esquivar-se a tempo. Continuou falando, como se nada tivesse acontecido.
 Voc estava linda. Os cabelos loiros soltos, que combinaram tanto com seu tom de pele...parecia uma ninfa danando no bosque. No consegui dormir a noite inteira, depois daquilo.
Ela estreitou os olhos, contendo a raiva.
 Odeio voc!
 Escute, Sandra  disse ele, com voz terna.  No vi nada que eu no tivesse visto antes. Sei que no gosta de lembrar disso, mas  a verdade.
 Se eu soubesse o que iria acontecer depois, que voc preferiu acreditar nas mentiras do Chad...
 Voc nunca deixaria que eu tocasse voc. Sei disso.
Sandra ajeitou o casaco por sobre o uniforme.
 De qualquer forma, tenho vergonha do que aconteceu naquela noite.
 No sei por qu.  respondeu ele, magoado.  Estvamos noivos. A maior parte dos noivos faz amor, e ns nem fomos at o fim.
  verdade, mas fazem amor quando realmente planejam casar-se. Foi por isso que voc se controlou antes, no foi? Porque nunca teve a inteno de casar.
 Confesso que pensei nisso uma ou duas vezes, mas voc queria tanto o anel, a cerimnia de noivado, que eu resolvi fazer seu desejo. Mas eu sabia que no seria um bom marido, at matar minha sede de aventuras. Tentei explicar tudo isso, mas voc era to jovem.
 Jovem e burra  completou ela.  Completamente apaixonada.
 Apaixonada, uma ova. Voc queria dormir comigo.
 Claro que queria  admitiu ela.  Mas no era s isso.
 Voc s tinha dezoito anos  lembrou Lang, dirigindo-se para a porta.  Bem, de qualquer forma isso so guas passadas. Temos coisas mais importantes para pensar, agora.
 Claro  concordou Sandra, abrindo a porta para que ele passasse.  
 Ele deixou a mala no cho, apagou as luzes e trancou cuidadosamente a porta. Mais tarde conversaria com o gerente sobre sua breve ausncia, a fim de certificar-se que o lugar continuaria a sua disposio. Pagaria o aluguel adiantado. Com um pouco de sorte, Erikson seria uma recordao desagradvel em poucos dias.
Mantiveram-se em silncio, observando as luzes da cidade at chegarem ao prdio de Sandra. O carro azul no estava ali. Subiram, e Lang usou a chave para abrir o apartamento contguo ao dela. Era um pouco menor, mas em compensao a vista do lamo era melhor, e o imvel acabara de ser decorado. Os tons eram uma combinao de verde e marrom o que de alguma forma parecia ajustar-se a Lang.
 Gostei comentou ele, olhando ao redor.  Moramos perto o suficiente para cozinharmos num apartamento s? O que acha? Voc cozinha numa noite e eu cozinho na outra.
 Seria bom.
 Mas no pode dormir aqui. No adianta implorar, nem chorar. No permito mulheres nesse quarto.  muito difcil mand-las embora, depois.
 No sabia que voc era homossexual  comentou ela com sarcasmo.
 Engraadinha. Tambm no admito homens, ainda que seja mais fcil expulsar um homem do que uma mulher.
 Aposto que  mesmo.
 Que tal experimentar?  sugeriu ele, oferecendo-se.
 Voc nunca fala srio?
 Quando eu falo srio, as pessoas no me levam a srio.
Os dois se encaravam, e Sandra precisou morder o lbio para no pedir que ele a beijasse ali mesmo. Mas sabia que acima de tudo, no devia encorajar Lang. Virou-se para a porta.
 Vou deixar voc  vontade, para se instalar. Estou cansada, e quero ir para a cama.
Ele abriu a porta para que Sandra passasse.
 J verifiquei esse lugar. O quarto onde voc dorme fica na mesma parede que o meu. Se raspar ou bater qualquer coisa na parede, vou escutar. No tenho sono pesado. Nunca.
 Obrigada.  bom saber disso.
 Use um roupo, sim  pediu ele.  Preciso vigiar voc para sua prpria proteo. No torne as coisas mais difceis para mim, certo?  
 Acho que vou usar uma armadura  respondeu Sandra por sobre o ombro.  Durma bem, Lang.
 Voc tambm.
 S quero mesmo um bom banho quente...  ela interrompeu-se olhando esperanosa para ele.
Lang suspirou.
 Certo. Eu desligo a cmera quando escutar o chuveiro. Est bom assim?
 Voc no precisa de nenhuma cmera no banheiro!  protestou ela.
 Engraado, o ltimo sujeito que protegemos disse a mesma coisa. Conseguimos umas fotografias interessantes dele com uma garota...
 E como  que est vivo ainda?
 No foi falta de esforo dos irados contribuintes, isso eu posso garantir. Durma bem, minha pequena. Basta gritar, que eu apareo correndo.
 Eu vou gritar se voc no desligar essas malditas cmeras  ameaou ela.
 Estraga-prazeres...

 Quer assistir?   Eu no assisto seus banhos.
Ele no sorriu como ela imaginara. Os olhos escuros prenderam-se aos dela, e a intensidade do olhar provocou em ambos um arrepio. 
 
  


              


CAPTULO V


Sandra encolheu os ombros.
 No existe a menor possibilidade  declarou ela com firmeza.
  uma pena  comentou ele.  Mantenha a porta fechada.
O olhar que ela dirigiu a Lang parecia conter facas de gelo.
 Est bem, j entendi  disse ele, por fim.  Que tal pegar uma carona comigo para o trabalho amanh? Garanto que seu amigo do carro azul no vai aparecer.
 Ele pode achar que  covardia da minha parte.
 Escute uma coisa  comeou Lang, apoiando-se contra a porta.  No  bom forar o corpo alm de um certo ponto. O stress  um estado perigoso. No deixe que o cansao chegue a abalar seus nervos. Se for para o trabalho comigo, pode eliminar um pouco da tenso nervosa pela manh. J percebeu como anda tensa ultimamente?
 J, j percebi  respondeu ela irritada.  Mas no quero que ele pense que est me assustando. Mesmo que eu esteja assustada.
Ele sorriu.
 No se preocupe, ele simplesmente vai imaginar que eu assumi sua segurana, e mais alguma coisa.  assim que esse tipo de homem pensa.
 Acho que posso ir no seu carro. Desde que voc no tenha idias prprias sobre esse mais alguma coisa.
Os olhos dele passaram pelo corpo de Sandra como se fossem mos a acarici-la.
 Ser que eu teria alguma chance, Sandra?
 Sabe muito bem que sou imune...
 Pode ser imune a sarampo, ou caxumba, isso sim. Mas no  imune a mim. Voc ainda fica vermelha quando eu olho muito para o seu corpo, ou para esses olhos verdes de gata. E isso depois de muitos anos.
 Os poros da minha pele so alrgicos a voc.
Ele sorriu, os olhos perdendo-se na distncia.
 Lembra aquela vez em que fomos ao parque, e ficamos junto com seis garotos perdidos? Eles queriam saber por que voc tinha sardas no nariz, e eu disse que voc tinha alergia por sorve te. Lembra disso?
 Pobrezinhos, eles quase choraram por minha causa  sorriu ela, recordando a cena.  Foi uma poca to boa aquela, Lang. Voc era meu melhor amigo...  15/05/2006 03:47
 E voc a minha  completou ele.  S que naquela poca eu no era o mesmo o que se pode chamar de um bom partido. Seria um casamento de alto risco. Havia tanto a fazer com minha vida...coisas que uma famlia iria impedir...
 , eu sei. Como entrar para a CIA e ficar dando tiros por a.  interrompeu ela, baixando os olhos.
No queria que ele percebesse o medo que havia em seus olhos. Ficara muito tempo sem notcias de Lang, a no ser quando Bob deixava escapar alguma informao sobre seu trabalho. Ele e Connie ainda eram seus amigos, e por intermdio deles ficava sabendo que rumo tinha tomado a vida de Lang. Ficava preocupada, e esperava o tempo todo a notcia da morte dele, vinda de algum lugar obscuro do mundo. Convencera-se que Lang voltaria para ser enterrado na cidade natal. Por isso o impacto de v-lo em sua sala fora to grande. Ainda estava a refazer-se do choque de saber que ele pretendia mudar de vida. Em vrias ocasies se perguntava o que teria acontecido de to grave para provocar uma deciso dessas em Lang.  
 Sandra?
 O qu?
 Voc no estava prestando ateno, estava?  indagou ele, com ar frustrado.
 Desculpe, eu estava longe daqui... pensando no tempo em que voc foi embora. Lia tudo o que podia sobre as operaes da CIA nos jornais, e ficava imaginando que voc estaria em cada uma delas...  Ela riu.  Uma besteira, no acha?
A expresso dele tornou-se grave.
 Era exatamente o que eu pretendia evitar.
 Voc queria que eu no tivesse medo? Queria que eu apertasse um boto e desligasse, no momento em que no quis ouvir o meu lado na histria? Que eu parasse de gostar de voc ali mesmo?  vista?
 A idia foi essa  admitiu ele.  Voc ficou com raiva de mim, no ficou?
 Pensei que tinha ficado. Quer dizer, no comeo fiquei mesmo  confessou ela.  Mas no foi nada fcil apagar as recordaes, Lang. Levou um bocado de tempo. Foi uma vida inteira com voc, afinal. E uma parte importante da minha vida. Acho que para os homens  diferente. Como voc mesmo disse, deve ter sentido tudo como uma coisa fsica.
 Por que diz isso?
 Porque  verdade. Os homens pensam com as glndulas, e as mulheres com o corao.
 Essa  uma idia estereotipada. Os homens sentem as coisas tanto quanto as mulheres, e alm do mais, algumas mulheres pensam muito mais com as glndulas do que os homens.
 Voc me queria, mas no conseguia fazer nada a respeito  acusou ela.  Se me amasse de verdade, no poderia ter ido embora.
 Voc me deixou ir embora  lembrou Lang.  Podia ao menos ter aberto a maldita carta que eu mandei pra voc!
 Dizia alguma coisa alm de adeus? Achei que era s mais um monte de acusaes, as que no lembrou de fazer na hora, sobre minha moral e meu carter. Ou melhor, falta de carter. Acho que no pode me censurar por no ler a carta.
Lang enfiou as mos nos bolsos.
 Naquela altura eu j sabia sobre Chad. Precisei de um tempo para estabelecer minhas prioridades.
 Tudo o que eu sabia,  que quando voc foi embora, olhava para mim com cara de nojo, e disse que nunca mais queria me ver...  na sua frente. Foi exatamente o que disse.
  que eu nunca sentira cimes antes. Foi um sentimento novo para mim. Uma exploso que me transformou em outra pessoa. E, alm disso, me senti trado. Por todos os lados. Chad era meu melhor amigo.
 No sei porque est dizendo tudo isso, Lang. Queria uma sada e ele lhe proporcionou uma bela desculpa para fazer isso. Espero que tenha apreciado sua estadia com o governo. O que me deixa curiosa, acima de tudo,  o motivo da sua volta. No posso imaginar qual seja.
 Ser que no pode mesmo, Sandra?
Ela tentou ignorar o tom carinhoso da voz dele, mas sentiu um arrepio.
 Estou cansada. Vejo voc amanh  disse ela, virando-se.
 Com toda certeza  confirmou Lang.  No esquea que voc vai no meu carro. Quer queira, quer, no.
E fechou a porta na cara dela.  
Sandra teve vontade de atirar algum objeto pesado na porta, mas no encontrou nenhum ao redor. Alm do mais, teria de limpar toda a sujeira depois. Estava cansada. Normalmente teria evitado discutir com Lang, porque no queria mais remoer o passado. O mesmo passado que tivera tanto trabalho para controlar.
Ao passar pela secretria eletrnica, notou que estava piscando. Estava sem a menor vontade de ouvir as mensagens, pois uma seria fatalmente de Erikson. S que no podia fazer isso, pois seu trabalho envolvia comunicaes fora de horrio comercial. Muitos clientes tinham mais tempo para conversar  noite, e isso era bom, pois estavam mais calmos e receptivos.
Fazendo uma careta, acionou o controle para escutar a fita gravada.
A primeira era de Mack, avisando que no dia seguinte receberiam um cliente novo logo cedo, e pedindo que no se atrasasse. A segunda era um engano.
Como ela temia, a terceira era de Erikson:
 Numa noite dessas, seu guarda-costas no vai estar a e eu vou te pegar. O que vai fazer ento, princesa?
No havia mais nenhum recado.
Sandra retirou a gravao, colocando uma fita virgem no lugar. Essa frase seria muito til num tribunal, se Erikson desse qualquer passo em falso. Guardou-a na gaveta, e foi para a cama. Teve um sono agitado durante a noite, revirando-se e acordando vrias vezes.
Quando Lang tocou a campainha na manh seguinte ela usava um vestido lils, acompanhado de uma echarpe estampada. Ele trajava um palet esporte cinza, uma cala gelo e uma camisa listrada de branco e vermelho. Estava elegante, e Sandra chegou a sentir um arrepio, porm fez questo de no demonstrar nada.
 Bom dia, Lang. Guarde para mim  pediu ela, estendendo a fita da secretria eletrnica.  Acontece que ontem  noite um dos trs recados que recebi era de Erikson, dizendo que no instante em que eu ficar sem voc, ele me pega. Acho que foi uma ameaa bem explcita, e no caso de qualquer tentativa, pode servir de prova contra ele.
Ele enfiou a fita no bolso, com um olhar gelado.  
 Qualquer dia desses, ele vai dar um passo em falso. Quando isso acontecer, pode acreditar que eu vou estar por perto, esperando.
 Ele  meio doente, no ?
 Ou  doente, ou no tem mais nada a perder.
Sandra trancou a porta com cuidado, e os dois desceram, dirigindo-se para o carro de Lang.
 Espere um pouco  avisou ele, antes que ela se aproximasse do veculo.
Executou uma rpida vistoria da parte exterior do carro, embaixo e sob o cap.
 O que foi tido isso?  quis saber ela.  Voc no acha que ele chagaria a ponto de explodir seu carro, acha?
Ele deu de ombros, abrindo a porta para ela.
 Cautela e caldo de galinha no fazem mal a ningum.
 Aprendeu isso na CIA?
 No. Aprendi quando era pequeno. Minha av sempre dizia isso. Na CIA, aprendi que nunca se sabe o que um homem  capaz de fazer sob presso.
 Certo.
 No precisa ficar preocupada. Afinal, no precisei desmontar uma bomba.
 Voc sabe mesmo desmontar uma bomba?
 Se for feita com detonador simples, sei. Uma vez, na Europa, a gente estava vigiando um...  comeou Lang, interrompendo-se.  Na verdade,  um assunto secreto. O que interessa  que eu tive de desmontar uma bomba colocada em meu carro.
 Isso foi uma das coisas que ensinaram a voc por l? 
Ele deu risada.
 No. Foi uma das coisas que eu tive que aprender da forma difcil. 
 Da maneira mais difcil? Como assim?
 Tive que explodir uma vez  respondeu ele, olhando com expresso divertida para o rosto dela.  Sandra! Foi uma brincadeira. Eu estava brincando.
 Nunca sei mesmo quando voc est brincando  declarou ela, dando de ombros.  Isso era uma das coisas que me incomodava muito. Acho que sou ingnua demais. Tenho uma maldita tendncia para acreditar em todo mundo. Mas pelo menos j sei cair de lado e de costas.  
 Claro que pode. E sem se machucar. Depois que terminar esse curso, homens adultos vo sair correndo, assim que voc aparecer. Voc ser o terror da rua  prometeu ele.  No consigo imaginar por que voc no teve a idia de fazer isso antes. Todas as mulheres deveriam tomar conta de si mesmas. Seria muito bom nos encontros amorosos. Alis, deviam ensinar na escola.
 Talvez tenham muitas outras coisas na escola para ensinar...
 No estou brincando. Acho que deveriam incluir defesa pessoal no currculo, na parte de educao fsica. As mes no teriam de se preocupar tanto com as filhas, que seriam capazes de se defender dos rapazes mais afoitos.
 J ouvi falar de estupros no primeiro encontro, muito obrigada.
 No nosso caso, eu  que fiquei preocupado. Voc era uma jovem bastante impetuosa.
 Tudo bem, pode esfregar o dedo na ferida  reclamou ela. 
 O que eu podia fazer? Voc era linda, e me desejava. Podia ter tido qualquer um.
 Se isso fosse verdade, voc no teria fugido.
Sandra reparou que ficava cada vez mais fcil lidar com o assunto da rejeio, agora que ela e Lang eram amigos outra vez.
 Acha mesmo?  perguntou ele, manobrando o carro, e parando por um instante em frente ao prdio.  Est vendo? Erikson no est. Talvez tenha ficado apavorado, e desistido.
 Pode ser.
 Se voc quiser, posso conseguir um testemunho das pessoas que j protegi, dizendo como posso ser apavorante para os outros. Na verdade, o ltimo que eu protegi disse que era uma sorte nosso pas ter gente como eu para defend-lo.
Sandra deu risada.
 O sujeito que pediu para no ser vigiado no banheiro?
 Recebi ordens para vigi-lo vinte e quatro horas por dia  justificou Lang.  E foi exatamente o que fiz.
Ela sorriu e sacudiu a cabea, mas o sorriso murchou quando lembrou-se de que ela tambm estava sendo vigiada dessa maneira. A expresso de preocupao nos olhos verdes denunciou seus temores a ele.
 No banheiro, no. Nem quando a porta est fechada no quarto. Palavra de escoteiro.  
 Voc nunca foi escoteiro...
 Fui, sim. Pelo menos at acender minha primeira fogueira. Por azar, foi em cima do tapete da sala do nosso instrutor. Nunca consegui explicar para ele como foi que aconteceu. De qualquer forma, foi culpa de Bob; ele levou o material e me explicou como usar.
 Bob gostava do instrutor de vocs?
 J que voc mencionou, no gostava nem um pouco.
Sandra riu.
Saram do carro, e a mo de Lang procurou a dela. Ele sentiu os dedos contrarem-se, e o brao recuar. Parou e olhou para ela.
  boa demais para segurar a mo do guarda-costas?
Ele repetiu o gesto, e ela sentiu os dedos acariciando sua pele, e o polegar encaixando-se na palma da mo. Quando ficavam prximos demais, os sentimentos pareciam controlar as aes de ambos, numa espcie de magia.
 No  murmurou Sandra, fitando de perto os olhos escuros.  No quero reviver o passado.
 Mesmo que seja com um final diferente  sugeriu Lang, sem desviar os olhos.  Talvez um final feliz?
O corao dela deu um salto ao compreender o que ele propunha. Disse a si mesma que se tratava apenas de um jogo de palavras. Lang estava brincando, e ela o levava a srio...
 Pare de brincar com isso, Lang  disse ela, rindo e retirando a mo.
 Mas, Sandra, eu no...
O rudo forte do motor de um carro chamou a ateno de Lang, que ficou imediatamente alerta. Empurrou Sandra para o lado da calada com presteza, evitando o atropelamento por um carro esporte antigo e escuro, em velocidade suicida.
 Filho de uma cadela!  praguejou Lang, estreitando os olhos.  Se fosse aquele carro azul, eu ia atrs daquele miservel agora mesmo.
 Barbeiros a gente encontra em todos os lugares. Se a gente fosse atrs de todos eles...  ponderou ela, ajeitando a saia.  Alm do mais, passou bem longe de mim.
 No foi to longe assim, considerando que estamos na calada  observou ele.  Foi por pouco.
 Pelo menos no foi nosso amigo Erikson.  
 Lang concordou com um gesto de cabea, porm sua cabea trabalhava. No estava convencido ainda. Ofereceu o brao a Sandra, e entraram no prdio.
Mais tarde, Lang utilizou seu computador porttil para acessar um programa sigiloso. Digitou o nome de Erikson e realizou algumas verificaes. Pouco tempo mais tarde, desligou o aparelho da rede, sentindo-se descuidado e irritado. Descobrira que Eikson tinha dois carros, e um deles era um carro esporte velho, de cor preta.
Sandra teve um longo dia de trabalho pela frente. Grande parte do tempo foi empregada numa reunio, e depois disso as coisas comearam a dar errado. O novo cliente, cujo primeiro contato seria feito pela manh, teve um problema com a agenda, e adiou para o dia seguinte, provocando algumas alteraes no prprio horrio dela.
 tarde, Betty entrou para conversar um pouco.
 Como vai o novo cliente?  perguntou ela, com um sorriso.
 No sei. Ela no apareceu. Mack disse para tentarmos outra vez amanh cedo.
 Eu ia convidar voc para ir ao cinema, mas acho que no  uma boa idia, com o sr. Desagradvel na sua cola.
 Lang est me ajudando  disse Sandra.
 Ele at que  bonito  comentou Betty, com um olhar de gata gulosa que desagradou a amiga.  E no tem nenhum compromisso, que eu saiba.
 Nenhum que eu saiba tambm. Antigamente, pouco antes de namorar com ele, ele teve um certo compromisso com a ltima namorada, que era modelo. Uma tal de...Lorna McLane.
Betty franziu a testa.
 Lorna McLane?
 . J ouviu falar dela?  indagou Sandra, estudando a expresso da amiga.  Betty! O que voc sabe e eu no sei?
 O nome da cliente que no veio hoje.  Lorna McLane. 
Sandra sentou-se, procurando o conforto da poltrona.
 O que ela quer conosco?
 Ela representa uma agncia de modelos, especializada em locaes no sul do Texas. Subiu rpido, de modelo at o cargo que ocupa atualmente. Mack diz que ela quer que coordenemos um show de moda, a parte de publicidade, e tudo mais.  
 Bem, a verdade  que no podemos dispensar um negcio dessa magnitude. Alm do mais ela e Lang j tinham estragado tudo quando eu entrei na vida dele. No que importe agora  acrescentou Sandra com rapidez.  Agora eu e Lang somos apenas amigos. Ele  o chefe da segurana. Apenas isso.
 Sabia que Lorna e a sra. Lancaster so muito amigas? insistiu Betty, reparando nas menores reaes da amiga.
Sandra sentiu seu corao bater mais forte.
 Boas o suficiente para que a sra. Lancaster contasse  sua boa amiga sobre o novo emprego de Lang?  quis saber ela.
 Boas o suficiente para que ela falasse com Lang sobre o emprego, e fizesse uma boa indicao  sra. Lancaster. Afinal, so to amigas as duas...
Ento fora assim que Lang encontrara o emprego. Quando conversaram ela reparou que ele no mencionara o nome da pessoa que o ajudara.
 Ningum nunca me diz nada!  reclamou Sandra em voz alta.
Ficara abalada com a piada monumental que o destino pregara nela.
 Escute, Sandra. S porque Lang trabalha aqui, no significa que Lorna v se pendurar no pescoo dele. Voc pode levar um cavalo at a gua...
 Mas no pode obrig-lo a beber  completou Sandra, de mau humoo.  Pelo amor de Deus, Betty!
Afundou em sua poltrona, sentindo-se frustrada e trada. A verdade  que nutrira esperanas em relao a ele. Ficou deprimida. Erikson j destrua sua tranqilidade, e agora Lorna vinha acabar com a estabilidade emocional, disputando Lang. Lembrava-se bem dela: alta, elegante, corpo esguio e perfeito, olhos e cabelos escuros. Era linda. Se ainda tivesse a aparncia que tinha quando namorava Lang, ele certamente se sentiria tentado. Afinal, nada o detinha. Presumivelmente ela era solteira, e ele tambm. Sandra estava fora do preo, por tudo o que j tinham conversado. No era muito bonita, e no podia nem pensar em competir com a modelo. Alm disso, enquanto Sandra era antiquada, Lorna jamais se incomodaria com esse tipo de preconceito.  
 No pode simplesmente desistir  encorajou Betty.  Para comear, eu no teria ningum com quem almoar.
 No posso prometer nada... Betty, voc j teve um daqueles dias em que tudo d errado? E no final de uma semana em que tudo j est errado?
Betty deixou escapar um longo suspiro.
 Acho que vou buscar uma xcara de caf para voc  ofereceu ela.  No est dentro das minhas atribuies de trabalho, mas acho que voc est precisando muito.
 Betty, por que Lorna escolheu essa agncia entre todas as que existem em San Antonio? Acha que foi por causa de Lang?
 Se eu fosse uma garota dada a apostas, diria que esse motivo seria o primeiro em minha lista  admitiu betty.  Voc ainda tem uma certa queda por Lang,  isso?
 Isso no  verdade  protestou Sandra, o rosto vermelho.  Eu nem ao menos gosto dele.
 Claro, e vo triplicar nosso salrio, a partir de hoje  comentou a amiga, ao sair.
Lang apanhou Sandra no final daquela tarde, os olhos vigilantes cobrindo toda a rea do estacionamento.
 No vi mais o carro azul  comentou ela, enquanto saam para a rua.
 E quanto a um carro esporte preto?
Ela franziu a testa, fazendo fora para recordar-se.
 J que perguntou, tinha mesmo um carro esporte preto, que...  Os olhos verdes encheram-se de medo.  Deixe eu adivinhar: Erikson tem dois carros. Um deles  preto.
-Exatamente.
 O mesmo que quase me atropelou, de manh!
 Parabns, acaba de acertar na mosca.
 , acho que hoje no foi mesmo o meu dia.
 Por qu? O que aconteceu?
Ela olhou para ele e sentiu que a vida de ambos se repetia, de uma forma distorcida. Ao final, Lang se afastaria outra vez.
 Sabe que estamos captando uma nova cliente na agncia?
 Se a expresso no seu rosto significa alguma coisa, deve ser algum que eu conheo. Vamos continuar por enigmas, ou voc vai dizer de uma vez o que est acontecendo?
 Lorna McLane vai promover conosco o grande desfile anual.  
Ele no chegou a olhar para ela. Sentiu que ela sabia de tudo.
 Que bom para ela! Somos uma tima firma, no somos?
Sandra no moveu um msculo do corpo. Permaneceu como que paralisada em seu assento.
 Voc sabia que ela estaria aqui.
Lang deu de ombros.
 Sabia mesmo. Como voc pensa que consegui esse emprego? Ela me ligou quando eu estava em Washington, dizendo que sabia desse cargo na Lancaster, e sugeriu que eu me candidatasse. Deve lembrar que eu acabei com ela antes de namorar voc. Mas mesmo assim, no chegou a ser uma coisa sria.
 Voc tem encontrado ela depois que voltou?  perguntou Sandra, tentando manter-se controlada.
 Na verdade, almoamos juntos hoje  admitiu ele.  Lorna est mais velha, mas ainda est em forma. Linda como uma fotografia.
Sandra olhou pela janela, apertando com fora a bolsa no colo. Ao perceber, Lang exultou. Ainda havia esperana, porque ela estava morrendo de cimes.
 No esquea da aula, hoje  noite.
 Pensei que a aula fosse amanh.
 Era mesmo. Mas Erikson est me deixando inquieto  justificou ele.  Um pouco de exerccio vai nos fazer bem. O que acha?
 Tudo bem  comentou Sandra.  Vai ajudar a esquecer os problemas. Voc e Lorna quase casaram, no foi?
 Ela queria ser uma modelo famosa, e eu queria ser um agente da CIA  afirmou ele, entrando no estacionamento do prdio.  Uma vez ela colocou algumas exigncias, eu fiz outras, e ambos decidimos que o melhor seria seguirmos caminhos separados. Eu queria minha carreira mais que tudo no mundo naquela poca, e no me arrependo. Nem depois me arrependo. Para dizer a verdade, porque fiz muitas coisas excitantes, Sandra. E cresci.  
 D pra notar  comentou ela.  Eu gostava do jeito que voc era.
 E eu gostava de voc  respondeu Lang.  Voc era cheia de alegria, espirituosa. Agora parece fria, distante.
 Tenho um bocado de responsabilidades com esse emprego novo  respondeu ela.  E Erikson no me sai da cabea.
O que Sandra no acrescentou,  que o fato de estar sempre ao lado de Lang a perturbava constantemente, trazendo o passado e suas angstias a todo momento.
 Ele tambm no me sai da cabea. S que eu tenho certeza e estou convencido que ele cometer um erro a qualquer momento. Quando isso acontecer, quero estar ao lado dele.
 Ou eu estarei. Ser que vamos fazer alguma outra coisa que no seja cair no tatame? Quero aprender a fazer alguma coisa efetiva.
 O que tem em mente?  indagou ele, com voz sensual, aproximando-se dela.
 Acho que aprender a quebrar o brao de algum seria timo  comentou ela sorrindo.
 Contanto que no seja o meu...
 Como pode pensar uma coisa dessas?  indagou Sandra, simulando estar ofendida.  Eu jamais machucaria um amigo, certo?
Foram para academia, e durante o trajeto, Lang percebeu que estavam sendo seguidos; Sandra no reparou. Resistindo ao impulso de parar o carro e dar uma surra no sujeito, Lang evitou fazer exatamente o que o homem queria. Tinha de agir com muita frieza, ou colocaria Sandra num perigo maior ainda.
Entretanto, seria interessante ensinar a ela alguns golpes contundentes. Assim que chegaram, foram trocar de roupa, e em poucos minutos estavam frente a frente no tatame. Realizaram os exerccios de aquecimento, e ele mostrou as posies da mo.
Em seguida, Lang demonstrou algumas manobras de evaso.
 Isso  montono  resmungou ela, repetindo o movimento pela dcima vez.
 Preste ateno! Isso no  um jogo. Finja que  o Erikson atacando e reaja de acordo!
Ela realizou uma tentativa, mas as mos estavam cansadas.
 Certo, ento vamos fazer do meu jeito  anunciou ele, atacando com movimentos rpidos e uma expresso ameaadora.  
 Sandra quase entrou em pnico, mas quase sem pensar, usou a tcnica que ele lhe ensinara para afastar as mos que se fechavam ao redor do pescoo. Completou o movimento, avanando, e derrubando Lang de costas no tatame.
Ele rolou, num movimento gracioso, ergueu-se e preparou um golpe com a lateral da mo direita. Deu um grito alto e curto, que vinha do fundo dos pulmes. Ento golpeou.
Sandra fez a nica coisa que lhe ocorreu no momento: tapou o rosto com as mos e gritou.
Ouviram-se alguns risos pela academia, vindo de observadores que j conheciam a ttica de choque de Lang, que a utilizava em jovens cadetes da academia de policia.
Ela entreabriu os dedos, e tirou as mos do rosto avermelhado. Olhou cheia de raiva para Lang.
 Seu estpido! Animal! Isso no foi justo.
 As pessoas nascem com dois medos naturais  observou ele, com voz calma.  o medo de rudos curtos e agudos, e o medo de cair. Um grito bem aplicado pode paralisar o adversrio pelos segundos que voc precisa para acert-lo. Esse  um dos mtodos que gosto de ensinar. Algumas vezes, o grito em si  suficiente para evitar um confronto, ou vencer.
 Posso garantir que do lado de c  muito desagradvel.
 No duvido. Mas o fato de acostumar-se a idia de um ataque pode salvar voc algum dia.
Ela pensou um pouco, controlando-se, e percebeu que o que ele dizia era sensato. Sua pulsao estava acelerada.
 J teve o bastante?  provocou ele.
 Nem pensar. Pretendo agentar o que voc agentar. No se preocupe comigo. Seja duro!
Lang fez exatamente o que ela pediu, sorrindo. 


  


CAPTULO VI


Depois de uma hora de exerccios puxados, Sandra caiu ao lado de Lang, no tatame. Mal podia respirar, e cada osso de seu corpo parecia ter sido triturado.
 J quer desistir?  provocou ele outra vez.
 S por enquanto  respondeu ela, arfando.
O rosto corado pelo exerccio estava coberto de gotculas de suor. O cabelo espetava-se para todos os lados, como um simptico porco-espinho.
 Lembra-se do dia em que fomos nadar no rio?  disse Lang, em tom saudoso.  Voc quase morreu afogada porque no queria admitir que era longe demais para voc. Tive de trazer voc de volta.
 Eu quase consegui  insistiu ela, lembrando a ocasio  qual ele se referia.
 No caminho de volta, a parte de cima do seu mai saiu  afirmou ele, aproximando-se e encarando-a de perto.
Sandra sentiu o impacto do olhar dele como se fosse a ocasio referida. Havia a mesma intimidade da primeira vez entre os dois. Os olhos de Lang pousados nos seios nus a tinham feito corar no rosto e no colo, disparando o corao como nunca acontecera antes. Ele no a envergonhara, nem fizera pouco da sua situao. Erguera-a da gua com suavidade, e a observara longamente. S isso. Depois a colocara de volta, encontrara o suti e o devolvera a ela. Virara de costas para que ela vestisse com tranqilidade. Tudo acontecera de forma to natural que ela mal registrara a experincia.  
 Acima de tudo lembro da expresso em seu rosto  comentou ele, em voz baixa.  Voc ficou chocada, excitada e deliciada, tudo ao mesmo tempo. Um pintor ficaria maluco tentando captar aquela expresso.
 Foi a primeira vez  declarou ela.  Naturalmente para voc no deve ter sido algo nico.
 Como pode ter tanta certeza?
Ela evitou os olhos negros que procuravam os seus.
 Tudo isso foi h muito tempo, no foi? Agora somos pessoas diferentes.
Num timo, todos os lugares estranhos e aventuras em que estivera metido passaram pela mente de Lang. Todos os contatos que os dois tiveram, desde o incio do relacionamento at a ltima vez. A nica vez em que importava de verdade que ele tivesse acreditado nela. O que no ocorrera.
 Eu desapontei voc.
 Pode ser, mas voc no teria sido feliz se tivesse assumido um compromisso comigo. Precisava muito de liberdade, e por isso tambm no deu certo com Lorna.
 Com Lorna foi diferente  afirmou ele, estreitando os olhos.  Ela sabia desde o princpio que eu no pretendia me casar, e me aceitou assim. Porm nunca disse isso a voc.
 At pensar que eu tinha feito amor com Chad  completou ela.  Foi isso que feriou seu orgulho mais que tudo.
 O amor vem de uma forma muito forte para alguns homens, Sandra. A idia de acomodar-se custa a cristalizar...
 Eu sabia que voc ainda no estava pronto  afirmou ela, sorrindo.  E apesar do fato de que voc no ter feito nenhuma proposta, eu no teria aceitado, por saber que voc desejava entrar para a CIA muito mais do que casar-se. Mas era gostoso fazer de conta.
 Sandra, uma vez eu perguntei o que achava de tentar outra vez. Voc nunca me respondeu. Eu no estava brincando.
 No sei, Lang  ponderou ela, com expresso incerta e o corao acelerado.
 Agora voc  uma mulher, e poderamos comear de onde paramos. Podemos ter um relacionamento completo, sem os inconvenientes da adolescncia. 
 O que est querendo dizer  que podemos dormir juntos,  isso?
Ele ajeitou o uniforme, evitando olhar para ela.  
  isso mesmo.
 Foi o que pensei ter entendido.
Sandra estendeu a mo e comeou a calar as meias e os sapatos, sem olhar para os lados, ou responder a pergunta.
 Ento?  perguntou ele, sem conseguir conter-se.
 Ento o qu?  Ela levantou as sobrancelhas.
 O que acha de comear outra vez?
 No gosto de ficar colando cacos de espelho at formar um inteiro outra vez  disse ela.  E sabe muito bem como me sinto sobre sexo. J conversamos sobre isso. No pretendo ficar transando por a.
 Voc no iria ficar transando por a. Iria transar s comigo.
 Certo, e por quanto tempo, Lang?  indagou ela, os olhos verdes procurando os dele.  At que voc fique cansado?
 Est distorcendo minhas palavras.
 No estou, no. Voc precisa de uma mulher, e eu estava disponvel  gritou ela, os olhos fuzilando de raiva.  Muito obrigada Lang.  muito lisonjeiro ter um homem olhando para mim e enxergando meia hora de diverso.
Ela levantou-se de repente, e ele fez o mesmo, sentindo-se frustrado e zangado. Ela no o deixou terminar. Parecia que ela no queria que ele fizesse nenhuma proposta sria. Por outro lado no o queria, ou no o amava o suficiente para encarar um relacionamento com ele, sem a presena de laos permanentes. Essa sempre fora a barreira entre eles, e parecia ainda estar em p, mais slida do que nunca. Sandra no confiava nele.
 Deixe eu dizer uma coisa  continuou ela, alterada.  Quando eu quiser um homem para dormir comigo, eu mesma procuro. E no ser um figuro com uma longa lista de ex-amantes! Eu no dormiria com voc nem que me apresentasse um atestado mdico dado pelo Ministro da Sade.
Dito isso, apanhou a valise e passou por ele em direo  sada.
 Espere um pouco  disse ele, assim que a alcanou, bloqueando-lhe o caminho.  Voc no vai a lugar nenhum sozinha. Esqueceu o que estamos fazendo aqui? Seu perseguidor no descansa, sabia?
Ela hesitou. A raiva subitamente tornou-se menos importante do que o fato de que Erikson poderia estar do lado de fora.  
 Estou contente que tenha usado seu bom senso  disse Lang.  Espere at eu trocar de roupa, e vou levar voc para casa. Depois disso, a no ser pelos contatos profissionais, ns ficamos separados. Est bem assim?
 Est timo! Se existe uma coisa da qual eu no preciso,  de um homem em minha vida. Consigo me virar muito bem sozinha...
 Eu tambm. E quando fico muito necessitado, saio com Lorna. Pelo menos ela no tem idias to antiquadas sobre sexo.
Depois de declarar o que sabia atingiria Sandra, ele voltou-se e caminhou para os vestirios. Ela ficou ali, vendo confirmadas suas piores expectativas, porm irredutvel para no demonstrar a dor que sentia no corao.
Desolada, olhou para a prpria sacola de equipamento, o pensamento absorto em Lang. Tivera esperana que as atitudes dele tivessem se alterado, e percebia agora que isso no acontecera. Ele no alterara suas atitudes bsicas; ainda era incapaz de assumir um compromisso. No queria uma ligao permanente, ao passo que ela no poderia sobreviver numa relao solta. A verdade  que Sandra era muito intensa e possessiva para viver com a conscincia de que poderia representar apenas um passatempo. Lang iria se utilizar dela pelo tempo que quisesse, j que ela estava disponvel, depois iria dispens-la como um sapato usado. O que aconteceria ento? Ficaria na rua da amargura.
Lang retornou em cinco minutos, com aparncia descansada e boa disposio, a despeito de toda a atividade durante a aula da discusso posterior. Mesmo depois do que fora dito, ele separava a parte profissional, cnscio de que Erikson aguardava apenas um momento de distrao. Era preciso respeitar o inimigo, e o perseguidor de Sandra no parecia o tipo de homem que desiste com facilidade, principalmente depois de ter o machismo arranhado.
Acompanhou-a em silncio, depois deixou-a na porta do apartamento, com uma despedida quase formal. Ambos foram para a cama mais cedo, contrariando seus hbitos.  
 Ele no queria de modo algum discutir o presente ou o passado, depois do que ela dissera. Fora injusto, pois sua inteno ao voltar para a cidade natal, era a de acomodar-se na vida.
O problema  que Sandra no queria ouvir. Talvez fosse um raciocnio lgico para quem pensava apenas na carreira, mas indicava tambm o cimes de Lorna, pela rao violenta logo depois do nome ter sido mencionado. O que no significa em absoluto que ela gostasse dele.
A verdade  que exagerara o relacionamento com a outra apenas para irritar Sandra. Lorna fora um envolvimento sem conseqncias, muitos anos atrs, e nenhum dos dois encarara o assunto com seriedade. Ela ainda era uma mulher atraente, porm Lang amava Sandra. Que no o queria mais, como deixara bem claro naquela noite. Isso o magoara, acima de tudo. O simples fato de observ-la em movimento j o excitava, e ela no queria nada com ele.
No queria mais se preocupar com o assunto, pois acreditava no haver mais nada a fazer. O melhor no momento era uma boa noite de sono, pensou, virando para o canto e fechando os olhos. 
Por muitos dias no viram nem sinal de Erikson. Essa constatao foi um choque para Sandra, que procurava por ele e pelos dois carros em todos os cantos, cada vez mais apreensiva. Com o passar do tempo, a ausncia de telefonemas e de contatos visuais por parte do perseguidor, ela foi relaxando a vigilncia. Acalmou-se, convencida de que o homem fora cuidar da prpria vida. Talvez tivesse resolvido que no valia a pena tanto trabalho para vingar-se. Se  que no se tratava de algum estratagema psicolgico, para induzi-la a sentir-se segura. A segunda hiptese ficava mais remota com o passar dos dias, e Sandra acabou convencida de que no ouviria mais falar dele.
Entretanto, a ausncia de Erikson foi a nica coisa que lhe deu prazer, porque passou a tratar da conta de Lorna. Isso significava passar cada vez mais tempo com ela, que agora estava saindo com Lang outra vez.  
 Com um detalhe adicional e torturante, escolhera Sandra como confidente, partilhando com ela todos os detalhes de seus encontros.
 Gostei muito da sua idia, meu bem  declarou Lorna, num almoo em que discutiam negcios.  Mas as coisas no devem interferir com minha vida privada. Esse projeto, com a arte final, precisa ficar pronto at o final da tarde. Esta noite vou  pera com Lang.
Sandra no moveu uma sobrancelha perante a afirmao, evitando qualquer demonstrao de sentimentos. Por outro lado, acreditava que algum dia o sorriso plstico que usava acabaria no saindo mais do rosto.
 Vamos ver o que posso fazer  disse ela, imaginando os argumentos que teria que usar com o pessoal da produo para realizar o que a outra pedira; talvez no quisessem cooperar.
 timo. Ento ficamos resolvidas nessa parte. S tem mais uma coisa Sandra: sra que voc precisa ter um apartamento ao lado do de Lang?  indagou Lorna, visivelmente irritada.  Esse fato parece inibi-lo quando estamos juntos l.
 Ele se mudou para o apartamento ao lado do meu por causa das ameaas de um ex-segurana que despediu por minha causa e estava me ameaando  informou Sandra, deixando de mencionar que Lang fizera barulho suficiente para certificar-se de que ela percebesse quando Lorna esteve l. No dormia direito, depois disso.  Mas desde que o sujeito no aparece mais, no vejo motivo para que ele fique. O certo seria voltar para o seu prprio apartamento.
Na verdade gostaria muito que Lang partisse. Pelo menos no teria de ouvir os risos e outros rudos que o casal fazia.
 Sabia que iria concordar! Eu disse a ele que no haveria problema algum se ns duas conversssemos sobre o assunto. Os homens so to covardes na parte emocional, no acha?
Isso significava que ela havia discutido o assunto com Lang.
 Ele mesmo podia ter perguntado  queixou-se Sandra.  
 Ah, ele no teve coragem de vir falar com voc  disse Lorna, dispensando o assunto com um gesto de mo.  Mas quando eu contar a ele que conversamos, vai ficar aliviado.
 Tenho certeza que vai.
 E quanto  cobertura das redes de televiso? Acha que pode conseguir a CNN?
Ao final da tarde, Sandra sentia-se exausta. Mal conseguia pensar. No se lembrava de outra ocasio semelhante.
Lang parou brevemente em seu escritrio, como um estranho numa visita de cortesia. Foi muito educado, mas parecia distante. Ela sabia que ainda era vigiada por questes de segurana, mas no parecia haver nada pessoal no envolvimento. Cada vez mais, ela se lamentava pelo passado entre eles. Por que ele no podia ter ficado fora da minha vida? Perguntou-se, cheia de auto-compaixo.
Ele mal entrara no escritrio para dizer que ela estaria por conta prpria naquela noite, j que ele pretendia sair com Lorna. Avisou-a para que no relaxasse as precaues contra Erikson, assunto que quase os levou a uma discusso. Foi um alvio quando ele saiu. Sentia-se perfeitamente capaz de cuidar de si mesma, sem necessidade de nenhuma sombra. Pelo menos era o que pensava at chegar em seu carro.
Erikson estava sentado no banco da frente.
Ela estacou assim que o viu. Isso significava que ele voltara, q que tudo iria recomear. Significava tambm que durante esse tempo todo Erikson no desistira, simplesmente aguardara uma boa oportunidade para agir. Sandra teve vontade de chorar. Seu estmago contraiu-se em vrios ns, enquanto ela imaginava como lidar com a situao.
 Oi, gostosa  cumprimentou ele, sem a menor cerimnia.  Pensou que eu tinha esquecido de voc?
 Saia j do meu carro!
 Por que no vem me tirar daqui?  desafiou ele.
Ela no tinha a menor inteno de tentar. Erikson era um agente de segurana treinado. As poucas habilidades que ela aprendera poderiam funcionar bem com um novato, ou junto com o elemento surpresa, mas o homem provavelmente seria mais graduado que ela em carat.  
Lang uma vez lhe dissera que era importante escolher a hora e o lugar que dessem mais vantagens. E nunca se atacava; esperava-se oponente. Todos esses pensamentos passaram por sua mente enquanto encarava o ocupante de seu veculo.
 Muito bem, sr Erikson. Acho que vou deixar que a polcia faa isso por mim.
Voltou-se e dirigiu-se rapidamente para o prdio, o rosto vermelho de raiva com a ousadia do sujeito. Ao atingir a porta do prdio escutou a porta do carro bater. Virou-se a tempo de ver Erikson sair do carro e dirigir-se para o prprio veculo. Ligou o motor e saiu devagar, buzinando e acenando ao passar por ela.
Por um instante ela hesitou, imaginando se deveria chamar a polcia de qualquer jeito. No demorou muito, pos sem o homem dentro do carro no havia mais nada que a polcia pudesse fazer, e ela j sabia disso.
Retornou ao prprio carro e abriu a porta. Com o canto do olho reparou em algo que no se encontrava habitualmente ali. No segundo seguinte, seus olhos se voltaram para o objeto no cho, avistando-o antes que explodisse: era uma granada. Fez uma careta e recuou, mas no chegou a dar nem um passo.
O artefato explodiu.
Sandra levou as mos  frente dos olhos instintivamente para evitar a onda de concusso, esperando ser jogada para trs. Porm tratava-se de uma granada de gases. Um rudo forte magoou seus ouvidos, depois o carro encheu-se de fumaa espessa e de cheiro irritante. Ela recuou e conseguiu escapar do pior, exceto por uma dor irritante nos olhos e na garganta. Comeou a tossir.
Aquela fora a ltima gota. Maldito Erikson! Chorando de raiva, ela retornou ao interior do edifcio e discou para a polcia. Poucos minutos depois, dois policiais chegaram num carro-patrulha. Lang apareceu logo atrs deles.
Correu na direo de Sandra, e ela precisou resistir ao impulso de cair nos braos dele. Voltou-se para o policial que chegou primeiro e relatou fielmente os acontecimentos. Lang permaneceu ao lado dele, escutando, o rosto cada vez mais srio.  
 Depois Sandra respondeu s perguntas que lhe foram feitas.
 Faz tempo que ele fugiu  finalizou ela.  Pensei que ele no quisesse me ferir.
 Se ele quisesse ferir a senhora, teria usado uma granada de estilhaos, no de gases  garantiu o policial mais jovem.
 Mas com esse ato, podemos enquadr-lo na lei contra terrorismo, e tambm por arrombamento de veculo.
 Se conseguirmos colher algum tipo de impresso digital, seria quase certo obtermos uma ordem de priso  afirmou o outro policial; depois voltou-se para Sandra:  Ele estava de luvas?
Ela pensou na breve viso que tivera de Erikson, e recordou-se da imagem dos dedos sobre o volante. De luvas pretas.
 Estava  admitiu contrafeita.
 L se vai nosso caso.  a sua palavra contra a dele.
 Mas...
 Desculpe, mas a lei  assim. Sempre digo que  uma vergonha, mas no adianta. No existe nada que possamos fazer, madame. Tem idia de quantos tarados do em cima das mulheres, porque no podemos dar proteo a elas? A gente fica com raiva s de ouvir o que esses caras fazem. Precisamos de uma lei nova para poder agir. A senhorita no  a nica vtima, embora possa estar se sentindo assim no momento.
 Estou mesmo!
 Cuidado com esse sujeito! Voc no devia estar aqui sozinha, a uma hora dessas.
 No devia mesmo  concordou Lang, franzindo a sobrancelha.  Sou o chefe da segurana, aqui no prdio. Pensei que o cara tivesse desistido. O erro foi meu.
 Poderia ter sido fatal para ela  comentou o policial mais velho, sem rodeios.
 Acha que no sei disso?  perguntou Lang, os olhos angustiados.
Algo na forma como disse aquilo fez com que o policial no insistisse. O sujeito pediu desculpas a Sandra e saiu com seu companheiro.
 Preciso levar o carro para casa  disse ela.
 No, senhora. Vamos trancar tudo e deix-lo a. Em primeiro lugar, ele precisa ser limpo antes que possa sentar para dirigir.
  verdade. Nem tinha reparado  comentou ela, procurando as chaves para trancar o veculo.  
Lang ajudou-a a fechar o carro, e deu-lhe uma carona para casa. Assim que partiram, ele manifestou-se:
 Desculpe...
 Seu trabalho no  me vigiar o tempo inteiro  disse Sandra.  Voc tem que proteger muitas pessoas.
 Eu pensei mesmo que ele tinha desistido. Ia completar duas semanas desde a ltima vez que vimos o sujeito. Agi como um agente novato, no como um profissional. Escutei o chamado no rdio com a faixa da polcia que tenho no carro. No tinha idia de como ia encontrar voc quando cheguei no estacionamento. Fui muito estpido!
Ela percebeu, entre outras coisas, que o orgulho dele estava ferido. Cometera um erro profissionalmente porque estava com a mente ocupada por Lorna. No admitiria isso a ningum, muito menos para ela, mas Sandra sabia. Passou o trajeto todo olhando para fora do carro, pela janela. Ainda em silncio, desceram e entraram no elevador.
 Obrigada por me acompanhar at minha casa  disse ela,  porta de seu apartamento.
 Voc vai ficar bem?
 Claro. No sou retardada. Posso muito bem fazer a higiene pessoal, depois ir para a cama, sem a ajuda de ningum.
 Mantenha as portas fechadas  aconselhou ele.  e no circule perto das janelas.
 Acho que est ficando paranico, sabia? Acha que ele vai usar um rifle com mira telescpica para me acertar?
 No tenho a menor idia do que ele pode fazer  desabafou Lang.  Mas voc no pode mais se descuidar. Entendido?
 No fui descuidada. Olhei e no vi ningum no estacionamento  defendeu-se Sandra, irritada.  S enxerguei o sujeito quando cheguei perto do carro. Mas no cheguei perto o suficiente para que ele tivesse a chance de me agarrar.
 E se ele tivesse uma arma, Sandra?
 Pelo amor de Deus, Lang! Ele no vai me dar um tiro. J poderia ter feito isso vrias vezes!  
Ele no respondeu, e nem ao menos sorriu. Enxergava mentalmente a imagem do corpo desejado cado na calada, com o rosto para baixo, os olhos abertos e vidrados, o sangue escorrendo dos ferimentos. Assistira a morte de outros agentes que raciocinaram da mesma forma. Sabia por experincia, como gente do tipo de Erikson podia ser imprevisvel.
 Estou muito bem  disse ela.  Calma, Lang, eu estou muito bem. E se voc quiser se mudar, eu j disse a Lorna que por mim est timo. No tenho medo...
 De que diabos est falando?
 Lorna me contou que voc est ficando cansado de morar ao lado do meu apartamento. Ela deve ser insegura, ou algo parecido, porque me conta todos os detalhes do relacionamento com voc...
 Mas acontece que eu nunca disse nada para ela sobre esse assunto  respondeu ele, zangado.  Alm do mais, eu nem consideraria essa idia at que situao com Erikson fique resolvida, de um jeito ou de outro.
Aquela afirmao fez com que ela se sentisse leve outra vez. Lorna mentira. Lang no pretendia afastar-se dela.
 No sabia que ela tinha tanto contato com voc  comentou ele.
 Eu estou manuseando a conta dela  informou Sandra.  Os outros tiraram o corpo fora, um por um, at que sobrasse para mim. Na verdade, ela  perfeccionista e ningum quer trabalhar com ela, mas nos damos bem. Fao de conta que estou adorando ouvir quando ela conta sobre a sua devoo por ela. Funciona como um charme.
 Devoo!  estranhou Lang.  No  bem isso o que ela consegue de mim...
 Sei muito bem o que ela consegue de voc. Lorna fez questo de contar esse pedao tambm.
 Mas no existe nada para contar  declarou ele surpreso.  No estou dormindo com ela!
Sandra deu de ombros.
 No precisa me poupar desse assunto. No estou alimentando esperana nenhuma nesse sentido, pode ficar tranqilo. Quando eu casar, e pretendo fazer isso um dia, meu marido ser meu primeiro amante.
 Ele vai precisar ser um cara muito especial para aceitar um relacionamento desse tipo  disse Lang, com o rosto vermelho.  
 Talvez ele acredite estar recebendo um presente  argumentou ela.   preciso uma mulher inteligente para no arriscar a sade e a do futuro marido s para no se destacar na multido.
 Voc  puritana.
 Minha moral  um assunto que s diz respeito a mim. Voc no passa do chefe de segurana da companhia onde eu trabalho...
Os olhos escuros estavam postos nos dela.
 Tente outra coisa.
 Voc no tem o direito de...
Ele puxou-a, interrompendo a frase, e pousando a boca sobre a dela. Ela enrijeceu e tentou resistir, mas os braos a envolviam de forma to aconchegante, puxando seu corpo contra o dele, que a reao no durou. Os lbios sequiosos sobre os seus no tiveram de esperar muito; Sandra entreabriu a boca.
Lang no tirou partido imediato disso, torturando-a com movimentos deslizantes dos lbios, tocando-a levemente, at que ela no agentasse mais e impulsionasse o corpo de encontro ao dele, a boca procurando capturar a dele. Todos os sentimentos do passado voltaram, como se o tempo no tivesse corrido desde a separao. Um ansiava pelo outro.
 Diga o que quer  sussurrou ele, em seu ouvido.
As mos fortes agora acariciavam seus quadris, puxando-os contra a rigidez dele, de forma a que ela pudesse sentir sua ereo.
 Lang...
 Vamos, Sandra  provocou ele.  Me diga o que quer fazer.
 No  justo...  protestou ela, debilmente.
 A vida no  justa...
A mo dele insinuou-se pela nuca, os dedos penetrando nos cabelos e virando a cabea no ngulo desejado. Os olhos escuros que mergulharam nos dela tinham algo de assustador.
 Agora, deixe eu provar sua boca  murmurou ele.  E voc vai provar a minha...
Ela sentiu o beijo como nenhum outro. O calor e aumidade dos dois misturaram-se, as lnguas acariciando-se com movimentos erticos. Os corpos procuravam-se, vidos de contato. Sandra entregou-se, sentindo-se derreter de encontro ao corpo masculino, sem considerar passado ou futuro enquanto sentia o toque agradvel da lngua que deslizava dentro dela.  
 A penetrao provocante despertou nela um desejo quase incontrolvel, que a fez estremecer. Ele riu e tornou os movimentos mais significativos, num ritmo lento.
Comeou a sentir contraes no ventre, e os msculos das pernas estremeceram. Ouviu os prprios gemidos em meio ao calor enorme produzido nos locais de contato entre os corpos. 
A mo de Lang deslizou para a base da espinha, e comeou a guiar os movimentos dos quadris contra os dele. Desta vez o gemido de Sandra ecoou pelo corredor vazio, lembrando a ambos que se encontravam num lugar pblico.
Foi bem a tempo.
O rudo do elevador parando penetrou na mente de ambos, provocando a separao. Ele afastou-se dela no instante em que um casal de meia idade desceu. Ambos olharam para eles com certa indulgncia, e caminharam de mos dadas para o outro lado do corredor.
Lang sentia-se incapaz de qualquer movimento. Escutou uma porta fechando-se a distncia, e s ento voltou-se para Sandra. Ela parecia to enfraquecida quanto ele. Estava apoiada na prpria porta, a boca e os lbios avermelhados pelo beijo e pela excitao.
 Eu podia ter voc agora mesmo  disse ele, emocionado.  Voc sabe disso tambm.
 No vamos esquecer Lorna  balbuciou ela, atravs do turbilho de emoes que lhe cruzava a mente.
 Que se dane a Lorna. Eu quero voc!
Ela desviou os olhos.
 Voc est excitado,  s isso. Um belo banho frio de chuveiro resolve o assunto.
 Lorna no me mandaria tomar um chuveiro frio.
 Ento por que no vai procurar Lorna?  indagou ela, estreitando os olhos.
 Muito obrigado pela sugesto  disse ele furioso.  Acho que  exatamente o que vou fazer.  
Encaminhou-se para o elevador, vermelho de raiva. Entrou e bateu com violncia no boto do andar trreo. As portas fecharam-se, e ele no chegou a levantar os olhos na direo de Sandra.
Ela poderia ter gritado de puro dio. No pretendia ir para a cama com ele apenas para mant-lo afastado de Lorna, e se ele pensava que isso poderia ter acontecido, ainda no a conhecia bem.
Entrou e trancou a porta atrs dela, apoiando-se na madeira. Como ele pde fazer uma coisa daquelas! Beij-la como se fosse a coisa mais normal do mundo. Como se ela estivesse a disposio dele... Agora ia se revirar na cama a noite inteira, perturbada pela prpria imaginao, enxergando Lorna nua na cama, enroscando no corpo de Lang. Que presuno, a dele, de achar que poderia us-la como usava Lorna!
Resolveu controlar-se e no pensar mais no assunto, para no dar a ele a satisfao de obter o efeito desejado. Ligou a televiso.
Entretanto, Lang dirigia pela cidade, bem longe do bairro onde morava Lorna. Pensava que no deveria ter tocado Sandra daquela forma. Agora iria passar as prximas horas recordando a maciez da pele dela, e a suavidade dos gemidos. Mas em compensao descobrira uma coisa: Sandra o desejava tanto quanto ele a desejava.
Deixara que ela o tirasse do srio com os comentrios feitos. Ela tinha cimes de Lorna, mas no queria confiar nele. Esse era o ponto importante. Precisava controlar mais o prprio temperamento e as emoes. Entrementes, ambos tinham de lidar com Erikson. A granada o abalara tanto quanto a ela; precisava fazer algo enquanto ainda havia tempo para agir.
Na manh seguinte, Lang foi mais cuidadoso do que de hbito. Tocou a campainha de Sandra meia hora antes do combinado. Ela saiu da cama para atender, de camisola curta. 
 No fique olhando  avisou ela, baixando o rosto.  Estou horrvel...
Antes de responder, os olhos escuros passaram pelas pernas bronzeadas, e pelo tecido fino sobre os seios. O efeito era devastador.  
 Nesses trajes voc  capaz de virar a cabea de um cego, garota  comentou Lang, sorrindo.
 Pois no pretendo virar a sua cabea mais  avisou ela.  S quero me vestir para ir trabalhar. Tem um pouco de caf na cozinha. Pode se servir enquanto eu me visto.
 Tem certeza que no quer ir assim mesmo? Seria uma sensao.
Sandra colocou as mos nos quadris, os olhos fuzilando.
  s um corpo, afinal de contas. Lorna tem um parecido, e tenho certeza que foi muito apreciado ontem  noite.
 Est com cimes?  quis saber Lang, erguendo uma sobrancelha.
 Cimes de Lorna? Ah! Por que eu teria cimes dela? No quero voc, cara.
 No foi isso o que pareceu, ontem  noite... 
 Nem vou me dar ao trabalho de responder isso. Mas posso garantir que no desejo voc!  gritou ela, voltando-se e entrando no quarto.
Ainda com raiva, encostou a porta e tirou a camisola, parando um instante em frente ao espelho, s de calcinha cor-de-rosa, reparando que o colo estava avermelhado.
A porta abriu-se e os olhos de Lang percorreram seu corpo.  
 
  


CAPTULO VII



Sandra mal conseguia respirar. A forma como Lang a olhava fazia com que um estranho calor tomasse conta de seu corpo inteiro.
 No precisa entrar em pnico  avisou ele, encostando-se  porta com as mos nos bolsos.  No consigo tirar os olhos... voc  to bonita assim... mas prometo no encostar em voc, a menos que queira.
As sensaes alternavam-se entre frio e calor, e os mamilos enrijeceram, numa lembrana dos tempos em que foram acariciados lentamente pelos dedos e pela lngua de Lang.
Disse a si mesma que deveria vestir-se sem demora. O fato, porm,  que descobriu-se paralisada naquela posio, o corpo exposto ao olhar dele, apreciando a admirao contida naquele olhar. Sentiu espcie de prazer proibido.
A expresso no rosto dela demonstrava desejo, e o tremor nas pernas confirmava visivelmente a intensidade da excitao. Com um rudo rouco no fundo da garganta, ele aproximou-se. Devagar.
Uma voz no interior da mente ordenou que ela recuasse. Lang estava perto, ocupando todo seu campo visual.
Mas ele no a tocou. Simplesmente observava-lhe o rosto, em silncio. Depois do que pareceu uma eternidade, um sorriso esboou-se no canto dos lbios de Lang. A mo deslizou at a gravata me desfez o n, devagar. Puxou-a, num movimento sensual, atirando-a para o lado. Depois retirou o palet, que foi depositado numa cadeira, enquanto Sandra estremecia, sem retirar os olhos verdes dos dele.
Quando as mos retornaram, os dedos comeando a desabotoar a camisa, ela encontrou foras para falar.
 No quero... agora.
Mas no se moveu.
 Tambm no quero  sussurrou ele.  Mas acho que certas coisas esto destinadas a acontecer.
Todos os botes abertos, a pele ficou exposta, os cabelos escuros do peito trazendo novas recordaes a Sandra. Ele tomou-lhe as mos e conduziu-as at a fivela do cinto de couro.
 Tire  pediu Lang, com voz rouca.
Os olhos verdes arregalaram-se, fitos mos dele, e as mos hesitaram.  
 Vou tomar conta de voc. No vamos assumir mais riscos  declarou ele, percebendo a apreenso no olhar de Sandra. Beijou-os com delicadeza.  Talvez demore muito tempo, mas voc vai confiar em mim para cuidar de voc.
Fascinada com a viso dos pelos, ela aproximou os seios nus do corpo dele, atrada como um im. Estremeceu quando os mamilos tocaram os pelos, depois a pele quente. Braos fortes envolveram seu corpo.
 Confio em voc  disse ela.
Lang ficou sem flego. No previra que as coisas aconteceriam daquela forma. Anos de desejo intenso e reprimido, esperana... e ela se entregava sem protesto algum.
No interior do quarto, onde nada se movia, penetravam apenas os rudos distantes da rua, como se ocorressem em algum universo distante, ou no enredo de um filme. Escutavam, acima de tudo, as respiraes aceleradas, sentindo a pele queimar nos pontos onde se tocavam. Os lbios de Sandra afloraram o peito dele.
 Voc vai ficar com raiva de mim depois?  indagou Lang, baixinho.
Ela ergueu os olhos e respondeu com outra pergunta:
 Voc vai me achar leviana?
 Voc?  sorriu ele.
Ela pousou o rosto contra os pelos escuros, percebendo que ambos atingiram um ponto do qual no havia possibilidade voltar atrs.
 Mas existe uma condio  lembrou ele, acariciando as costas nuas com as palmas das mos.
 Qual?
 Depois, voc vai ter de colocar a aliana de volta.
Ela sentiu as alteraes no ritmo da respirao dele. Abriu os olhos.
 O anel?
Os lbios de Lang brincavam com alguns fios de cabelos.
 O anel de noivado, Sandra  murmurou ele.
A boca dele percorreu um caminho pelo rosto, at encontrar os lbios de Sandra. Ouviu o gemido de prazer quando as lnguas se tocaram, e o corpo apertou-se contra sua virilha.
Lang interpretou aquilo como um juramento sagrado. Depois disso, nada o impediria de consumar o desejo.
Tomou-a nos braos, sem interromper o beijo, e caminhou na direo da cama.
Depositou-a com suavidade sobre os lenis.
 No vai fechar a porta do quarto?  
 Quem iria nos vigiar?  argumentou Lang, deitando-se ao lado dela.
Ficou observando os mamilos duros e eretos antes de inclinar-se para um deles, os lbios envolvendo a carne trgida, e provocando um prazer diferente de tudo que Sandra experimentara. Uma sensao inebriante parecia ter origem nos bicos dos seios, espalhando-se e caminhando para o ventre, parecendo explodir na mente. Mal sentiu quando a calcinha foi retirada. Depois ficou tremendo, olhando para o corpo dele, admirando-o. Estendeu as mos e abriu o cinto, deixando que ele retirasse a cala, observando os movimentos daquele corpo masculino. Nunca antes o tinha visto completamente nu. Olhava sem embarao, apreciando a perfeio do corpo musculoso de movimentos elegantes.
 No podemos mais ter segredos um para o outro, certo?  sorriu ele, deslocando o corpo para tocar o dela.
O beijo foi suave dessa vez, enquanto as mos exploravam sem pressa os lugares mais ntimos do corpo dela. Agora s os rudos do amor ecoavam pelo quarto.
Sandra nunca imaginara que faria amor em plena luz do dia. Naquele instante, porm, tudo acontecia de forma perfeita, natural. O que jamais previra tambm foi a intensidade das sensaes que lhe explodiam pelo corpo todo ao ser manipulada pelos dedos pacientes e hbeis. Depois foi a vez dos lbios percorrerem a mesma trilha.
Quando todo o resto sumiu, a no ser a lngua e os lbios de Lang, ele parou e afastou-se o suficiente para colocar o preservativo.
Sandra sentiu de forma quase dolorosa a ausncia de contato, mas logo foi recompensada com um abrao de corpo inteiro; seus quadris elevaram-se de encontro aos dele.
 Lang!  gritou ao ser penetrada.
 No  uma delcia?  murmurou ele.  A nossa parte animal... a servio do amor. Agora pode dizer que me conhece de verdade. E eu conheo voc...
Enquanto murmurava, a boca colada ao ouvido dela, movia-se devagar para o interior, sentindo a necessidade do corpo dela.  
Os movimentos de Sandra eram bsicos, instintivos, buscando a sensao de plenitude sem preocupar-se com qualquer outra coisa. Sentiu a umidade interna, que facilitava os movimentos, cada vez mais frenticos, que ambos faziam em conjunto. As mos de Lang baixaram para as coxas frementes, ajudando-as a mover-se de encontro  sua rigidez. No demorou muito para que perdesse completamente o controle.
Ambos se remexiam juntos, ela com as unhas quase enterradas nas costas fortes, pulsando internamente ao ritmo cada vez maior da exigncia fsica.Escutou a prpria voz como se pertencesse a outra pessoa, como se no estivesse mais no prprio corpo e sim numa bolha aquecida de calor e satisfao pulsante.
Sandra arqueou as costas, para sentir a plenitude da emoo nova e maravilhosa que percorria seu corpo. O orgasmo explodiu, entre gritos e gemidos. Tudo apagou-se de sua mente, a no ser o corpo de Lang movendo-se dentro dela, como se ambos formassem uma s entidade. Soluou.
Aos poucos se deu conta do peso apoiado sobre ela, e da respirao acelerada do companheiro. Abriu os olhos, enxergando o teto refletindo a luz diurna. Lembrou-se de tudo e sorriu.
Lang sentiu o sorriso contra o prprio rosto, e levantou a cabea. Seus olhos escuros, assim como os dela, tinham um brilho suave e satisfeito quando voltaram a focalizar.
O corpo dela comeou outra vez a ser sacudido por movimentos convulsivos, e ela se deu conta de que ele no sara de dentro dela. Viu o desejo retornar aos olhos de Lang, e sentiu-lhe novamente a rigidez.
 Li num livro que isso  impossvel  sussurrou ela.
 O livro provavelmente foi escrito por uma virgem  comentou ele, comeando a mover-se outra vez.
 Lang? No  arriscado?
Ele aquietou-se.  
 Tem razo... tem toda razo. O preservativo pode arrebentar  ponderou ele.  E o pior  que no tenho outro comigo.
Afastou-se com o rosto angustiado, deitando de costas ao lado dela. Permaneceu ali, os punhos cerrados, dando a impresso de estar indefeso enquanto lutava para afastar seus demnios internos.
Sandra inclinou-se sobre ele, observando-lhe abertamente o rosto. Em pouco tempo ele puxou-a para beijar-lhe os seios.
 No tenho mais vontade de parar  disse ela, quando sentiu a boca quente sobre seu corpo.
 Nem eu. Mas precisamos nos proteger, e evitar filhos  ponderou Lang.
 Voc quer mesmo casar comigo?  quis saber ela.
 Claro.
Ela deitou-se no peito dele, sentindo-lhe o odor masculino na pele.
 Quando?
 Acho que podemos marcar a data outra hora. Mesmo porque precisamos ir para o trabalho.
Essa observao fez com que Sandra levantasse os olhos para o relgio, e os arregalasse.
 Meu Deus! Estou uma hora atrasada!
 Calma. Tambm no  o fim do mundo  comentou ele.
 Isso  o que voc pensa. Eu tenho um encontro marcado dentro de meia hora!
 Olhe para mim.
Ela obedeceu, cativada pelo sorriso dele.
 No se preocupe. Eu levo voc a tempo.  Beijou-a com suavidade, e puxou-a para fora da cama, espreguiando-se. Venha, ainda temos tempo para um banho rpido.
Os dois entraram juntos no chuveiro, e o banho acabou demorando mais do que habitualmente, pois cada um lavou o corpo do outro, aproveitando os movimentos e sabonete para satisfazer desejos ntimos.
 No estou preparado agora  desculpou-se ele, desligando o chuveiro.
Saram, e Lang ps-se a sec-la, com movimentos lentos da toalha.  No queremos acidentes, certo?
 Certo. Acho que vou ao mdico na semana que vem, para saber a melhor forma de evitar acidentes  disse Sandra.
Ele estudou-lhe o rosto por um instante.
 Sua carreira significa muito para voc, certo? Pelo menos nesse momento da sua vida?
  verdade  concordou Sandra. Depois franziu a testa.  E voc? Algum dia pretende ter filhos?
Ele sorriu.  
 Claro. Algum dia. Agora vamos embora, seno voc vai se atrasar para o tal encontro  lembrou Lang.  Esta noite podemos dar um pulo at a casa de Bob e Connie, para contar as boas novas.
Sandra pretendia saber muito mais sobre a idia que ele fazia de famlia. Talvez s estivesse pensando nela, mas de qualquer jeito seria interessante voltar ao assunto num momento mais propcio. Ficara com a impresso que cada vez que o assunto crianas vinha  baila, uma sombra passava pelos olhos dele.
 Mas quando voc...
 Pare de procurar mais motivos para chegar atrasada  interrompeu ele.  Veja o estado das minhas roupas; parece que fui seduzido. Voc me seduziu!
 E da?  perguntou ela, dando de ombros.  Quer apresentar queixa?
 No. Mas da prxima pretendo vir preparado. Com pelo menos uma dzia de preservativos.
 Calma, meu bem. No esquea que sou iniciante  lembrou Sandra.
 Uma iniciante bem voraz, alis  comentou Lang, comeando a vestir suas roupas.
Com habilidade gerada pela prtica, ela enfiou rapidamente o suti e a calcinha, colocando em seguida um belo vestido verde de padro colorido.
 Voc fica bem de verde  comentou Lang.
 Obrigada. Pode me responder uma coisa?  indagou ela, recebendo um aceno positivo de cabea.  Por que entrou hoje de manh?
 Pretendo dar uma carona para voc at o trabalho. Tambm queria saber se recebeu algum recado na secretria.
 No encontrei nenhum recado. Ningum me incomodou de forma nenhuma, at chegar um bonito hoje de manh. Acha que essa demora foi s uma ttica para fazer presso?
 Tem de admitir que  um timo truque psicolgico  disse ele.  Deixar a vtima acreditar que est completamente segura, depois mostrar que est to vulnervel quanto antes. S que esse truque da granada foi perigoso. Algumas vezes esse tipo de granada comea um incndio, para no mencionar a fumaa no carro fechado. Se estivesse embaixo do banco poderia produzir danos maiores.  
 
  
 Em outras palavras, estamos to perto de resolver o assunto como quando comeamos...  completou Sandra, enquanto penteava o cabelo com movimentos rpidos.
Lang concordou.
Deixando a escova de lado, Sandra dirigiu-se at a cama, sentou-se e apanhou a meia-cala numa gaveta. Colocou-a, enquanto ele apreciava a viso. A seguir calou os sapatos de salto e apanhou sua bolsa.
 E meu carro? Preciso dele.
 Desculpe. Vou providenciar isso agora de manh.
Ela procurou o olhar dele.
 Foi ver Lorna ontem  noite?
 Acha que se tivesse visto Lorna ontem  noite, hoje de manh eu estaria daquele jeito?
 Bem...  Sandra corou.
Ele puxou-a contra si.
 Voc no tem muita experincia. Alguns homens podem fazer amor a noite inteira, mas eu no perteno a esse grupo. Se eu tivesse ficado com outra mulher, no teria conseguido hoje. Isso responde sua pergunta?
 Responde. Desculpe, eu no devia ter perguntado.
 Sandra, voc confiou em mim o suficiente para fazermos amor. Isso te d todo o direito do mundo de perguntar o que quiser sobre mim. Eu no dormi com Lorna, e no pretendo fazer isso. Quero casar com voc.
Foi o que ele disse, mas a verdade  que no quis marcar a data, e no quis arriscar-se a engravid-la. Sandra quase mencionou isso, mas o que haviam partilhado era importante demais para arriscar qualquer chance de estragar algo. Seria melhor viver um dia agradvel de cada vez. Por enquanto. 
Beijou-o com suavidade, tentando no reparar na indeciso que os olhos de Lang demonstraram por um instante.
 Vamos ver se j fomos despedidos  convidou ela, afastando-se.
 Vamos.
O percurso at o escritrio foi realizado quase em silncio. Lang pensava que daquela vez no haveria retorno. Ele assumira um compromisso, e mesmo que soasse estranho para um homem moderno, sentia-se obrigado a fazer a coisa correta, casando-se com ela. Importava-se muito com Sandra, porm no gostava de sentir-se encurralado. No soava to confortvel quanto lhe parecera a principio. E ela queria filhos, ainda por cima.  
 Ele gostava muito de Mikey, por exemplo, mas seria diferente quando tivesse o prprio filho. Iria tornar-se to responsvel por ele quanto por Sandra; talvez mais. Ela queria uma carreira. Fizera amor com ela porque no fora capaz de controlar-se. Desejava Sandra como uma espcie de loucura. Olhou com o canto dos olhos para ela, lembrando-se como fora, tinha certeza que no se arrependeria do que fizera. No interessava qual fosse o custo, tinha valido a pena. S faltava acostumar-se com a idia de compromisso. Disse a si mesmo que no devia ser to ruim assim. Habituara-se a viajar sem parar, quando entrara para a CIA. Acostumara-se a usar uma arma o tempo todo. Para ser honesto consigo mesmo, acostumara-se com coisas muito piores. Podia perfeitamente aceitar o fato de que agora tinha um compromisso. Em relao a filhos, teria que encontrar um jeito de adiar esse assunto. Olhou para Sandra e sorriu.
Porm ela no se deixou enganar. Percebeu a preocupao na expresso dele, a indeciso que ele no foi capaz de ocultar. Tinha ultrapassado os prprios limites e agora se arrependia, foi a impresso que passou para ela. Lang faria o possvel para conviver com a situao, mas talvez fosse o comeo de um pesadelo para ambos.
O melhor acontecimento dessa manh foi a ausncia de Erikson. Procuraram pelos carros do perseguidor, mas no havia nada  vista. Sandra no se deixou levar pelas aparncias, certa que Erikson poderia estar por perto, apesar de tudo.
Quando Lang estacionou, voltou-se para ela:
 No relaxe a vigilncia. S pelo fato de no conseguirmos avistar o sujeito, no quer dizer que ele desistiu.
 Eu estava pensando exatamente a mesma coisa  declarou ela, os olhos procurando os dele.  Desculpe.
 Desculpe por qu?
Ela deu de ombros, e forou um sorriso.  
 Acho que ainda no est pronto. Pensou que estivesse, mas simplesmente ainda no est. Tenho tanta culpa quanto voc pelo que aconteceu, por isso no precisa sentir-se responsvel. E tambm no deve sentir-se obrigado a casar comigo. Fomos cuidadosos. No vo aparecer... conseqncias.
O rosto dele demonstrou emoes conflitantes.
 Tem certeza que no pretende casar comigo, Sandra?
Ela demorou para responder, escolhendo com cuidado as palavras.
 Gostei muito do que fizemos  afirmou ela.  Mas quando a novidade da situao passar, estaremos comprometidos um com o outro. Voc tem o seu trabalho, e eu tenho o meu, portanto o casamento no  mais o fim do arco-ris. Talvez a gente deva pensar um pouco mais sobre o assunto.
  isso mesmo o que estou sentindo, Sandra  disse ele, com certo alvio.  Mas enquanto pensamos, continuamos noivos, certo?
 Certo  concordou ela prontamente.
 Vamos at a casa de Bob e Connie  noite. Vou telefonar para eles.
 Gostaria mesmo de estar com eles outra vez.
 Apanho voc logo depois do trabalho. Tenha cuidado, sim?
Ela assentiu com um gesto de cabea.
 Quer um beijo?  provocou ele.
Ela pretendia negar, mas a ironia da situao fez com que sorrisse.
 Claro.
Sandra aproximou-se e ergueu op rosto. Ele tomou-o nas mos, pousando os lbios sobre os dela, com suavidade. Porm a paixo entre eles era nova e incontrolvel, o que no deixava muito espao para carinhos delicados. Abraavam-se com fora, e os lbios juntaram-se com sofreguido. Ela gemeu, e Lang controlou-se, lembrando-se de onde estavam.
 Ainda no consigo me controlar  desculpou-se ele, separando-se.  Venho apanhar voc para almoar, se estiver livre.
 No estou  afirmou ela, observando-o limpar com um leno o batom da boca.  Tenho de encontrar o pessoal de Lorna para um almoo de negcios.
 Muito bem, fica para outro dia  disse lang, suspirando.
Sandra fez meno de sair, mas ele segurou-lhe a mo.  
 Eu no falei nada a Lorna sobre voc, portanto se ela comear a dizer mentiras sobre mim, procure no ligar, sim?
 Certo.
 Vejo voc mais tarde.
 Claro.
Ela desceu e entrou no prdio, precisando usar sua fora de vontade para no voltar-se. Ela mesma sugerira que no falassem em casamento no momento, agora precisava manter as aparncias.
 Est atrasada  resmungou Mack, no instante em que a viu atravessar a porta.  Lorna McLane j telefonou umas dez vezes, querendo saber onde voc estava. Parece que ela tambm no conseguiu localizar nosso chefe de Segurana...  ele lanou um olhar desconfiado na direo dela.  Faz alguma idia sobre onde ele est?
 Estava comigo  respondeu ela, tentando no corar.
Mack olhou para ela, mas no disse nada.
 No precisa ficar to espantado  retrucou ela.  Lang e eu estamos noivos.
O rosto do patro relaxou-se depois sorriu.
 Meus parabns!
 Obrigada, mas talvez seja um pouco prematuro. Por enquanto no fizemos planos.
 Nunca se sabe  comentou ele.  Lang me parece o tipo do homem impulsivo.
  a impresso que ele deixa em muita gente. Mas na verdade ele  muito cauteloso e metdico. Pensa muito antes de agir.
Lembrou-se do que dissera assim que ficou sozinha no escritrio. Era verdade, no tocante ao comportamento de Lang. Ele nunca deixava as emoes domin-lo, ou agia sem saber com exatido o que iria fazer. Por que entrara daquele jeito no apartamento, de manh? No era comum que ele fizesse algo sem medir as conseqncias; sabia que os sentimentos de Sandra a levariam a esperar compromisso do homem que a seduzira. Sra que perdera a cabea e se deixava levar pelos sentimentos? Ou mudara de idia, e resolvera casar com ela?
No teve muito tempo para pensar sobre o assunto. O telefone tocou, e do outro lado estava uma Lorna McLKane furiosa.
 Onde esteve, srta. Campbell?  indagou ela, em tom irritado.  No tenho tempo para passar o dia inteiro atrs da senhorita, sabia? Quer lidar com minha conta ou no?  
 Sandra teve de morder os lbios para reprimir-se, e no dizer a verdade.
 Certamente que desejamos sua conta, srta. McLane. Desculpe, mas fiquei retida em casa pela manh, e cheguei atrasada.
 Esse atraso tem alguma coisa a ver com Lang?  indagou Lorna.
 J que est perguntando, tem sim  respondeu Sandra, apertando o fone.
 Sua vagabunda!
 Lang e eu ficamos noivos, srta. McLane. O que fazemos em nossas vidas pessoais no  de sua conta!
Desta vez houve um instante de silncio do outro lado da linha.
 No  possvel!  desabafou Lorna, por fim.  Ele no  do tipo que se casa. Est mentindo!
 Se quiser, tem toda liberdade de perguntar a ele.
 J liguei vrias vezes, mas no consegui falar com ele. Acho que estava com voc. Certo?
 Tenho tido alguns problemas com a segurana, por aqui. Lang estava me ensinando carat...
 E mais alguns truques, pelo jeito  interrompeu Lorna.  Ele  timo na cama, no ? Mas se eu fosse voc esperava um pouco antes de falar aos outros sobre casamento. Tambm j fui noiva dele, sabia? Ele nunca quis filhos. Sabe por qu?  um silencio maldoso precedeu a revelao:  Diz que precisa estar livre para sair por a, e filhos s atrapalham. Por isso no quer saber de compromissos.
 Mas l quer filhos. Ns dois queremos  afirmou Sandra, hesitante.
  mesmo? Procure se informar melhor, minha querida. Desafio voc a fazer isso.
 Srta. McLane, na verdade...
 Espero v-la  hora do almoo  continuou Lorna, ignorando a interrupo.  Pedi que os Lancaster nos acompanhassem enquanto discutimos os detalhes da promoo. Na verdade, eu preferia que Mack trabalhasse nessa conta; descobri que mulheres no cooperam muito quando sugiro modificaes.  
 Isso no surpreendeu Sandra nem um pouco, mas no comentou nada. Ficou a imaginar a outra amarrada dos ps  cabea, e adicionou mentalmente uma mordaa.
 No fao nenhuma objeo se Mack tomar meu lugar  declarou, com voz controlada, lembrando que o chefe iria fazer com que passasse maus bocados por desistir, pos detestava Lorna.
 Nesse caso podemos acertar tudo de forma amigvel. Fico contente.
 Vejo voc na hora do almoo, ento?
 Com certeza  sorriu Lorna, emitindo um som que tanto poderia ser um ronronar quanto um rosnado felino.  
 




CAPTULO VIII


Lorna reservara uma surpresa para Sandra  hora do almoo. No somente insistira para que os Lancaster fossem, mas tambm providenciara para que Lang estivesse ali, com aparncia irritada e relutante.
 Tenho certeza que no se importa que Lang se junte a ns, no , meu bem?  indagou Lorna a Sandra, em voz baixa.  Achei que seria interessante dar aos Lancaster as boas notcias de seu noivado.
Sem esperar resposta, afastou-se para receber o casal Lancaster.
 Sei que no estou entregando nenhum segredo de estado  comeou Lorna, logo depois dos cumprimentos.  Mas Lang e a srta. Campbell pretendem casar-se.
Sandra teve vontade de dizer que o veneno estava escorrendo pelos cantos da boca, mas no ousou, na frente dos donos da companhia. Ao invs disso, sorriu o melhor que pde.
  verdade?  indagou sorrindo a sra. Lancaster.
Lang enrijeceu. Olhou para Lorna de forma estranha e aproximou-se de Sandra, tomando-lhe a mo.
  verdade  confirmou ele, sem parecer especialmente entusiasmado.
 Bem, nesse caso, precisamos colaborar com os preparativos do casamento  continuou a sra. Lancaster, o marido sorrindo ao lado.  Quando vai ser o enlace?
 Bem, ainda no marcamos a data  respondeu Lang, um tanto sem graa.
 Certamente deve ser logo, no Lang?  indagou Lorna, com voz adocicada.
 No temos pressa. Sandra e eu temos muito tempo.
Sandra sabia que ele no gostava de ser pressionado, mas parecia haver algo mais naquela troca de palavras. Lang no ficava nada  vontade, tendo que falar sobre sua vida pessoal em meio a tanta gente.
  verdade  apoiou Sandra, mais para contrariar Lorna que para agradar ao noivo.  Planejamos um longo noivado.
 Entendo  disse o sr. Lancaster, estreitando os olhos.
 Bem, se no esto pretendendo iniciar logo uma famlia, ento no h pressa mesmo  comentou Lorna.  Quantos filhos pretende ter, Lang? Dois ou trs?
O rosto de Lang no moveu um msculo.  
 Ainda no discutimos esse assunto.  muito cedo.
 Mas voc quer filhos, no quer?  insistiu ela.
Lang olhou para o rosto dela sem responder, depois consultou ostensivamente o relgio.
  melhor comearmos logo  observou o sr. Lancaster, aproveitando a deixa.  Todos temos nossos trabalhos paras desempenhar. E que histria  essa de mudar a pessoa responsvel por sua conta, srta. McLane?
 No tenho nada contra a srta. Campbell  apressou-se a declarar Lorna.  S acho que Mack ser mais... acessvel. Esta manh, por exemplo, tentei durante um bom tempo localizar a srta. Campbell, que parecia estar comemorando seu noivado com vamos dizer, entusiasmo demasiado. Sabemos como o trabalho fica prejudicado quando as pessoas esto com a cabea nas nuvens.
Ento era isso, pensou Sandra. Em um s golpe a outra fizera com que ela parecesse uma cabea-de-vento incompetente.
 Hoje me atrasei para o trabalho,  verdade. Mas foi a primeira vez desde que entrei para esta companhia  defendeu-se Sandra com veemncia.  Mas no acho que tenha havido prejuzo para o trabalho...
 Srta. Campbell  interrompeu o sr. Lancaster.  No queremos discordar da srta. McLane, queremos?
 Desculpe pelo atraso  continuou Sandra, corando por ter sido chamada a ateno.  Posso assegurar que no vai acontecer no futuro...
 No futuro pretendo tratar com Mack  disse Lorna, com um sorriso encantador.  Eu e ele nos daremos bem. Afinal  uma conta importante.
Os Lancaster aceitavam o que a amiga dizia sem questionar. Sandra estava sendo diminuda, e no havia nada que pudesse fazer, a no ser contrariar frontalmente a cliente, o que seria impensvel na frente dos patres.
 Realmente,  uma conta importante  concordou o sr. Lancaster, fria,mente.  Tenho certeza que a srta. Campbell no se importar se Mack tratar dela, daqui por diante.
O sentido era que seria melhor no se importar. Sandra perdia terreno e no sabia o que fazer para reconquist-lo.  
 Certamente que no me importo, embora nos tenhamos dado bem  afirmou ela, com diplomacia.  A satisfao da srta. McLane  nossa prioridade.
Lorna agradeceu com uma inclinao de cabea.
 Fico contente que concorde. Deus sabe como detesto criar problemas para as pessoas, mas essa promoo precisa ser perfeita. Mesmo porque pode levar a realizao de muitas outras. Tenho bons contatos no mundo da moda.
 Sabemos disso, minha querida. Sua influncia  bem conhecida.  concordou a sra. Lancaster.
O marido olhava para Sandra.
 Presumo que tenha outras contas a seu cargo  disse ele, demonstrando interesse pela primeira vez.
 Tenho trabalhado numa campanha promocional para uma nova cadeia de lanchonetes que vai servir apenas sopas e saladas  informou Sandra.  Alis, os primeiros anncios na televiso iro ao ar s oito da noite.
 Vamos assistir com ateno  garantiu o patro.
Sandra tinha plena confiana de que a campanha seria um sucesso, e no ficou preocupada, a despeito da ameaa contida na observao do dono da companhia. Pelo menos agora ficara em evidncia, graas ao truque sujo de Lorna. Manteve a cabea ereta pelo restante da refeio, sorrindo como se no tivesse uma s preocupao no mundo.
 Espero ser convidada para o casamento  disse Lorna, ao despedir-se.  E ao primeiro batizado, claro.
Lang nem ao menos sorriu.
 Isso foi uma coisa muito baixa, mesmo vindo de voc  declarou, em tom de raiva contida.  Se tem alguma diferena comigo, no deveria se vingar em Sandra. Ela nunca fez nada para voc.
 No?  Os olhos de Lorna fuzilaram.  Ela tirou voc de mim. Isso no  o bastante?
 Em primeiro lugar, para tirar  preciso ter, e eu nunca fui propriedade sua. Em segundo lugar, acho que est esquecendo que tenho vontade prpria, e no sou um objeto para ser disputado. Fao o que tenho vontade. Ningum me obriga. Ns dois somos como gua e cera; diferentes demais para ficar juntos.
 Mas voc me desejava  protestou ela.  
 Voc foi uma parte importante na minha vida por algum tempo. Espero ter sido importante para voc. Mas eu nunca menti para voc, nem prometi nada. Voc sabe muito bem disso!
Ela mal conseguia se controlar. Olhou para Sandra, que conversava com a sra. Lancaster, e suspirou.
 Ela parece satisfeita sexualmente  disse sem rodeios, examinando o rosto dele para observar-lhe as reaes.  Foi isso mesmo. O compromisso da virgem; voc sentiu-se obrigado a propor casamento em troca da virgindade. Foi isso, no foi, Lang?
Ele no respondeu.
 Mas que coisa interessante...  comentou ela, com um novo brilho no olhar.  Sabia que os Lancaster so muito religiosos? Fundamentalistas, dos que preservam muito certos valores.
 Est fazendo alguma ameaa, Lorna?
 Claro que estou, meu bem  confirmou ela, com um sorriso.  Ou voc interrompe esse noivado, ou eu falo com os Lancaster sobre a falta de moral dela. E quando eu terminar, posso garantir que ela no ter mais emprego... ou referencias. Est entendendo o que estou dizendo, no est?
Ela terminou de falar e afastou-se. Lang ficou a observ-la, com um mpeto assassino no olhar. Nem de longe imaginara que ela pudesse se tornar to vingativa. Utilizara a imagem da modelo bem sucedida para provocar cimes em Sandra, sem querer reativar o relacionamento com Lorna. S que ela levara a coisa a srio, e queria arriscar tudo de uma vez. Agora Lang ficava entre a frigideira e o fogo. Ou casava imediatamente com Sandra, ou desistia dela, pois no tinha duvidas de que Lorna cumpriria a ameaa. A alternativa para Sandra seria arriscar a prpria carreira... e a profisso significava muito para ela.  
 Estou achando voc quieto demais  observou Sandra, durante o trajeto para a casa de Bob e Connie, em Floresville.  Algo errado?
Os lhos de Lang deixaram por um instante a estrada, antes de responder.
 Estava s pensando...voc viu Erikson hoje?
Ela balanou a cabea e cruzou os braos, estremecendo de repente.
 Ser que podia ligar o aquecimento, Lang?
 Claro, gatinha. No est gripada ou coisa parecida, est?
 No. Estou apenas preocupada. O casal Lancaster no gostou nem um pouco do que Lorna falou no almoo. Devem ter ficado com a impresso de que sou incompetente.
 Voc  boa no que faz?
 Sou. Mas tem muita gente que tambm . Eu, pelo menos sou original. O que  mais do que posso dizer do coitado do Mack  acrescentou ela, sorrindo.  Alm de detestar Lorna, ele no gosta de alta costura. Acha chato. No vai fazer um trabalho ao gosto dela.
 O que voc tinha imaginado?
 Uma noite sofisticada, cheia de astros e estrelas na platia, com algumas socialites ajudando a exibir as roupas de Lorna. O pblico no s ia adorar o espetculo em si, mas comprariam as rouipas. Significaria uma aumento real nas vendas, e nmao uma promoo superficial. O pai de uma das debutantes locais possui uma rede de lojas finas espalhadas pelo mundo. Nem mesmo Lorna tem ligaes a esse nvel  afirmou Sandra, dando de ombros.  Mas ela no pareceu interessada. No se deu ao trabalho de ouvir.
 Pena que ela no tenha concorrentes  comentou Lang.  Voc podia coloc-la em dificuldades, se quisesse.
 Ela tem concorrentes, sim senhor  lembrou ela.  Mas a conta pertence a outra companhia, e ao que eu saiba, no planejam fazer nenhuma promoo at o final do ano.
O carro parou num sinal vermelho. Lang brecou e olhou longamente para Sandra, pensativo.
 Escute uma idia que acabei de ter  disse ele  Que tal se voc apresentasse suas idias  companhia rival dela como produtora independente?
Ela arregalou os olhos.
 Acho que no seria muito tico, Lang.
 Saia da Lancaster. Mude de emprego. Arrisque.  
 Lang, no final do ms tenho uma boa quantidade de contas para pagar  disse ela, rindo de nervosismo.  No posso arriscar minha profisso. No sou jogadora.
 Eu tambm no sou. Pelo menos normalmente. Mas s vezes a gente precisa se arriscar.
 Voc no arrisca  protestou ela.
 No? Eu pedi voc em casamento, no foi?
A agressividade dela transformou-se em tristeza. Com uma sombra nos olhos, Sandra voltou-se para a janela, dedicando-se a observar atentamente a paisagem urbana.
 Desculpe, foi uma brincadeira idiota  disse ele, sem graa.  Estava tentando alegrar voc um pouco.
 Lorna percebeu tudo isso, hoje. Usou as perguntas para deixar voc encurralado, e s faltou dizer que no tem inteno de casar.
A mo de Lang apertou o volante, recordando a ameaa de Lorna.
 Eu no disse nada sobre a data, s isso.
Ela voltou-se, estudando a expresso sombria no rosto dele, atento  estrada.
 Voc ainda no est pronto. Assim tem medo de se comprometer  declarou Sandra, sem rodeios.  Pensa no casamento como se fosse uma priso, e os filhos como aquelas bolas antigas de ferro dos prisioneiros. Tudo isso para no deixar voc andar solto por a...
 Sandra...
 Por favor,...  pediu ela, tocando-lhe a manga da camisa.  Vamos ficar noivos por algum tempo, at que eu resolva o que fazer da minha vida profissional. Ficar na agncia, ou me tornar independente. Mas no vou levar mais o noivado a srio, pelo menos como promessa de casamento, e quero que voc faa o mesmo. Sua conscincia pode reclamar um pouco no comeo pelo que fizemos, mas acho que vai ultrapassar essa fase. No aconteceu nada de mais, Lang. Fizemos amor, s isso. As pessoas fazem isso o tempo inteiro. Grande coisa. 
 Pois para mim foi uma grande coisa  retrucou ele.  E se de fato no foi nada de mais, por que nunca aconteceu antes?
Ela inclinou a cabea, apoiando-a no banco e fitando com calma os olhos dele.
 Voc sabe por qu. Sempre soube... que perteno a voc.  
 O corao de Lang deu um salto no peito. No conseguiu olhar para ela. Ela o atara com ns invisveis e permanentes, mas fora ele quem fornecera a corda. No queria que ela pensasse assim. No pretendida ser prisioneiro da prpria conscincia. Ou do amor. 
Ela retirou a mo e olhou para o outro lado. Ele ficara sem graa, embaraado.
 No precisa ficar se torturando. No estou pedindo nada.
 Sei disso.
Sandra fechou os olhos, apreciando a escurido que os envolvia, quebrada apenas pelos fachos ocasionais de faris em sentido contrrio. A estrada para Floresville era pouco movimentada e agradvel. Se ao menos pudessem dirigir para sempre naquela penumbra, juntos no interior do carro, pensou ela. Seria maravilhoso no ter de voltar aos problemas passados, que terminaram com a sada de Lang de sua vida.
Adormeceu, e sonhou que faziam amor sob um grande carvalho, ao lado de um riacho. Abraavam-se logo depois, murmurando palavras de amor um para o outro...
 Acorde Sandra  chamou a voz de Lang, despertando-a.
Ela estremeceu e abriu os olhos relutante.
 Que foi?
 Chegamos. E parece que est havendo um barulho dos diabos l dentro. Escute.
Estavam  porta da casa dos Patton. Uma voz masculina gritava alguma acusao contra Connie, que se defendia veementemente. Misturada s do casal, uma vigorosa voz feminina com sotaque espanhol protestava.
 Governanta uma ova!  gritava Connie.  Vocs estavam se beijando!
 Eu s a estava abraando porque ela estava chorando  berrou Bob. Porque voc disse que ela era uma destruidora de lares.
 Pois  exatamente o que ela ! Ela roubou at o Mike  continuou Connie, em altos brados.  Agora ele pede a Teresa para ler para ele, quer ir  escola com ela, quer Teresa sentada ao lado enquanto ele come...afinal, ele  meu filho!
A silhueta dos trs era visvel na varanda da frente, e eles no haviam se dado conta do carro estacionado.  
 Acho que nem ele sabia disso, porque achava que seus filhos eram os carros.. voc fica o dia inteiro com o nariz enfiado na oficina! Mikey precisa de carinho, sabia? E eu tambm...
Connie olhou para cima e levantou as mos para o cu, num gesto exasperado de impotncia. Pretendia responder  altura quando reparou no veculo parado com o casal no interior. Olhou para Bob e voltou a examinar o carro, limpando as mos no macaco manchado de graxa.
 Lang?  gritou Bob, aliviado por uma interrupo na discusso.   voc, Lang?
 Parece que sim  confirmou Lang, com timidez.  Mas podemos voltar depois. S viemos anunciar nosso noivado. Depois a gente passa pra conversar com calma...
 Noivado!  interrompeu Connie.  Voc e Sandra? De novo?
Os dois saram do carro, resignados a enfrentar outro interrogatrio. Bob e Connie aproximaram-se.
 No chegamos s ficar noivos da primeira vez  explicou Lang.
 E quando vai sair o casamento? Logo?
 Gostaria que as pessoas parassem de fazer essa pergunta  desabafou Lang.
 Ainda no marcamos uma data  interveio Sandra, com educao.  Foi tudo muito rpido. Ainda nem tivemos tempo para sentar e discutir o assunto. Nossos empregos ocupam...
 Quer parar de fazer perguntas ao casal Connie?  disse Bob, voltando-se depois para a silhueta na varanda.  Teresa, poderia fazer um caf e trazer umas fatias de bolo, por favor?
 Si, seor Bob  respondeu uma voz suave.
Em seguida a jovem mexicana entrou na casa.  
 Teresa  tima  comentou Bob, sorrindo. Ao olhar para a esposa, a expresso se alterou.  Ela no acha. No aprecia o trabalho duro que a moa fez para ajud-la a manter a maldita oficina.
 Tenho certeza que Connie sabe dar valor, Bob  comentou Sandra.  Podemos entrar, por favor? Estou com frio. 
 Mas com esse calor? Como pode estar com frio, Sandra?  disse Lang, preocupado.
 Ser que voc est com febre?  indagou Connie, colocando a mo na testa de Sandra por alguns segundos.  eu no, graas a Deus. Uma vez eu tive arrepios sem febre... se no me engano, foi quando fiquei grvida do Mikey.
 No existe a menor possibilidade de ela estar grvida  interferiu Lang, com frieza.
 Claro que no, Lang. No foi isso o que eu quis dizer. S estava lembrando de quando tive a mesma coisa  explicou a cunhada.
Apenas Sandra reparou no rubor instalado no rosto do noivo. Depois chegou a considerar a possibilidade, mas lembrou-se de que tinham tomado precaues, e sentiu-se segura. Alm do mais fazia to pouco tempo que nenhum efeito poderia manifestar-se ainda. Simplesmente no poderia estar grvida. Seria praticamente impossvel, pelo menos segundo as estatsticas. Ainda assim... o melhor era nem pensar nisso.
 Essa  Teresa  apresentou Bob,com um sorriso e os olhos brilhantes.  Niita, este es mi Hermano Lang.
 Mucho gusto em conocer-lo, seor  disse ela, sorrindo.
Connie tinha motivos de sobra para ter cimes. Os cabelos negros e brilhantes emolduravam um rosto de formato bonito e pele uniforme, onde dois grandes olhos castanhos cativavam instantaneamente. Teresa era linda.
 O prazer  todo meu  respondeu Lang.  Le gusta trabajar ac, seorita?
 Si seor  disse ela.  Esta famlia es muy simptica, especialmente el nio.
Ela gostava de Mikey, ento. Connie examinava o rosto dops dois irmos,  procura de algum indcio sobre o que dissera a mexicana. Ela no falava espanhol.
 Fale em ingls  ordenou com frieza.  
 Ela est aprendendo, Connie  interveio Bob.  No seja desagradvel.
A esposa colocou as mos na cintura, e voltou-se para enfrentar Bob.
 No tenho a menor vontade de ficar quieta, sabia? Acho que nesse instante mesmo voc acha que est apaixonado por ela.
Bob ficou vermelho e abriu a boca para responder, mas conteve-se.
 Vamos l, seu covarde  insistiu ela.  Pelo menos admita!
 Acontece que ela  uma mulher adorvel, que gosta de crianas, do trabalho da casa, e de homens  afirmou o marido, olhando para ela.  Como espera que eu me sinta a respeito dela, quando minha mulher tem a aparncia e o cheiro de um mecnico, e nunca tem tempo pra mim ou para o filho?
Connie, ficou parada por um instante, os olhos arregalados enchendo-se de lgrimas; depois saiu correndo para o quarto, soluando e batendo a porta.
 Agora estraguei tudo  disse Bob.
Lang e Sandra trocaram olhares.
 Acho que escolhemos uma noite ruim para a visita.
 No temos mais noites boas  resmungou Bob, reparando a seguir nas lgrimas que escorriam dos grandes olhos de Teresa. Passou um brao pelos ombros dela.  No chores. Todo est bien.
 Tudo no est bem  discordou Lang.  E ela tem o direito de ficar triste, pois est a ponto de desmanchar o casamento de vocs. Por que no age como um homem casado e vai consolar a sua mulher, em lugar de consolar a governanta? Ser que ela tem razo, Bob?
O rosto do irmo tornou-se vermelho como um pimento. Devagar ele retirou o brao dos ombros de Teresa, e voltou-se para Lang.
 No preciso que voc venha me dar conselhos sobre como conduzir meu casamento!
 No mesmo?  perguntou Lang, olhando por sobre o ombro de Bob.
Connie vinha descendo as escadas trazendo Mikey por uma das mos, e carregando uma mala na outra.
 Onde vamos, mame?  quis saber o menino, com voz pastosa de sono.
 Para a casa da sua tia  respondeu Connie, olhando para Bob.  Quando voltar ao normal, se  que vai voltar, estarei na casa de Louise.
 E quanto  sua preciosa oficina l atrs?  
 Coloque a placa de fechado na porta. Sabe escrever, no sabe?  perguntou ela, com ironia.  Enquanto isso, Tod Steele tem vaga para mecnico na oficina dele, e tenho certeza que me contrata na mesma hora.
Bob arregalou os olhos.
-No vou permitir que trabalhe na oficina do seu ex-namorado!
 Por que no? Pretendo conseguir logo o divrcio!
 Connie!
 Mame, porque est gritando com o papai?  quis saber Mikey, ainda sem entender o que acontecia.
 Porque ele no est escutando direito, meu bem. Ele no consegue entender uma frase simples como: despea a moa.
 No pode me dizer a quem devo despedir em minha prpria casa.
 Pensei que tambm fosse minha, e de Mikey  respondeu Connie.  Mas agora acho que  de Teresa.
 Mas ela  s a governanta  disse Bob, como se s ento atinasse com o que estava a ponto de acontecer em sua vida.
 Mas voc no trata a moa como governanta  retrucou ela.
 E voc no me trata como marido.
Connie ignorou a acusao e dirigiu-se ao filho.
 Diga boa noite para todos.
 Boa noite.
Ela sorriu, desculpando-se com o casal visitante e dirigiu-se para a porta com Mikey. Pouco depois, um motor foi ligado no quintal, depois o carro dela contornava o de Lang e ganhava a rua.
Bob estava lvido, os olhos semicerrados.
 Connie no  mais minha mulher  desabafou ele, subitamente.   s o mecnico residente! No tem tempo para nada, a no ser para o maldito trabalho. Mikey e eu somos apenas acidentes de percurso na vida dela, perceberam? Ela no tem a menor vocao para esposa e me, s quer a carreira. Muito bem. Que seja assim. Colaborei, ajudei a montar a oficina em casa, mas simplesmente no adiantou.
Sandra olhou disfaradamente para Lang. Horrorizada, compreendeu que poderia estar em frente a uma cpia do noivo dali a alguns anos, s que na situao contrria. Ser que ele s teria tempo para trabalhar, deixando a famlia de lado, como um acidente de percurso?
Lang tambm fazia suas comparaes. Sandra tambm idolatrava sua carreira.  
Ser que iria repetir o procedimento de Connie, aplicando o tempo de forma egosta? Devia existir um ponto de equilbrio, se ambos se amassem o suficiente. Ali, bem na frente dos olhos, presenciavam uma das maiores fontes de problemas nos casamentos. O desmontar do relacionamento de Bob e Connie mostrava os perigos de uma vida em conjunto, e at que ponto podiam chegar duas pessoas, apesar de se amarem. Se antes tinha preveno contra o casamento, agora era muito pior.
 Esto vendo em que pode se transformar a vida de casado?  perguntou Bob, como se lesse os pensamentos do irmo.  Ela me disse que queria marido e famlia, quando na verdade queria uma oficina. Talvez na poca nem ela soubesse. Acho que seria bom conversarem bastante sobre o que pretendem, para evitar essas cenas.
 Voc j disse a Connie como se sente?  quis saber Sandra, hesitante.
 At ficar roxo de tanto falar, tentando explicar o meu modo de ver as coisas. Mas o que Connie quer, Connie faz  disse Bob, virando o rosto para Teresa, que vinha silenciosamente da cozinha.  Voc tambm vai embora?
Em espanhol, ela explicou que desejava ir para a casa do irmo, em San Antonio. Perguntou se Lang e Sandra poderiam lhe dar uma carona. O casal concordou, contente em colaborar na eliminao do problema.
 Lo sinto. No fiques furioso a mi por favor  sussurrou ela para Bob.
 No estou bravo com voc, Teresa  respondeu ele, olhando-a com uma intensidade que no deixava dvidas.
Ela sorriu e despediu-se.
 Eu ligo amanh, Bob  declarou Lang.
 Desculpem pela situao  disse Bob.  Procurem no me culpar muito...
Lang avanou e abraou o irmo.
 Voc  meu irmo, cara. S quero ver voc feliz.  
 
  






CAPTULO IX

Lang e Sandra desviaram-se um pouco do caminho para deixar Teresa nos arrabaldes de San Antonio. Como a vizinhana no lhes pareceu muito segura, levaram-na at a porta da casa. Lang tocou a campanhia, que foi atendida pela cunhada, uma mexicana gorda, de avental. Perante a expresso de preocupao exibida, ele tranqilizou a boa senhora, que chamou o marido. Foi para o irmo de Teresa que Lang explicou que a patroa dela precisou passar a noite fora, e acharam que no ficaria bem se ela passasse a noite sozinha com o patro. O homem agradeceu a preocupao e ofereceu uma tequila, sorrindo.
Lang voltou para o carro sentindo-se melhor.
 Ela tem uma bela famlia  comentou ao entrar no carro.
 Seu irmo parece caidinho por Teresa. Sinto pena de Connie, porque acho que Bob no vai conseguir resistir a ela.  respondeu Sandra.
 No esteja to certa disso.
 Voc parece preocupado...
  que acredito no casamento, apesar de tudo. E acho que algumas vezes, as pessoas desistem com muita facilidade.
 Ou s vezes se ligam a pessoas que no tm futuro... observou Sandra.
Ele olhou para ela, procurando alguma indicao de que Sandra se referisse a ele.
 Connie no devia ter se casado, essa  que  a verdade. Devia ter aberto a oficina, e s depois de estabelecida  que podia pensar em ter famlia.
 Concordo.
 Sabe o que andei pensando, Sandra? Eu acho que voc no quer casar logo. Primeiro quer firmar sua carreira  afirmou Lang, sem rodeios.  Estou certo?
Sandra sentiu a pulsao aumentar. Ser que ele insinuava que ela preferia dar ateno  prpria carreira do que cuidar de um lar para ele e seu filho? Ou era apenas como ele gostaria que as coisas fossem? Sentiu um reflexo do passado naquele instante; uma sensao de j ter vivido aquele momento. Ser que ele procurava um motivo para desmanchar o noivado?
Ela reparou que estava torcendo os dedos sobre o colo, indicando sua tormenta interior. Controlou-se.  
 Acho que algumas mulheres no nasceram para serem mes  disse por fim.  Connie ama Mikey, mas nunca foi do tipo maternal, carinhosa.
 S que  um pouco tarde para descobrir isso  opinou Lang.
 Talvez ela mesma no soubesse disso.
Ele no respondeu. Estava levando o assunto realmente a srio.
 E alguns homens no tm vocao para ser pais tambm.
  verdade  comentou Lang, com voz gelada.
 Voc comea a suar toda vez que algum menciona esse assunto, sabia? Todos percebem, menos voc.
  que filhos significam laos permanentes  disse ele, crispando as mos no volante.
  exatamente nesse ponto que quero chegar, Lang. Voc est to pronto quanto Connie estava para ter filhos!
 Nem voc est! Est interessada em sua carreira.
 Claro que estou. Todos querem deixar sua marca no mundo, de todas as formas possveis. Mas acho perfeitamente possvel conciliar uma carreira com a educao dos filhos. As pessoas fazem isso o tempo todo...
 Do mesmo jeito que Connie? -= perguntou ele, com certa ironia.
 Connie est com problemas. E no comearam agora. Se entendi direito, ela faz o que quer em vez de discutir as coisas.  preciso um bocado de entendimento para ir tocando o trabalho e a famlia.
 Ir tocando?
Sandra ficou surpresa com a raiva contida na voz dele. Isso fez com que se controlasse e procurasse motivos. Sabia que os dois irmos haviam perdido a me quando eram pouco mais velho do que Mikei, agora, mas Lang jamais falava dela. O pai os criara, e morrera na poca em que conhecera Lang. Talvez o motivo da raiva estivesse relacionado com o que ela desconhecia.
 Lang, voc nunca me falou sobre sua me.
 Nunca falo sobre minha me com ningum!
 Nem comigo?  indagou ela, chocada com a veemncia da afirmao.
 O que quer saber sobre ela afinal?
 Como ela era?  quis saber Sandra, depois de hesitar um instante.
 Era dedicada ao trabalho  disse sem rodeios.  Era uma dessas mulheres que nunca deveriam ter se casado. No tinha tempo para o Bob nem para mim....  
 ...Estava ocupada voando de um lugar para o outro do pas, realizando grandes negcios com terras. Um belo dia ela forou a barra quando alugou um avio que estava indo para a manuteno. Disse que no podia esperar, iria perder um bom negcio. O avio caiu, e acho que enterramos a maior parte dos pedaos que sobraram.
 Lang! Desculpe, no tive inteno. Sinto muito.
 Pois ns no sentimos. Nunca chegamos a gostar dela de verdade. No tivemos tempo. E ela no gostava de ns, tambm. Sempre que discutia com meu pai, no perdia a oportunidade de dizer que no queria filhos, e que s tinha concordado porque ele insistira muito. Fazia questo de no lembrar de ns. Nunca recebamos presentes de aniversrio porque ela esquecia o dia. No natal era a mesma coisa. Lembro de uma vez, que fiz na escola um cinzeiro de argila, e pintei com as cores que ela mais gostava. Um dia encontrei no lixo.
Porque ser que ele nunca me contou isso? Pensou Sandra. Na verdade, Lang nunca partilhara suas emoes mais profundas com ela. Em todos os anos que se conheciam, nunca escutara histrias de infncia, ou da poca em que ele era garoto. At aquela noite.
Pela primeira vez pode entender os motivos da relutncia dele em casar.
 Voc tem medo que acontea o mesmo conosco  exclamou ela, compreendendo tudo.  Tem medo que eu seja igual  sua me.
Antes de responder, ele olhou pelo retrovisor.
 E no vai ser, Sandra?  o tom era cnico.  Estamos na era das famlias separadas. Sei tudo sobre isso. Sou o produto direto de uma delas, mesmo que meus pais estivessem na poca casados legalmente. Quer escutar algumas histrias de terror com uma criana de menos de seis anos?
 Posso imaginar como tenha sido  disse Sandra, os olhos suaves postos nele.  O mundo  muito diferente hoje em dia. Estilos de vida so criados e postos de lado, do dia para a noite. O que costumava ser normal e seguro para se fazer, agora no  mais. A verdade  que no podemos voltar ao passado, Lang. S podemos fazer com que o passado volte at ns....  
 ...Atualmente  muito mais difcil uma pessoa s ganhar o suficiente para manter uma famlia, e por isso as mulheres trabalham. Se casssemos, ainda assim eu precisaria trabalhar.
Ele no gostou nem um pouco de ouvir aquilo principalmente porque sentia que era verdade. No se podia dar um padro de vida decente aos filhos apenas com um salrio, mesmo que fosse bom. Alm do mais, sempre existia o perigo de perder o emprego, e se Sandra trabalhasse, poderia cobrir uma eventual falta do marido.
 Uma mulher independente no  uma coisa necessariamente ruim  murmurou Sandra.
 No caso da minha me, foi.
A essa altura, chegavam ao estacionamento do prdio onde moravam, e ele permaneceu em silncio, observando os arredores. Velhas lembranas o assombravam. Lang no gostava de lembrar da me e da devoo frrea que ela dedicara ao trabalho. Seu pai trabalhava como operrio, e no conseguia fazer muito dinheiro nas longas horas que passava em seu estafante ganha-po, e nunca estava em casa quando os meninos chegavam.
A me poderia ter tido tempo para eles se tivesse se proposto a isso. Trabalhava a maior parte do tempo como autnoma e fazia o prprio horrio. Porm nunca estava em casa, sempre viajava a procura de novos contatos. Quando estava em casa, esperava que os filhos cumprissem as tarefas domsticas, pois se dizia cansada demais.
O pai fizera o possvel para acomodar a situao, e uma das coisas que criou rancor entre os dois, era a maneira como ela se aproveitava disso usando-o. Quando ela morreu no desastre de avio, o padro de vida da famlia caiu vertiginosamente. Mas Lang no reclamou. Nem Bob. O pai tentara explicar a eles certa vez, que da maneira dela a me os tinha amado. Porm, ela no queria casar-se, e s realizaram a cerimnia por causa dos pais. Naquela poca, as moas que freqentavam a igreja da pequena cidadezinha do interior do Texas no podiam ter filhos antes do casamento.  
 Meus pais foram obrigados a casar-se  resmungou Lang ainda mergulhado no passado.
 Sinto muito.
Ele desligou o motor.
 Por que voc estava sentindo arrepios?  perguntou Lang de repente.  Ser que Connie no acertou sem querer?
 Esqueceu que usamos preservativo?
 Nada  totalmente seguro  comentou ele.  Responda!
 Eu no posso dizer o que no sei, Lang.  cedo demais para sabermos com certeza.
Lang passou a mo no prprio cabelo, esticando-se em seu banco.
 No quero que fique grvida Sandra.
Ela sentiu o corpo enrijecer. Fora brutalmente claro desta vez.
 Voc no pode perdoar sua me, e quer me castigar pelos pecados dela?  isso?
Ele pareceu intrigado.
 No tem nada a ver com minha me, Sandra.
 Claro que no  disse ela, desistindo e saindo do carro.
Sentia o corpo tremer, e tinha a autoconfiana profundamente abalada.
Lang saiu trancou o carro e seguiu-a porta adentro, at o elevador. Enfiou as mos nos bolsos e no disse nada at chegarem ao quarto andar. Quando as portas se abriram, ele falou.
 No vamos exagerar as coisas, Sandra.
Ela no se dignou a olhar para ele, continuando at a porta do prprio apartamento.
 Lorna disse que voc no queria mais morar aqui, e voc negou uma vez.  verdade?
Lang estudou-lhe o rosto, enquanto recordava a ameaa que a outra fizera. Lorna era vingativa, e ele tinha certeza que no estava blefando.
 O que acontece se voc perder o emprego, Sandra?
 Encontro outro  respondeu ela, sem hesitar.  Eu tenho certa capacidade de trabalho, sabia? E no desanimo com facilidade.
 se voc sasse em meio a alguma coisa desagradvel, talvez seja difcil arranjar um emprego to bom.
 Que histria  essa? No pretendo ser despedida. Lorna pode no gostar de mim, mas Mack conhece minha capacidade de trabalho, e gosta do que fao. Ele pode limpar minha barra com os Lancaster  afirmou Sandra.  Afinal, no fiz nada de to grave assim.
Ele continuou preocupado, sem fazer muita fora para esconder. Os olhos negros procuraram os dela.  
 Sandra no sabia da ameaa de Lorna, e ele no tinha coragem de contar.
 Tem certeza que no vai haver gravidez  indagou ele, num tom srio.
 Quer parar de me atazanar por causa do comentrio de Connie? Eu no estou grvida, Lang. Voc usou camisinha, lembra?
Ele riu, convencido do exagero de suas preocupaes.
 Se tem tanta certeza, podemos deixar o noivado ir morrendo aos poucos...  sugeriu Lang.
 Isso provavelmente  o que Lorna quer, certo?
  o que ela quer  admitiu ele, com relutncia, sem explicar os motivos.
Ela olhou intensamente para o rosto dele, como que a despedir-se.
 Pois ento d a ela o que ela quer  respondeu ela.  No pretendo sacrificar meu futuro pela sua conscincia. O nico motivo de estarmos noivos foi a sua conscincia pesada por dormir comigo, uma virgem.  um pssimo motivo para casar-se com algum, especialmente se existe a possibilidade de certas... conseqncias.
As mulheres devem saber quando esto grvidas, raciocinou Lang. Pelo menos ela parecia confiante. No momento, o ideal seria tirar Lorna de cena antes que ela pudesse prejudicar Sandra, j que a carreira dela era to importante. Tinha de convencer Lorna que vencera a parada. Seria o melhor.
 Pois ento vamos considerar o noivado terminado agora mesmo, se  o que voc quer.
  o que voc quer  lembrou ela, com um sorriso sofrido.  No consegue se libertar do passado, no ? Eu nunca soube porque voc no queria compromisso. Voc nunca me contou nada sobre sua vida, portanto nem me passou pela cabea o motivo real. Voc me desejou, s isso.
Ele no chegou a negar, e seu rosto permaneceu impenetrvel. Permaneceu em silencio, at ela voltar-se.
 Foi o que pensei  murmurou Sandra, girando a chave na fechadura.
Lang ficou olhando para ela, estudando-lhe a expresso para saber at que ponto Sandra ficara abalada. Senmtia-se culpado, de alguma forma.
 Pretendo ficar por perto  disse, por fim.  No relaxe a guarda em relao a Erikson....  
-...Se voc preferir no ter mais aulas comigo, posso indicar um de meus alunos mais avanados para trabalhar com voc. Seria uma pena parar agora.
 Como voc quiser  concordou ela, ausente.
 Talvez voc tenha razo ao dizer que vivo no passado. Mas a verdade a meu respeito  que no quero filhos, e no aceito meio casamento. Desculpe, mas sexo no  o bastante.
Ela sentiu que seu rosto empalidecera, mas sorriu como uma enfermeira no cumprimento do dever.
 Tambm acho que no  o bastante. At logo, Lang. A gente se v por a.
Ele cumprimentou com a cabea. No se sentia em condies de falar.
A porta foi fechada, e ele permaneceu ali, olhando para a madeira, a sentir o corao pulsando forte e os sentidos embotados.
Sandra ficou a maior parte da noite, pensando nos acontecimentos do dia, e principalmente nas revelaes noturnas. Havia uma certa incongruncia num homem que afirmava o sexo no ser o bastante, e na forma suave e delicada de fazer amor na manh do mesmo dia. Ali mesmo, o que acontecera entre eles fora mais que simples luxuria. Porm ele no sabia disso, ou no queria admitir. E ficara esquisito da ltima vez que mencionara Lorna. A opinio de Sandra  que acontecia alguma coisa que ela no sabia. Talvez algo relacionado com o trabalho, com o seu trabalho. Por que ele insistira em saber o que ela faria, no caso de perder o emprego? Estaria a ponto de ser despedida? O que ele poderia ter a ver com isso?
Recordando-se das conversas que tiveram, reparou que a sugesto profissional para tornar-se autnoma e vender a campanha em outra firma partira dele. Justo de algum que no gostava de se arriscar. Poderia ter sido de propsito
Tomou a resoluo de acordar com nova disposio no dia seguinte, e resolver as coisas. No pretendia ficar por a esperando para receber um chute. Tinha boas idias, e confiava nelas; Lorna podia no ter gostado, mas haveria algum que apreciaria. Depois de planejar tudo, adormeceu.  
 

  No dia seguinte, colocou em prtica seus planos, depois de uma ida tranqila para o trabalho. Pediu a Mack que no dissesse nada aos Lancaster ainda. Ele concordou, pois percebera as provocaes de Lorna durante o almoo, e no gostava nada de ter sido praticamente forado a aceitar a conta.
Sandra fez uma visita  Reflections Inc. na hora do almoo. Tratava-se de uma nova firma de relaes pblicas, cujo dono, um homem magro e de aparncia agressiva, recebeu-a no escritrio. Escutou com interesse as idias dela, contratando-a na mesma hora. Ofereceu ainda uma percentagem de lucros e um salrio para que ela supervisionasse a implantao da campanha. Discutiram a maior parte dos detalhes com entusiasmo, de forma que Sandra voltou para sua firma pisando em nuvens de felicidade.
Casar com Lang provavelmente a deixaria duas vezes mais contente, porm no momento tinha de contentar-se com o novo emprego, e extrair dali sua felicidade. No iria permitir-se ficar pensando nele.
Quando o expediente chegou ao final, mais tarde do que ela planejara, os afazeres do dia tinham feito com que esquecesse completamente de Erikson. Sua mente concentrava-se no novo trabalho, e na sensao deliciosa que teria quando sasse de seu escritrio pela ltima vez. Seu nico arrependimento era deixar Mack, cujas idias no estavam agradando Lorna. Ela descontava nele a maior parte das frustraes, de forma to clara que todos no escritrio escutavam.
 Por enquanto vou colaborar  comentou ele com Sandra  quando ela se cansar, vai procurar uma outra agncia qualquer. Quem vai sair perdendo vo ser os Lancaster, no eu.
Sandra concordou, e no pode evitar um certo prazer sdico com o pensamento de que a sra. Lancaster ainda no aprendera a separar amizade e negcios. Permitindo que Lorna a manipulasse, perdeu outros bons negcios, e uma empregada com grande capacidade de trabalho, que poderia ter trazido mais dinheiro para a empresa.  
 Sandra caminhava, pensando nos mercados que poderia trazer para a nova firma, quando percebeu que j escurecera, e ela estava sozinha no estacionamento.
Podia enxergar perfeitamente seu carro, e a rea encontrava-se bem iluminada. Examinou os arredores, mas no havia nenhum outro carro  vista. Disse a si mesma que se continuasse daquela maneira iria tornar-se paranica. No avistara Erikson o dia inteiro; era improvvel que estivesse esperando por ela naquela noite.
Ajeitou o chaveiro na mo, de forma a tornar-se contundente se precisasse dar um soco. Caminhou com rapidez, os olhos examinando os arredores. Chegou ao lado da porta, e antes de enfiar a chave na fechadura deu uma olhada no banco traseiro. Ningum ali. Abriu com presteza a fechadura, entrou e travou a porta. So e salva!
No interior do carro no havia nada suspeito, de forma que deu a partida e engrenou. Nem sinal de Erikson. Preocupara-se  toa.
Saiu do estacionamento e juntou-se  corrente de trnsito. No trajeto para seu apartamento, considerou o dia bastante lucrativo. Imaginou como teria sido o dia de Lang, e se Bob e Connie haviam resolvido suas diferenas. Seria triste para o pequeno Mikey se os pais se divorciassem. Sentiu pena de todos, por acreditarem estar agindo corretamente, e acima de tudo, sentiu pena de Lang e de si mesma.
Ao estacionar em seu prdio, observou as redondezas antes de desligar o motor. No havia ningum por perto, e ela relaxou. Assegurou a si mesma que no havia nada a temer. Ele iria desistir, depois da queixa que fizera sobre a granada. Ao menor sinal de atitude suspeita, ele poderia ser preso. Sandra sorriu, sentindo-se melhor do que nunca.
Apanhou a bolsa e trancou o carro, depois aconchegou a gola do casaco para proteger-se do frio noturno. caminhou para o interior do prdio, e entrou no elevador com outros moradores, que a cumprimentaram com um gesto de cabea.  
Em seu andar, desceu e caminhou pelo corredor, imaginando se Lang estaria em casa. Por um instante, ficou olhando para a porta do apartamento dele, como se fosse capaz de enxergar atravs da madeira. Hesitou um instante, porm ele deixara bem claros seus sentimentos; ela no fazia mais parte da vida dele. Talvez at j tivesse mudado, quela altura. Teria de aprender a viver sem Lang por perto.
Abriu a porta do prprio apartamento, sem reparar que havia apenas uma volta na fechadura, ao contrrio de seu hbito. Trancou-a assim que entrou, com duas voltas na chave. Acendeu a luz e encaminhou-se para o quarto, a fim de trocar de roupa.
Assim que passou pela porta entreaberta, foi agarrada por um brao, que passou ao redor de seu pescoo. A presso aumentou at machuc-la.
 Oi gostosa  cumprimentou uma voz rouca e familiar.  Pensou que eu tinha esquecido de voc?
Ela tentou emitir sons, mas o aperto na garganta e o susto no a deixaram falar.
 Estava com saudades, no ? Mas no esqueci de voc, no. Agora chegou a hora do acerto de contas. Vamos nos divertir um pouco, loirinha...
o corao disparado, Sandra estava a ponto de entrar em pnico. As pernas tremiam de susto e de medo; a qualquer momento seria muito difcil respirar, tal a presso dos dedos na garganta. Pensou que precisava manter a calma. Se entrasse em pnico, ficaria nas mos dele.
 Erikson voc vai para a cadeia  balbuciou ela, sentindo a boca seca.
 Acha mesmo? Pois eu digo que vai ser a minha palavra contra as sua. Ningum vai acreditar em voc  declarou ele, passando com fora a mo sobre os seios dela.  Voc  muito gostosa, sabia? Esses peitos devem ser uma delcia...
 agora ou nunca, pensou ela. O desespero ajudou-a a aplicar todas as foras quando impulsionou o cotovelo para trs, exatamente  altura do diafragma de Erikson.
O flego expelido e o afrouxamento da presso das mos mostraram a ela que o golpe surtira efeito.  
 
  Sandra, agindo por instinto, girou o corpo, segundo os movimentos que treinara exaustivamente com Lang. Frente a frente, levantou o joelho num golpe seco e eficiente, dirigido  virilha dele. No mesmo movimento, desequilibrou Erikson com um movimento de brao, precipitando-o ao cho.
Saia daqui, gritou uma voz interior, no banque a herona. Obedecendo, Sandra correu para a porta da frente, onde felizmente a chave continuava enfiada na fechadura. A porta foi aberta com rapidez, e ela ganhou o corredor, que estava deserto. Esmurrou a porta de Lang, gritando por socorro, porm nenhum som se ouvia no interior. Nesse momento, escutou sons no prprio apartamento. Com certeza Erikson se recuperava, e vinha em busca dela, cheio de raiva e de cautela.
Correu, quase em pnico, para o elevador, socando o boto repetidas vezes, sem resultado. Olhou para a escadaria, recordando o aviso de Lang. Porm no tinha alternativa. Era sua nica sada.
Sem hesitar, correu para as escadas, voando pelos degraus abaixo sem muito cuidado, at que um toro no tornozelo  fez voltar a realidade. Depois disso, a dor e o flego obrigavam-na a prestar ateno a cada passo. Continuou numa sucesso de pequenos sacrifcios, at que a exploso de luz do saguo do andar trreo ofuscou-lhe os olhos e um soluo escapou-lhe da garganta.
O segurana franziu a sobrancelha ao deparar com Sandra, e a socorreu na mesma hora, uma das mos na arma que levava  cintura.
 Est bem, srta. Campbell? O que aconteceu?
 Um homem...no meu apartamento  disse ela, ofegante.  Ele... me atacou.
O rosto do guarda ficou srio. Levou-a para o apartamento do zelador, e entregou-a aos cuidados da esposa dele, que foi preparar uma xcara de ch. O segurana subiu a escada, a arma em punho.
Sandra sabia que ele no encontraria ningum; Erikson era experiente demais para deixar-se apanhar. Deveria ter fugido h muito tempo, e desta vez estaria  espera dela, disposto a tudo. Ela ofendera profundamente o orgulho masculino e profissional dele.  
 A partir da no seria mais um jogo. Sabia que Erikson viria atrs dela para mat-la.
O medo provocou nsias incontrolveis, e a esposa do zelador levou-a para o banheiro, s pressas. Depois de vomitar, Sandra lavou o rosto e sentiu-se melhor. Observou-se no espelho, reparando em sua palidez, e esfregando o rosto. Ao retornar para o pequeno escritrio, o segurana a esperava, ostentando uma expresso desanimada.
 Eu sabia que ele j teria fugido  murmurou ela.  Mas est machucado.
 Ele fugiu pela escada de incndio  informou o homem.  Algum deve ter visto o sujeito. Ningum pode fazer esse tipo de coisa no meu prdio, e se sair bem. Existe algum lugar onde possa ficar esta noite, srta. Campbell? No gosto de imaginar a senhorita l sozinha l em cima.
Ela riu amargamente. Antes daquele dia no lhe ocorrera que apenas possua amizades superficiais, a exemplo de Betty. No tinha famlia no pas, e Deus sabia onde estava sal me. Em resumo, no havia ningum a quem pudesse pedir abrigo por uma noite.
 No. No tenho ningum...  desabafou ela, desatando a soluar.
O homem pareceu compadecido, e ao mesmo tempo srio e pensativo. Depois de alguns instantes, declarou:
 Vamos ter de chamar a polcia.
Sandra no teve foras para protestar. Faria qualquer coisa, desde que no precisasse mover-se. A reao e as fugas pareciam ter drenado todas as reservas de energia.
Em poucos minutos escutaram a sirene do carro patrulha. Enquanto refazia as foras com um ch e torradas, trazidos pela esposa do zelador, ela descreveu o ocorrido daquela noite, depois explicou a situao, desde sua origem na firma onde trabalhava, at as aulas com Lang.
 Vamos pegar o safado  garantiu um dos policiais, um jovem negro entusiasmado.  No deve estar longe ainda.
 Foi uma sorte a senhorita conhecer defesa pessoal  comentou o outro policial, um polons bonacho.  Eu mesmo ensinei minha filha quando ela ainda era criana.  muito til, hoje em dia, com as ruas do jeito que esto.  
 Foi mesmo uma sorte...  concordou Sandra, um tanto orgulhosa de sua ao.
O segurana desligou o telefone e aproximou-se.
 Com licena, srta. Campbell... telefonei para um dos companheiros do turno diurno. Ele vem para c agora mesmo, e vai passar a noite ao lado de fora do seu apartamento. No precisa mais se preocupar.
Ela sentiu lgrimas escorrendo pelo rosto.
 Muito obrigada. Voc foi to bom...
o homem ficou embaraado com os agradecimentos.
 A senhorita  moradora do prdio. No podemos permitir que bandidos fiquem perturbando os moradores. Esse  meu trabalho. No precisa chorar, senhorita. J passou...

A pequena multido no saguo despertou a ateno de Lang assim que ele passou pela porta. Trabalhara te mais tarde, e depois ainda precisara cuidar de um alarme contra furto, que disparara. Chegava cansado e com raiva do que ele mesmo fizera a Sandra. Mas no podia deixar que Lorna ameaasse a carreira dela. Num encontro tempestuoso, dissera isso a Lorna, acrescentando que se ela contasse alguma coisa aos Lancaster, ele tambm teria uma conversinha com eles, sobre a vida sexual da prpria Lorna.
Ela esperava tudo, menos aquilo. Seu rosto empalidecera, e ela resmungara por um bom tempo, com argumentos desconexos e tentativas de mudar o assunto em discusso. Acabara desistindo, afirmando que existiam outros homens na vida dela, e ela no precisava ficar revivendo casos passados para manter-se aquecida  noite. No queria mais saber de Lang.
Sentiu pena dela; mas no o suficiente para voltar atrs. Julgava-se culpado pela maneira como tratara Sandra, e isso o levara a avaliar a proposta de casamento. De fato, sabia que suas reaes eram exageradas por causa do relacionamento com a me, e nisso Sandra tinha razo. Imaginara que deveria conceder isso a ela, pelo menos, e vinha disposto a conversar. Sem segredos. Tentariam resolver juntos os problemas que encontrassem.  
Porm a movimentao no saguo e no escritrio do zelador o distraram. Caminhou naquela direo, e sentiu o ar faltar quando identificou Sandra, plida, com as roupas em desalinho. Erikson voltara!
Empurrando as pessoas, inclusive os policiais, Lang abriu caminho at ela. Sem dizer uma palavra, abraou-a, permanecendo assim, no meio da multido, como se existissem apenas os dois.
 Voc est bem?  perguntou ele, num sussurro.
 Erikson... estava me esperando, dentro do meu apartamento!  respondeu Sandra, estremecendo com a lembrana.  Consegui usar dois golpes que me ensinou, e ele caiu no cho. Fugi pela escada, e agora eles esto atrs do Erikson.
Lang levantou-lhe a cabea e fitou-a nos olhos. Percebeu que ela agentara bem a situao, mas havia medo no olhar.
 Filho de uma cadela!  resmungou, entre dentes.
 Estamos colocando um homem  porta do apartamento dela  anunciou o segurana.
 Deixe para l. Vou levar a srta. Campbell para a casa do meu irmo e da minha cunhada. L ela vai ficar segura  atalhou Lang.
 Seria mesmo melhor  concordou o policial polons.  Ns vamos pegar esse meliante,  s uma questo de tempo. Mas enquanto isso,  bom ela ficar num lugar onde no possa ser encontrada.
 Vou tomar conta dela  anunciou ele, passando um brao ao redor dos ombros de Sandra e conduzindo-a para fora. Dirigiu-se ao segurana:  Muito Obrigado.
O homem deu de ombros e sorriu. Assim eram as coisas. Uma bela mulher, sem famlia, agora tinha seu cavaleiro andante, agindo de uma forma protetora. Podia ficar tranqilo.  
 
  



CAPTULO X


Lang aguardou que ela trocasse de roupa e arrumasse uma pequena valise, enquanto ele ligava para Bob e explicava o ocorrido ao irmo.
 Pode vir, Connie e Mikey voltaram hoje  disse ele, em voz baixa.
 E Teresa?
 Fui meio bobo com ela. Connie no fala comigo, e quem sabe se voc trouxer Sandra, a situao melhore.
 Vejo voc daqui a pouco. E muito obrigado.
Desligou o telefone. Sentiu-se observado. Olhou para a porta, e deparou com Sandra parada ali, ainda com as roupas amarrotadas.
 Voc no trocou de roupa  observou ele
 No quero entrar a sozinha  disse ela, com um riso sem graa.  Que bobeira, no?
 De jeito nenhum. Acho que voc foi muito corajosa. Estou orgulhoso da minha aluna.
 Pois no me senti nem um pouco corajosa. Vomitei de medo depois...  confessou ela.
 Isso no importa, e  uma coisa natural, nas circunstncias. O que interessa  que teve presena de esprito para agir na hora certa  disse Lang, conduzindo-a para o quarto.
Ambos examinaram o aposento, e ele abaixou-se para espiar embaixo da cama. Depois levantou-se e declarou:
 Tudo limpo. O que deseja vestir madame?
Sandra escolheu uma camiseta e uma cala jeans. Mas antes que pudesse mover-se, ele comeou a despi-la.
Ela levantou os olhos verdes, como uma criana curiosa.
Lang sorriu com ternura.
 Acho que vou acabar gostando disso  declarou ele, retirando com cuidado todas as peas de roupa,  exceo da calcinha e do suti.  Seu corpo  muito bonito, srta. Campbell. Sabia?
 Estou me sentindo fraca.
  mesmo?  indagou ele aproximando-se.
Beijou-a com carinho na boca. As mos deslizaram pelos lados do corpo at a altura dos quadris. Abriram-se, os dedos acariciando o ventre.
 Eu tambm fico fraco quando beijo voc. Meus joelhos tremem.
 Tremem, nada  riu Sandra.
 Como  que sabe? No est olhando para baixo.
Ela suspirou preocupada.
 Ser que escutei voc dizer que Connie voltou a morar com Bob?
 No momento, pelo menos. Ele voltou a ter bom senso.  
 Espero que ela tambm  comentou ela, fitando os olhos desejados com tanta intensidade. Sentiu que as lgrimas iam brotar.  Eu queria...
 O qu?  sussurrou ele.
Sandra retirou as mos de seu corpo.
 Nada  respondeu ela, bruscamente.  No est na hora de irmos?
 Com voc assim?  riu Lang.  Iramos direto para a cadeia por atentado ao pudor.
 Se voc me largar, eu posso me vestir.
 No gosto muito dessa idia  ponderou ele.  Cobrir um corpo to bonito devia ser considerado crime.
Ela corou.
 Lang!
Beijaram-se com lentido ertica, as lnguas sugerindo o que os corpos tinham vontade de fazer.
 Podemos fazer amor antes de ir  disse ele, com a voz entrecortada pelo desejo, as mos pousando nos seios macios.  Quer?
 Mas ns concordamos que no devamos mais...  protestou ela.
 Isso foi antes...
 Antes do qu?
 Antes de descobrir que no me importo em ter um filho com voc.
O corpo de Sandra enrijeceu, e ela afastou o rosto para poder estudar-lhe o interior dos olhos escuros. Encontrou a sinceridade que buscava.
 Pode repetir?
 Voc teria de continuar trabalhando  explicou Lang, tomando-a nos braos e levando-a para cama.  Eu estou ganhando bem, mas acho que dois salrios iriam elevar nosso padro de vida. Alm disso, voc precisa ser auto-suficiente. Podemos procurar uma creche, que os dois aprovem, e posso aprender a trocar fraldas e outras coisas para ajudar.
 Amo voc, Lang. Mais do que tudo na vida  disse ela.
Deitando-a com cuidado sobre o colcho, Lang beijou-a demoradamente e suas mos encontrara o fecho do suti, expondo a pele sensvel e delicada aos carinhos dos dedos e das mos.
 Tambm amo voc  murmurou ele.  O que eu no podia suportar era a idia de formar uma famlia. Eu nem mesmo sabia por que, at que voc me chamou a teno para isso. Eu no sabia que era to afetado assim pela minha infncia. Mas no posso me afastar de voc duas vezes na mesma vida. Acho que vamos ter de nos acostumar um com o outro.  
 Sei que vamos conseguir  afirmou ela, os olhos mergulhados nos dele.  Lang?
 O que foi?
 Pode tirar suas roupas?
Ele riu.
 Quer ficar olhando enquanto eu tiro?
 Quero  admitiu ela, com voz rouca.
 Tarada!  brincou ele, colocando-se de p e comeando a tirar o palet.
Lang demorou-se em cada pea como uma bailarina de inferninho, revelando aos poucos o corpo musculoso, para delcia de sua nica espectadora, que estremecia em antecipao, agora que conhecia os prazeres que aquele corpo podia proporcionar ao seu.
Ele deslizou para o lado dela, tocando-lhe a pele febril.
 No precisamos usar preservativos, se voc no quiser  ofereceu ele.
Sandra parou para examinar os olhos dele.
 Sei que voc no acredita que posso ser boa profissional e me aop mesmo tempo, mas vou provar que est enganado  declarou ela.  Na hora certa. Se vamos mesmo casar, podemos muito bem aproveitar agora, e deixar os filhos para depois do casamento. Alm do mais, hoje em dia a prova de amor est em usar o preservativo. Se quiser, eu coloco...
 Eu adoraria  concordou ele.
Por vrios minutos, os dois entregaram-se a todo tipo de carcias ntimas, que aumentou o erotismo de ambos, levando-os a um estado crescente de excitao. Quando Sandra estava a ponto de perder o controle, resolveram colocar o preservativo. Com dedos trmulos ela ajustou a pea de borracha  rigidez dele, provocando gemidos de prazer. Continuou a acarici-lo para verificar se estava tudo em ordem, mas a urgncia de Lang fez com que abreviasse as caricias. Ele deitou sobre ela e penetrou-a, permanecendo imvel por alguns instantes, apreciando a sensao de estarem ligados.
 Ser que estou sonhando?  sussurrou ele, ao ouvido de Sandra.
 Espero que no  disse ela, envolvendo-o com as pernas e puxando-lhe o corpo. Encostou os lbios  garganta de Lang.  O mundo est tremendo, ou somos ns?
 Acho que tudo est tremendo  riu ele.
 Gosto do jeito que voc faz amor...  
 Ento demonstre outra vez  pediu ele, movendo devagar os quadris.  Me faa gritar.
 Voc consegue gritar?
 Por que no experimenta para saber?  murmurou Lang, aumentando o ritmo.
S chegaram  casa dos Patton trs horas depois.
 Estvamos comeando a ficar preocupados  disse Bob, ao receb-los.  Voc est bem, Sandra?
 Estou tima, obrigada. Um pouco dolorida, mas  normal, nas circunstncias.
 Ela derrubou o atacante  contou Lang, orgulhoso.  Muito obrigado por nos acolher.
 A famlia  para essas ocasies mano. Connie, eles chegaram!
Quando a cunhada entrou, Lang quase no a reconheceu, pois estava maquiada e trajava um vestido cor-de-rosa.
 Connie?
Ela sorriu.
 Sou eu mesma. Fica difcil reconhecer sem a graxa?
 Fica. Mas valeu a pena esperar. Est muito bonita.
Connie adiantou-se e abraou Sandra.
 Est bem, querida?  quis saber, com ar de preocupao.
 Estou tima  confirmou Sandra, com um olhar de adorao para Lang.  Estamos noivos.
 Eu sei, vocs j nos contaram. No se lembra?
Sandra esquecera que eles nem chegaram a saber do rompimento, pois estavam em crise conjugal. Trocou sorrisos com Lang.
 No adianta esperar atitudes sensatas desses dois  comentou Bob, balanando a cabea.  Vamos entrar. Mikey j est na cama. Tomar um caf e comer um pedao de bolo.
 O meu bolo, e no o dela  salientou Connie, olhando para Bob.  Acabei de tirar do forno. Tambm sei cozinhar.
 Meu bem, eu nunca disse que voc no sabia...  comeou o marido.
Connie voltou-se e entrou na casa.
 Ela est assim desde que voltou  reclamou Bob, com tristeza.  Est me tratando como se eu fosse adltero. Eu juro que nunca encostei um dedo em Teresa.
 Voc disse isso a ela?
 Ser que ela escutaria?
 Isso depende. Se voc usar as palavras certas...  opinou Lang, olhando para Sandra, que se dirigia para a cozinha, para conversar com Connie.
 Dessa vez est pensando mesmo em casar, no?  indagou Bob, observando o sorriso do irmo.  
 Estou, sim  disse Lang, enfiando as mos nos bolsos.  Sabe, Bob? Acho que a forma com que fomos criados me afetou mais do que voc. Eu simplesmente no suportava a idia de trazer ao mundo uma criana, porque a pobrezinha podia ser tratada como um estorvo pela me. Como ns...
 No acredito que imaginou que a Sandra seria uma me parecida co a nossa  objetou Bob.  Acho que ela tem o tipo maternal.
 Tinha.  Corrigiu Lang.  Agora ela est desenvolvendo uma mente brilhante voltada para a carreira, e acho muito bom. Ela quer ser me mais tarde. Alm disso,  uma das melhores alunas de carat que j tive. Ela derrubou o sujeito que a agarrou dentro do prprio quarto. Deixou o sujeito estendido...
  mesmo?
 Com uma joelhada na virilha  acrescentou Lang, sem reprimir o sorriso.  Amassou as bolas dele. Se ela no soubesse se virar, o mnimo que teria acontecido seria um estupro. Talvez at o cara a matasse.
 O que ela fez para ele?
 O sujeito era segurana l na firma, e vivia dizendo piadinhas para todas as mulheres. Ela teve a coragem de me contar, quando cheguei. Despedi o sujeito, e ele prometeu se vingar.
 Por que ele ficou tanto tempo no emprego, com essa atitude?  quis saber Bob.
 Acontece que as mulheres ficam quietas por medo ou por timidez. No comeo do sculo, apesar de no gozarem de muita liberdade, pelo menos as mulheres eram tratadas com mais respeito. Hoje em dia voc s vezes fica surpreso com a linguagem que se usa perto das mulheres.
 Voc j esteve perto de Connie quando ela d uma martelada no dedo?
 Certo  sorriu Lang, dando uma palmada no ombro do irmo.
A experincia de Sandra foi o assunto da noite, mas os olhares que ela e Lang trocaram no passaram despercebidos a Bob.
 Acho que vocs ainda no escolheram a data  comentou ele.
 Ser na semana que vem  afirmou Lang, sorrindo perante a surpresa de Sandra.  Isso se voc quiser uma cerimnia simples.
 S quero voc  respondeu ela.  Uma pequena cerimnia no civil ser o suficiente.  
 Foi o que eu e Connie fizemos  comentou Bob, procurando os olhos da esposa.  Costumvamos sentar e ficar conversando horas a fio. ramos amigos muito antes de resolvermos morar juntos. Quando veio o Mikey, foi o comeo de uma vida nova.
O olhar de Connie suavizou-se ao lembrar do nascimento do filho. Olhou para o marido com expresso magoada.
 E voc queria jogar fora dez anos de bom relacionamento por uma garota brincando de casinha...
 Pelo menos ela gostava  respondeu ele, endurecendo a expresso.
 Por enquanto, mas ela  muito jovem. Quando ficar um pouco mais velha, vai perceber que  uma pessoa por inteiro, e no a sombra de um marido. Inventar receitas novas no  o suficiente para algumas mulheres.
 Manter a casa limpa e criar filhos que se sentem amados e protegidos costumava ser suficiente  disse Bob.
 Claro que sim, mas o mundo mudou muito.  to difcil manter a casa com um s salrio... quando comecei a trabalhar e ganhar dinheiro, acho que fiquei tonta com as coisas que conseguimos comprar  declarou Connie, olhando ressabiada para Bob.  Quase perdi minha famlia nesse processo. Resolvi que queria ser mecnica, mas no coloco isso acima do meu amor por voc e Mikey.
Bob permaneceu um instante em silncio, como se examinasse atentamente a caneca de caf que tinha nas mos.
 No quero me acostumar com outra pessoa, a essa altura da minha vida  admitiu, por fim.
 Eu poderia trabalhar para outra pessoa, como empregada...
 Voc pode trabalhar na prpria oficina, no quintal, que deu tanto trabalho para montar. Basta fechar aos sbados e quartas-feiras, que vamos dedicar s atividades da famlia, como os domingos. Enquanto isso, podemos contratar algum para cuidar da casa  sugeriu Bob. Antes que a esposa pudesse objetar, ele acrescentou:  Conheo um rapaz que gosta de cozinhar e no se importa em fazer a limpeza.  o filho da sra. Jones, que est precisando de dinheiro para viajar para a Frana e fazer um daqueles cursos de culinria.
 Mas voc detesta meu trabalho.  
 Eu tinha cimes do seu trabalho  confessou ele, com um sorriso.  Acho que eu e Lang nunca falamos sobre como fomos criados. Nossa famlia era muito diferente do normal, e s agora temos a chance de aprender o que  casamento.
O rosto de Connie expressou tanta alegria, que Bob alargou o sorriso.
 No  to ruim assim, ter um mecnico na famlia. Meu carro no tem andado muito bem.
  s trazer que eu conserto...
Sandra sentiu a mo de Lang sobre a dela. Os dois encararam-se, o sentimento passando como uma corrente eltrica.
 Onde vo morar depois de casados?  perguntou Bob, quebrando o encanto.
 Gosto muito da segurana no prdio onde estamos  declarou Lang.  No meu apartamento ou no dela, tanto faz. Qualquer lugar.
 Por mim, tambm. Qualquer lugar.
 Pelo menos at os filhos chegarem. Depois disso, o mais adequado seria uma casa. Com quintal grande, para podermos ter um cachorro.
Os olhos de Sandra lacrimejavam.
 Vai continuar trabalhando na Lancaster? Quis saber Connie.
 Ah, isso me lembra uma coisa...  comeou Sandra, contando a Lang e ao casal o que fizera naquele dia, a forma como obtivera o novo emprego na Reflections.
Lang deu uma gargalhada de alvio.
 E eu pensei que voc no estava prestando ateno quando dei a sugesto.
 Eu andei ouvindo coisas por l, e Mack me contou que Lorna j est ameaando retirar a conta. A sra. Lancaster vai se arrepender um bocado. Em dlares.
 Isso no me surpreende nem um pouco. Eu me sinto um pouco responsvel pelos aborrecimentos que Lorna causou. Espero que tenha acreditado quando disse que no tive nada com ela.
 Claro  murmurou Sandra, perdida na contemplao do rosto dele, que expunha as emoes.
 O que a policia vai fazer com o atacante quando o pegarem?  indagou Connie.  Ser que vo conseguir provas suficientes para ment-lo na cadeia?
 Espero que sim  respondeu Lang, lembrando-se de todas as vezes que Erikson e outros como ele conseguiram escapar impunes.
Sandra pensava no mesmo assunto, um pouco alm.  
 Tinha vises de um julgamento demorado, incluindo despesas com advogados.
 No se preocupe. Vamos conseguir ultrapassar tudo isso  afirmou ele, beijando a testa da noiva.  juntos. Voc vai ver.

Passaram a noite ali, separando-se com relutncia quando Sandra recolheu-se ao quarto de hspedes, e Lang acomodou-se no sof. Nenhum dos dois queria gastar dormindo o tempo que poderia estar ao lado do outro. Mal do dia despertou, ele levantou-se e foi busc-la no quarto. Permaneceram abraados at a hora de levantar, cochilando no sof.
Assim foram encontrados pelos sorrisos indulgentes de Bob e Connie, que levantaram cedo e os observavam, embevecidos.
 Lembra como era gostoso? Quando a gente se adorava tanto que no podia suportar a idia de ficar separados, mesmo por algumas horas?  comentou Bob, em voz baixa.
 Claro que lembro  respondeu Connie, com um beijo na boca do marido.  Foi por isso que voltei para casa. Ainda me sinto assim.
 Eu tambm  disse ele abraando-a.  Estou contente por termos acordado a tempo de salvar tudo, Connie.
 O casamento implica em direitos e obrigaes, se for para durar. Principalmente por Mikey. Estou contente por conseguirmos ultrapassar essa crise. Com bom senso.
 Depois do que aconteceu ontem  noite, no sei mais se tenho bom senso  sussurrou ele, com um olhar malicioso.  Foi voc mesmo que fez todas aquelas coisas, ou sonhei?
 Que coisas?  fez ela, com ar inocente, mas incapaz de cobrir o rubor que tomou conta do rosto.
O casal no sof remexeu-se, e ambos abriram os olhos, piscando com surpresa. Lang sorriu e espreguiou-se, passando um brao ao redor da noiva, que olhava para os anfitries.
 Posso garantir que no  o que parece...  comeou Lang.
 Pois para mim parece um casal apaixonado  interrompeu Connie.  Como , vamos ficar aqui conversando de estmago vazio, ou vamos tomar o caf da manh?
Depois da refeio, Lang e Sandra partiram para San Antonio, ansiosos para saber das novidades sobre Erikson.  
 
 Pararam na delegacia, onde foram atendidos por um tenente. Ambos ficaram chocados com o quer ele tinha a dizer.
 De uma certa forma foi trgico  comentou o policial.  Ele estava fugindo em alta velocidade de dois de nossos carros patrulha, e perdeu a direo. Foi na ponte, e o carro arrebentou a amurada e caiu direto. Encontramos o corpo algumas horas atrs, com a luz do dia. Tentei telefonar para vocs, mas no obtive resposta.
 A gente ficou na casa de meu irmo, em Floresville  explicou Lang.  Tivemos uma semana cheia.
 , ns tambm. Esse no foi o nico caso de perseguio que tivemos nos ltimos meses. Conversei com um dos vereadores sobre o assunto, e ele est disposto a elaborar uma lei para nos dar maior autonomia. Alis, ele disse que gostaria de conversar com a senhorita.
 Certo, pode contar com minha colaborao  respondeu Sandra, ainda surpresa com a morte de Erikson.
 De qualquer forma, pode considerar-se segura, a menos que tenha medo de fantasmas  comentou o policial.  No deixe que essa experincia atrapalhe sua vida, senhorita. O mundo est cheio de pessoas que gostam de machucar os outros.  como uma doena. Por isso fao esse trabalho.Mas nem todos so maus...
 Obrigada.
Os dois saram abraados para a luz do sol, que pareceu injetar novas foras, numa viso do futuro que os aguardava. Comearam a andar de mos dadas, pela calada.
 Sabe por que coisas assim continuam a acontecer?  Perguntou subitamente Sandra.
 Por qu?
 Porque as mulheres morrem de medo de perder o emprego. Tm medo de coisas como as que aconteceram comigo, que as torne assunto de fofocas dos colegas, ou de serem discriminadas por atitudes impopulares. Mas mesmo que voc conserve o trabalho, eles ainda tratam a gente diferente. Existem mulheres que no acham nada demais o fato de um homem usar palavras vulgares quando ela passa, ou de fazer observaes discriminatrias.  
-...Acreditam que deve ser assim, o que torna pior as coisas, porque o sujeito fica sempre impune.
 Ningum disse que seria fcil...  sentenciou Lang.  Nossa realidade  como a selva. Muitas vezes  perigoso fazermos o que parece certo; em outras isso causa um bocado de aborrecimentos. Mas nada altera o fato de que todas as pessoas tm o direito de trabalhar sem serem perturbadas.
Ela pensou um pouco e concordou com um gesto de cabea.
 Pode ser. Mas no sei se eu teria coragem de fazer tudo outra vez, depois do que passei...
 Est brincando! Voc diz isso agora, mas na hora fica vermelha e reage cheia de coragem.  capaz de arrebentar uns dois ou trs ao mesmo tempo.
 Voc  suspeito para ficar elogiando.
 Pode ser que eu seja suspeito, mas que voc estendeu o cara no cho, isso estendeu. Eu no queria estar na pele dele. Alis, quero morrer seu amigo, depois disso. Amo voc.
Os olhos dela transbordavam de amor.
 Voc dizendo isso de cara limpa, e  luz do sol... deve ser mesmo verdade.
 No acredita em mim?
Sandra parou de andar e olhou fundo nos olhos dele.
 Acredito. No acho que seria possvel eu te amar tanto sem voc sentir a mesma coisa.
 Espertinha. E falando em espertinha, quando sai da Lancaster?
 Na outra segunda-feira. Daqui a quinze dias  respondeu ela.  Ah, esqueci de contar. Na Reflections, j comeo com um salrio bem maior.
Ele sorriu.
 Vai ter que viajar tanto quanto viaja agora, para atender clientes?
 No. Quando conversei com meu novo patro, disse a ele que precisava estar em casa todas as noites  explicou ela.  E ele respondeu que tem dois empregados jovens e solteiros que gostam de viajar e podem dar conta dessa parte. Pelo menos at ampliarmos os servios. Ento talvez eu precise viajar para atender os clientes mais importantes, mas mesmo assim, ser espordico.
 Se for assim, no h problema. Como meu trabalho  s na cidade, quando viajar posso cuidar das crianas.
 Crianas? Lang, voc usou o plural, reparou?  
  mesmo?  sorriu ele.   que o ideal para mim seria um menino e uma menina.
 Tem certeza?
 Tenho.
 Nesse caso, preciso informar que na minha famlia, os meninos tm prioridade. Quer dizer, sou a nica mulher em duas geraes. As probabilidades dizem que no vai ser fcil ter uma filha...  ele ia comear a responder, mas Sandra colocou o indicador nos lbios que se abriam.  Gosto de jogar beisebol, lembra? E nunca brinquei com bonecas.
 Certo. Vamos ver o que a gente consegue nesse sentido...
 Por que no vamos para casa, j que hoje no temos trabalho?  sugeriu ela.  A gente comea a tentar hoje mesmo. O que acha?
 Meus joelhos esto tremendo.
 Quer saber de uma coisa? Os meus tambm.
Sandra aconchegou-se contra ele, caminhando para o carro. Por reflexo, examinou os arredores, e s depois deu-se conta de que no era mais necessrio.
 Ser que ele tinha famlia?
 Quem, Erikson?
 .
 No tinha. Pelo menos no constava nada na ficha.
 Coitado, Lang. Ele era doente. Mentalmente doente. Estou com pena dele.
 Ele escolheu o prprio destino. Podia muito bem ter procurado outro emprego, em vez de apoquentar voc  retrucou Lang.  A verdade  que estou contente por voc estar segura outra vez. Daqui por diante, pretendo tomar conta de voc.
Ela gostou de ouvir o tom de preocupao vindo de Lang, e apoiou o rosto no ombro dele.
 Tambm pretendo tomar conta de voc.
 Vamos parar no caminho e tirar a licena de casamento  sugeriu ele, parando ao lado do carro.  Depois vamos para casa tentar.
Ela no quis discutir.

A cerimnia de casamento teve lugar uma semana depois, na presena de Bob, Connie e Mikey. Logo aps, saram numa breve viagem de lua de mel para a Jamaica.
Quando voltaram, Sandra comeou no emprego novo, e descobriu que era muito mais agradvel do que o anterior. Os Lancaster perderam a conta de Lorna, e tambm a promessa de obteno de novos clientes. Chegaram a marcar um almoo com Sandra, no qual se desculparam por acreditar em Lorna e ...  
 
  ...fizeram uma boa oferta para que retornasse  posio que ocupava na companhia. Sandra aceitou graciosamente as desculpas, mas no quis voltar ao trabalho, embora Lang tambm tivesse apoiado a idia. Mas no houve rancores de nenhuma parte, e o casal deu como presente de casamento uma baixela de prata.
 Foi muito simptico da parte dos Lancaster, no achou?  perguntou Sandra, deitada na cama ao lado de Lang.
 Os dois so pessoas sensatas, e muito educadas  concordou Lang.  Sabe, reparei que voc estava enjoada depois do caf. Comeu alguma coisa que fez mal?
 No, no. Pelo contrrio. O melo com presunto estava uma delcia. Foi s um enjo.
 Enjo!  os olhos de Lang brilharam.
 Amanh vou comprar um daqueles testes de gravidez. Depois, vou marcar uma consulta no ginecologista, para confirmar  disse ela.  Mas meu instinto feminino no vai se enganar.
Ele a beijou, incapaz de conter-se.
 O seu instinto diz se  menino ou menina?
 No existe absolutamente nenhuma chance de ser uma menina  garantiu Sandra.  Eu fui a nica mulher em duas...
 Geraes  completou Lang, beijando-a na barriga.


Oito meses mais tarde, ele estava num quarto de maternidade com Ceclia Maureen Patton nos braos. Depois de completar embevecido o rosto mais precioso do mundo, ergueu a sobrancelha e olhou para a esposa.
 Tudo bem. Sei que voc est louco para dizer. Pode falar  desafiou ela.
Ele riu, e seu rosto demonstrava o que lhe ia no corao, ao sentir o pequeno ser que palpitava em seus braos.
 Obrigado. Acabei de descobrir que no sabia nada sobre a vida at sentir minha filha nos braos  declarou Lang, emocionado.
 Entendo perfeitamente o que quer dizer  concordou ela, com os olhos embaciados.  Nunca senti as coisas que senti agora. A maravilha  que essa pequena vida, criada pelo nosso ato de amor...  
 No podemos esquecer como foi gostoso  lembrou Lang, acariciando o rosto da esposa, depois baixando os olhos para a filha.  Ela no  linda? Papai vai passear muito com ela, comprar algodo doce, e quebrar a cara dos meninos que a deixarem tristes. Ela vai aprender defesa pessoal, vai aprender a atirar, a seguir espies...
 E a mame vai ensinar como criar anncios muito bonitos  acrescentou Sandra.
Lang sorriu.
 Adivinhe o que ela vai gostar mais de aprender.
Sandra ficou quieta. No disse mais nada. Sabia que a filha teria uma vida interessante, e que o casamento iria melhorar ainda mais com os anos, se  que isso era possvel. Recordou desde o princpio os momentos que haviam passado juntos, a estrada, por vezes cheia de obstculos, que percorreram at chegar quele momento, de felicidade absoluta.
Faria tudo outra vez. Quando sorriu para o marido, todos esses sentimentos passaram por seus olhos, como se o corao se derramasse por ali, encontrando o dele, que vinha no sorriso.



                                                               FIM  
